Superando a loucura em todos nós

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Parafraseando Shakespeare, “Um toque de loucura torna o mundo todo familiar.” A loucura é uma questão inteiramente relativa: alguns de nós têm um ‘toque’ e outros já estiveram lá e voltaram, mais de uma ou duas vezes. Entender a loucura de uma pessoa é, até certo ponto, entender a de todos, porque essas experiências têm muito em comum.

Acredito que tudo o que chamamos de loucura, doideira, psicose, sérios problemas pessoais, problemas de vida – todo o espectro de sofrimento emocional e fracasso pessoal – geralmente têm duas lutas entrelaçadas subjacentes acontecendo dentro do indivíduo. Como a própria loucura pode ser difícil de definir ou chegar a um acordo, ela pode ajudar os indivíduos a se perguntar se estão lutando com esses dois problemas.

Uma luta tem a ver com a superação de sentimentos de desamparo. A outra tem a ver com a superação de sentimentos de indignidade ou falta de amor. Coloquemos as duas juntas e temos o desamparo diante de nos sentirmos sem valor ou indignos de amor. Entender isso é entender muito do que leva os seres humanos emocionalmente para ‘além do limite’ e para o fracasso pessoal em nossas vidas.

Minha experiência pessoal, meu trabalho clínico e todas as outras coisas que lido para ajudar a compreender a vida me levaram nos últimos tempos a focar cada vez mais nessas duas expressões de vulnerabilidade psicológica – o sentimento de desamparo e o sentimento de se sentir sem valor ou  indigno de amor.

Sentimentos de desamparo podem ser experimentados de várias maneiras. A ansiedade é a sua experiência mais crua e primitiva, e provavelmente se aproxima do que uma criança agitada e chateada está passando. Com a idade, pode se transformar em vergonha e culpa, além de raiva e entorpecimento emocional. Viver uma vida boa é profundamente auxiliado pela superação dessas emoções. Isso envolve identificar essas emoções negativas herdadas, rejeitá-las enquanto sentimentos a serem obedecidos ou a agir sobre elas, se determinando a viver pela razão e pelo amor.

Às vezes, sentimos isso como uma culpa desmoralizante, outras vezes como uma abrasadora vergonha ou ansiedade aterrorizante e, às vezes, as três ao mesmo tempo. Podemos escapar para a frustração, raiva e fúria, mas por baixo sempre está o medo e o desamparo. Podemos ouvir vozes ou ver coisas que os outros não experimentam, ou mais comumente nos amarrarmos com laços de obsessões e compulsões. Na raiz, há a experiência humana central de níveis infantis de ansiedade e desamparo, além de sentir-se indigno de cuidados, atenção e amor humano.

Da mesma forma, embora existam muitas maneiras de superar as crises e a loucura pessoais, todas elas têm algo em comum – a superação de sentimentos de desamparo, frequentemente associados a sentimentos de não ser digno de amor.

Loucura como crescimento humano

O que quero dizer com loucura é uma experiência avassaladora de angústia emocional que nos deixa isolados, abandonados, amedrontados, desamparados e sem amor, ou pior,  indignos de amor. Como enfatizado no início deste post, a experiência da loucura é inteiramente relativa. Para algumas pessoas, isso pode significar sentimentos vagos de incapacidade de lidar ou gerenciar a vida ou a sensação de que algo ‘estranho’ ou ‘irreal’ está acontecendo. Na maioria dos estados extremos, o indivíduo pode se enredar em um horror de pesadelo cercado por alucinações. A psiquiatria tenta analisar as manifestações mais extremas da angústia humana, fazendo diagnósticos artificiais simplistas para justificar a prescrição de drogas, de choque elétrico, isolamento e / ou ‘tratamento involuntário’ para o indivíduo.

Com trauma suficiente – como as várias formas de lavagem cerebral, tortura e abuso implacável – a loucura extrema provavelmente pode ser trazida à tona em quase todas as pessoas. Quando admiramos mártires como Sócrates, Joana D’Arc e o abolicionista John Brown, isso ocorre em parte porque, por uma boa causa, eles encontraram forças para não desmoronar e não abrir mão dos seus valores. No entanto, além dos estressores atuais, na maioria das vezes existem vulnerabilidades profundas da infância ardendo sob a loucura e surgindo na juventude ou na idade adulta.

A loucura severa tem sido chamada de ‘estado extremo’, ‘realidade alternativa’, ‘opressão emocional’ ou ‘crise psicoespiritual’. Normalmente, parece o fim de nossas vidas ou o fim do mundo, ou ambos. No entanto, essas experiências horríveis podem nos motivar a refazer nosso tecido pessoal e social em uma nova perspectiva para as nossas vidas, em uma abordagem artística, espiritual ou até política.

