Como é vivenciar uma primeira crise em psicose?

O estudo explora a experiência emocional e corporificada de indivíduos que passam por uma primeira crise em psicose.

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Um estudo recente em Qualitative Research in Psychology procura expandir a nossa compreensão de como é viver uma primeira crise em psicose. Os autores utilizam métodos de entrevista qualitativa para compreender a experiência em seus elementos corporais e emocionais, afastando-se de um modelo estritamente neurobiológico de doença. Os dados também são considerados para informar como podem informar um tratamento responsável e eficaz para indivíduos em crise.

“O discurso do sobrevivente vem surgindo e começa a desafiar a ‘psicopatologia’ do colapso e da crise”. Os relatos em primeira pessoa da sua experiência psicótica, bem como a pesquisa fenomenologicamente orientada e da perspectiva do sobrevivente, continuam a apoiar esta mudança em direção a uma prática e pesquisa no campo orientada à recuperação e centrada na pessoa, o que ecoa em um reconhecimento renovado da importância da experiência emocional após um período de negligência, onde tem sido favorecidas abordagens farmacológicas e cognitivo-comportamentais orientadas aos sintomas para promover o tratamento da psicose.

Os dados também são considerados para informar como podem orientar um tratamento responsável e eficaz para indivíduos em crise.

Coincidindo com um interesse crescente pelos aspectos psicológicos da psicose, em oposição aos meramente biológicos, muitos pesquisadores têm se voltado para explorar o fenômeno como ele é vivenciado.

Embora haja uma longa história de psicólogos tentando entender a experiência da psicose, os pesquisadores modernos estão ainda trabalhando no mapeamento de seus elementos pessoais e temáticos usando métodos descritivos aprofundados de entrevista. Isto pode ser ligado a esforços críticos em psicologia e psiquiatria para enfatizar todo o ser humano, em vez de focar apenas no cérebro e nas explicações neuroquímicas.

“Durante as duas últimas décadas e com o apoio do movimento de serviço-usuário/sobrevivente, a recuperação social, emocional e psicológica também tem sido reconhecida como importante. Novos modelos de recuperação foram desenvolvidos, que definem a recuperação como uma jornada ou processo individual e significativo e levam em conta as complexidades e muitos significados subjetivos da recuperação”, escrevem os autores.

O estudo atual utiliza métodos fenomenológicos de entrevista para dar corpo à experiência vivida de pessoas que passam por crises de psicose pela primeira vez. O objetivo é chegar à “plenitude” e à “riqueza” dessas “experiências sentidas”. Eles também procuram entender como essas experiências podem interagir com questões de adaptação e recuperação.

Trabalhadores de apoio entre pares recrutaram sete participantes através de instituições de assistência à saúde mental, onde estiveram envolvidos em grupos de apoio entre pares. São utilizados métodos de entrevista fenomenológica semiestruturada, visando captar aspectos verbais, visuais e incorporados da experiência.

“A pesquisa fenomenológica-hermenêutica visa explorar o ‘o que é’ (noema) e ‘como é experienciado e compreendido’ (noesis), enquanto abraça a natureza intersubjetiva, encarnada e embutida da experiência humana. Os fenomenólogos hermenêuticos utilizam explicitamente a interpretação para dar sentido e situar as experiências vividas de seus participantes dentro do contexto de sua situação de vida, do contexto cultural e histórico mais amplo, bem como das especificidades da situação da pesquisa. Adotando uma abordagem hermenêutico-fenomenológica, o pesquisador pretende ‘compreender o significado’ da criação de sentido dos participantes, mantendo-se fiel às experiências dos participantes – assim como reconhecer e valorizar o envolvimento do pesquisador no processo de pesquisa”, explicam os autores.

Os autores descobriram três temas principais em seus dados. O primeiro tema que chamam de “sentir-se despedaçado”, conforme expresso pela observação do entrevistado, “Foi como um relâmpago que atingiu o meu mundo”. Isto foi definido por um senso de si mesmo despedaçado, um sentimento de estar preso, e desespero suicida.

