Descendo mais no buraco de coelho da pesquisa sobre a síndrome de abstinência de antidepressivos

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Para aqueles que ainda estão interessados ​​no recente debate sobre a síndrome de abstinência dos antidepressivos, aqui está um novo e importante segmento.

Antes de chegarmos à parte essencial, vamos primeiro lembrar que a nossa revisão sistemática apresentada em Addictive Behaviors (2018) mostrou, entre outras coisas, que cerca da metade das pessoas que param de tomar antidepressivos experimentam sintomas da abstinência. Essa conclusão foi criticada em um blog de Joseph Hayes e Sameer Jauhar, ao qual respondemos apontando os muitos erros e deturpações graves do blog (vejam a nossa resposta aqui).

A nossa resposta a esse blog, no entanto, não tratou de uma das principais críticas feitas por Hayes e Jauhar: que a nossa revisão sistemática não incluiu cinco ensaios de controle randomizados (ECRs). (Estes ECRs foram: Baldwin 2004 & 2004b; Lader 2004; Montgomery 2003 & 2004.) Eles alegaram que esses cinco ensaios, embora se concentrassem principalmente na eficácia dos antidepressivos, também continham dados sobre a ‘incidência’ da abstinência – isto é, sobre a real dimensão do fenômeno. Se tivéssemos incluído esses dados em nossa revisão, sustentaram Hayes e Jauhar, o número de pessoas que sofrem de abstinência de antidepressivos teria sido menor do que o relatado por nós, talvez em cerca de 10% (inferimos esses 10% das tabelas que produziram em sua crítica no blog original). Foi, portanto, negligente ou desonesto da nossa parte, eles insinuaram, não havermos incluídos os dados desses estudos.

Hoje, gostaríamos de lidar brevemente com a crítica desse específico blog, não apenas para mostrar como ela é infundada, mas sobretudo porque ao buscarmos os fundamentos da crítica obtivemos um insight crucial sobre o quão sombrias e eticamente suspeitas são as pesquisas com antidepressivos quando passam a ser vistas de perto.

A primeira coisa a notar quando se olha para estes cinco ‘estudos’ é que a empresa farmacêutica, a Lundbeck, financiou todos esses estudos. Além disso, todos os cinco estudos foram realizados e escritos (total ou parcialmente) por funcionários da Lundbeck, que chegaram à conclusão de que seus antidepressivos eram superiores aos medicamentos concorrentes.

A segunda coisa a notar sobre esses estudos é que três deles não foram publicados como estudos completos. Em vez disso, eles foram publicados como curtos ‘suplementos de pesquisa’  – cada um com cerca de 300 palavras. Para aqueles que não sabem muito sobre ‘suplementos de pesquisa’, eles são basicamente resumos de estudos financiados pela indústria que algumas revistas publicarão em troca de uma taxa cobrada pelo serviço. Escusado será dizer que os óbvios conflitos de interesses que estes suplementos envolvem, bem como os sérios desafios que se apresentam a qualquer pessoa que queira avaliar adequadamente os métodos deles (suplementos não fornecem detalhes suficientes para isso). Essas são apenas duas entre as inúmeras razões éticas e científicas para que muitas revistas credíveis, como a Lancet, agora se recusem a publicá-las.

A terceira e mais desconcertante revelação sobre esses cinco ‘estudos’ e, por extensão, as supostas evidências sobre as quais Hayes e Jauhar baseiam a sua crítica, é que nenhum dos cinco estudos realmente contém dados sobre a incidência da abstinência quando se para de tomar antidepressivos. Com outras palavras, esses cinco estudos não contêm os mesmos dados que Hayes e Jauhar alegaram que tenhamos ignorado.

Embora isso, é claro, explique por que não incluímos esses estudos em nossa revisão sistemática, isso não explica por que Hayes e Jauhar afirmaram que os dados estavam lá. Podemos apenas supor que Hayes e Jauhar não verificaram esses cinco estudos. Em vez disso, eles simplesmente citaram um artigo financiado pelo laboratório farmacêutico Lundbeck, que foi publicado três anos depois (por Baldwin et al., 2007), que de alguma forma ‘cita’ dados desses cinco estudos originais que na verdade nunca foram incluídos neles.