De Moisés, Jesus e Buda a Lincoln, Gandhi e Churchill, a vida de pessoas que valorizamos muito raramente era ‘normal’ para os padrões psiquiátricos. Os psiquiatras diagnosticariam cada um deles com rótulos degradantes, como esquizofrenia, transtorno depressivo maior e transtorno bipolar. Talvez não possamos nos tornar completamente humanos sem passar por nossa própria experiência de loucura ou opressão psíquica aterrorizante, que pode se manifestar como angústia adolescente, uma crise na meia-idade ou uma ‘crise psicótica’.

Origens da loucura na infância

As evidências científicas que vêm evoluindo há anos confirmam que os traumas na infância, incluindo a negligência, preparam o cenário para a loucura do adulto. Do ponto de vista da psicologia do desenvolvimento e da teoria do apego (‘attachment theory’), o que chamamos de loucura geralmente resulta dos buracos ou rasgos no tecido social que nos foram tecidos desde a infância.

Quando bebês, nascemos em total dependência, com a consequência de episódios inevitáveis de medo e desamparo. Totalmente incapazes de sobreviver por conta própria, fomos repetidamente resgatados e transformados por aqueles que nos nutriram. Quem nos cria constroi o tecido social em que nos desenvolvemos, tornando nossas personalidades e identidades de muitas maneiras inseparáveis de nossas experiências com as pessoas que nos criaram. Extremos de loucura ou sobrecarga emocional geralmente resultam da falta ou do rompimento desse tecido social interno e externo intimamente tecido em nossas primeiras vidas. Lutas emocionais menos severas também serão alimentadas por momentos menores, mas inevitáveis, de dificuldade emocional na infância.

Portanto, faz sentido que as ‘soluções’ para a loucura sempre envolvam a cura do tecido social interno e externo através do desenvolvimento de novas e melhores abordagens da vida, geralmente juntamente com novos e melhores relacionamentos.

Minha experiência pessoal e clínica

Não separo minha experiência de mim mesmo – meu próprio sofrimento e minhas próprias tentativas de crescer – da minha experiência clínica. Na terapia, muitas vezes compartilho minhas experiências pessoais para deixar claro que somos todos muito parecidos, tanto na miséria quanto na recuperação, e para oferecer esperança para a capacidade de uma pessoa se transformar para melhor, pelo menos no nível que pareço ter alcançado. Encontro pouco ou nada em mim que não vi nos outros e o que vejo nos outros também vejo em mim. Esse ponto de vista ou atitude me ajuda a manter a humildade necessária para ajudar outras pessoas.

Em uma apresentação intitulada “O que nos faz sofrer e finalmente se recuperar – ou não”, recentemente abri meu próprio coração na minha série de rádio / TV para descrever a importância de me sentir ‘indigno de amor’. É uma experiência, eu acredito, que muitas pessoas compartilham entre seus medos, ansiedades e fontes de angústia mais devastadores.

Em uma apresentação em 1º de janeiro de 2020, chamada “As melhores coisas que aprendi da vida”, descrevi minha experiência de uma ‘presença amorosa  em minha vida e no mundo. É algo que posso experimentar quantas vezes quiser para alento espiritual. Sei em primeira mão como sentir ou experimentar a presença amorosa pode reafirmar nossa dignidade humana básica de amar e ser amado. Também pode nos ajudar a lembrar o potencial do amor em todas as pessoas.

Com base na minha experiência pessoal e clínica, acredito que o maior desafio ou ameaça à nossa identidade e solidez mental advém do medo de ser indigno de amor. Não podemos melhorar completamente esse medo por conta própria, mas devemos confiar em parte em recursos externos que convidam, incentivam, exemplificam ou extraem nossa própria capacidade de sentir e dar amor.

Esta é a soma prática da minha sabedoria: existe amor e depois há todo o resto, todas as coisas terríveis e desmoralizantes, incluindo a quebra do nosso senso de si e do nosso relacionamento com os outros, terminando em opressão e loucura. Amar os outros, a natureza, a arte, os animais de estimação – amar qualquer aspecto da vida – é incompatível com a loucura e fornece o caminho da loucura para uma vida melhor. E existe uma presença amorosa no universo, sobre a qual podemos buscar alento e inspiração.

Tornar-se um ser humano amoroso apresenta à maioria de nós um desafio significativo. Para cumprir nossa promessa, devemos, novamente nas palavras de Shakespeare, superar “os estilingues e flechas da sorte (‘fortune’) ultrajante”. Devemos superar nossa própria natureza humana com todas as suas falhas e contradições internas e nossa história do desenvolvimento com suas deficiências e conflitos adquiridos. Esta é a nossa tarefa e a nossa aventura; e nunca acaba enquanto estamos vivos; e, quem sabe, pode continuar além da vida.