Vários participantes descreveram esta experiência em termos de um choque ou ataque repentino e a associaram a experiências passadas com abusos traumáticos. Uma sensação de “apocalipse” é comum: dor, horror, ficar preso e falta de poder.

“[Eu era] empurrada, intimidada, emocionalmente e fisicamente abusada […] isso iria parar, iria – iria parar todas as minhas funções normais. […] Foi quando comecei a ouvir vozes. Foi uma experiência horrível”, explica uma participante.

O segundo tema que os autores chamam de “uma estranheza e uma ameaça persistentes”. Este tema foi marcado por “sentimentos de desorientação” e “uma sensação de ameaça persistente”. A confusão, a sensação de estar sobrecarregado e o sentimento de que o mundo é estranho ou irreal foram experiências compartilhadas. Também havia uma forte sensação de ser incapaz de distinguir o que era “verdadeiro” do que era “não verdadeiro”.

Esta confusão coincidiu com a temerosa antecipação do perigo. Um participante descreveu isto como um “ar de perigo”. A experiência da ameaça era muitas vezes indefinida e desconhecida, mais como uma característica de fundo da vida do que qualquer perigo com nome.

“Sim, parecia que se estava sendo observado e talvez as pessoas estivessem seguindo cada movimento meu, então se tem que ser cuidadoso e muito … Acho que também há uma sensação de … Como se eu estivesse sempre um pouco assustado e apavorado com tudo o que eu encontrava pela frente”.

Ao terceiro tema faltava um sentimento de pertença, o que é expressado por um participante: “Fiquei encalhado no escuro”. Todos os sete participantes relataram esta experiência de solidão e desconexão. A experiência foi frequentemente seguida pelo desejo de evitar o contato com outras pessoas, para a segurança dos participantes. Sentimentos de abandono, como por exemplo por Deus, também foram uma experiência relatada. Os participantes ansiavam pela conexão, mas lutavam para se sentirem seguros o suficiente para persegui-la.

“Eu achava que não fazia parte disso [do mundo], eu achava que nunca iria melhorar. Eu achava que ninguém me entendia, eu me sentia sozinho, queria conseguir algo no mundo, mas não achava que alguma vez conseguiria”.

Bögle e Boden observam que o trauma é uma característica comum nas experiências de seus participantes, confirmando pesquisas anteriores ligando trauma e psicose. Estas experiências traumáticas históricas estavam presentes na psicose, muitas vezes amplificadas como perda do sentido de si mesmo, irrealidade e sensação de perigo iminente. Os autores sugerem que perspectivas informadas sobre o trauma podem provavelmente melhorar o bem-estar de indivíduos que sofrem de psicose. Eles concluem:

“Serviços que consideram a pessoa holisticamente, levando em conta como ela vê os outros, o mundo e a si mesma, que veem a ‘sintomatologia’ como experiência significativa, e que consideram os sentimentos e emoções do usuário dos serviços como algo a ser reconhecido e explorado, ao invés de apenas medicado, também podem oferecer benefícios a longo prazo, permitindo que as pessoas se sintam seguras o suficiente para reconstruir seu senso de si como um ser social”.

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Bögle, S., & Boden, Z. (2019). ‘It was like a lightning bolt hitting my world’: Feeling shattered in a first crisis in psychosis. Qualitative Research in Psychology, 1-28. (Link)

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Equipe MIA Research News: Micah Ingle é um estudante de doutorado em Psicologia: Consciência e Sociedade na Universidade do Oeste da Geórgia. Ele publicou abordagens terapêuticas centrando a pessoa ao contexto e às características das pessoas com alta empatia, em oposição ao modelo médico individualizante. Seus interesses atuais incluem a interseção de estruturas sociopolíticas / econômicas e saúde mental, individualismo em psicologia, gênero, psicologia da libertação e perspectivas mitopoéticas inspiradas pelo pensamento junguiano.