Duas implicações disso surgem:

Em primeiro lugar, e mais obviamente, baseando seus argumentos em fundamentos tão duvidosos, Hayes e Jauhar invalidam muitas de suas principais críticas, como a opinião de que a taxa de ocorrência de síndrome de abstinência apresentada nos ECRs está mais próxima de 40% do que dos nossos 50%, insinuando que não fomos o suficientemente meticulosos (ou, o que é pior ainda, que fomos tendenciosos) por não incluir esses cinco ECRs.

A segunda implicação diz respeito a por que tais práticas de pesquisa são permitidas. Como um artigo posterior pode citar dados de ‘estudos’ financiados pela empresa e que não relatam esses dados (e muito menos informam os mecanismos pelos quais esses dados foram coletados)? E como indivíduos, jornais e comunidades de profissionais podem permitir ou fazer uso dessas práticas suspeitas e, ao mesmo tempo, receber ajuda financeira das empresas para beneficiar-se delas?

Ambas as implicações só podem aumentar a crescente inquietação das comunidades de usuários, dos profissionais e dos serviços quanto ao estado empobrecido da pesquisa sobre a retirada de medicamentos psiquiátricos. Onde tal pesquisa existe, ela é dispersa e mínima (e sua metodologia é para minimizar os efeitos da retirada). E onde tal pesquisa exerce influência, parece que o faz menos em nome dos pacientes (cuja retirada muitas vezes carece de reconhecimento e apoio adequados) do que daqueles que promovem, defendem ou sempre prescrevem amplamente essa classe de psicofármacos.

Referências utilizadas:

  1. Baldwin DS, Hindmarch I, Huusom AKT, Cooper J (2004a). Escitalopram and paroxetine in the short and long-term treatment of major depressive disorder (MDD). International Journal of Neuropsychopharmacology 7 (Suppl. 2), S168–S169.
  2. Baldwin DS, Huusom AKT, Mæhlum E (2004b). Escitalopram and paroxetine compared to placebo in the treatment of generalised anxiety disorder (GAD). European Neuropsychopharmacology 14 (Suppl. 3), S311.
  3. Lader M, Stender K, Burger V, Nil R (2004). The efficacy and tolerability of escitalopram in 12- and 24-week treatment of social anxiety disorder: a randomised, double-blind, placebo-controlled, fixed-dose study. Depression and Anxiety 19, 241–248.
  4. Montgomery SA, Durr-Pal N, Loft H, Nil R (2003). Relapse prevention by escitalopram treatment of patients with social anxiety disorder (SAD). European Neuropsychopharmacology 13 (Suppl. 4), S364.
  5. Montgomery SA, Huusom AKT, Bothmer J (2004a). A randomised study comparing escitalopram with venlafaxine XR in patients in primary care with major depressive disorder. Neuropsychobiology50, 57–64.
  6. Lundh A, Barbateskovic M, Hróbjartsson A, Gøtzsche PC. (2010) Conflicts of interest at medical journals: the influence of industry-supported randomised trials on journal impact factors and revenue – cohort study. P L o S Medicine. 2 (1);7(10):e1000354. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1000354
  7. The perils of journal and supplement publishing. Lancet 2010; 375(9712): 347. DOI:https://doi.org/10.1016/S0140-6736(10)60147-X
  8. Baldwin DS, Montgomery SA, Nil R, Lader M. (2007) Discontinuation symptoms in depression and anxiety disorders. International Journal of Neuropsychopharmacology. 1;10(1):73-84.

Co-autor:

James Davies, PhD

Dr. James Davies é um dos fundadores do Council for Evidence Based Psychiatry (CEP) e é editor do livro The Sedated Society: The Causes and Harms of our Psychiatric Drug Epidemic. Graduou-se pela University of Oxford em 2006 com um PhD em antropologia médica e social.  Ele é professor senior em antropologia social e psicoterapia na University of Roehampton e é clínico psicoterapeuta, havendo trabalhado para MIND e para o NHS.

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