Psiquiatria e Loucura

Nossa tarefa e aventura ao longo da vida de levar a vida com razão e amor podem ser frustradas pela exposição a drogas psiquiátricas ou outras substâncias psicoativas. Isso porque qualquer coisa que interfira amplamente com a função de nossos cérebros prejudicará a função do nosso lobo frontal, o que torna mais difícil para nós amar, nos relacionar com os outros e afirmar valores mais altos.

Diagnósticos de loucura, como psicose breve, transtorno bipolar, esquizofrenia, transtorno depressivo maior e transtorno do pânico, são criados e aplicados às pessoas a fim de justificar o poder da psiquiatria e seus tratamentos físicos, os quais causam mais danos do que benefícios. No último meio século, essa autoridade psiquiátrica se tornou nada mais do que o covarde e avarento departamento de vendas do Império Farmacêutico.

Somos muito mais que nossos cérebros; mas a disfunção cerebral induzida por drogas prejudica nossa capacidade de conhecer e nos expressar como almas, seres ou pessoas. A psicoterapia pode ajudar, desde que seja protegida por restrições éticas e atenda à nossa natureza e necessidades pessoais; mas nenhuma ajuda, conselho ou encorajamento ajudará sem encontrarmos a determinação e a coragem de superar nossos sentimentos de desamparo na infância e nossas emoções negativas, incluindo nossa convicção de que somos indignos para o amor.

Como podemos melhorar a loucura?

Muitos terapeutas experientes estão encontrando um ponto em comum na ênfase em descartar o modelo médico e os medicamentos psiquiátricos – e substituí-los por relacionamentos de cuidado. O psicólogo Michael Cornwall resume sua experiência e atitudes em “Reflexões sobre 25.000 horas de estar com pessoas em estados extremos“. Em um ensaio autobiográfico, ele enfatiza a importância do ‘amor misericordioso’. O próprio Michael sofreu um estado tão extremo que o arrasou quando jovem: “A estranha experiência do próprio tempo durante meus estados extremos poderia ser medida em períodos agonizantes de ser atacado por vozes tortuosas e sem corpo, enquanto imagens aterrorizantes e inescapáveis enchiam minha mente”.

Da mesma forma que Michael, em um livro antigo, Toxic Psychiatry, eu comecei a me referir aos chamados transtornos psiquiátricos como experiências de “opressão emocional” e também como “crises psicoespirituais”; e a frase de Michael “estados extremos” também serve. Minha própria ênfase no amor e na empatia também é consistente com a ideia dele de amor misericordioso.

Aqui estão as três primeiras das minhas 15 diretrizes para terapia empática®:

  • Valorizamos aqueles que buscam nossa ajuda e encaramos a terapia como uma confiança sagrada e inviolável. Com humildade e gratidão, honramos o privilégio de ser terapeutas.
  • Contamos com relacionamentos construídos com confiança, honestidade, carinho, compromisso genuíno e respeito mútuo.
  • Trazemos o melhor de nós mesmos para trazer o melhor dos outros.

Essas três diretrizes, se aplicadas a todos os nossos relacionamentos, construirão uma vida boa para nós e para os próximos e queridos. Eles também nos permitirão ajudar outras pessoas com quem nos relacionamos, profissionalmente ou não.

A definitiva fonte de amor?

Para serem mais felizes e realizadas, as pessoas precisam pensar e agir com amor genuíno. Mas como isso pode ser feito, considerando como as pessoas podem ser  não confiáveis, não verdadeiras, são erráticas e malvadas, na maneira como se tratam mutuamente? Como podemos viver imbuídos de amor, mesmo que o relacionamento humano mais amoroso possa ser destruído pelo fim, pela morte? Todo mundo que pensou nisso sabe que não podemos viver com o lema “Em outras pessoas nós confiamos”.

Todos os humanos são profundamente falhos, com muitos de nós deixando de agir de acordo com nossos próprios padrões, pelo menos por períodos em nossas vidas. Pior ainda, algumas pessoas lidam com seu próprio senso de indignidade, aproveitando a oportunidade para fazer com que outras pessoas se sintam inúteis.

Dadas as falhas em todos nós, não é de admirar que muitas pessoas encontrem cura pela fé em um Deus amoroso. Aqui, a espiritualidade ou a religião podem se unir à psicologia com uma compreensão da necessidade universal de sentir-se digno de amor e, finalmente, de dar e receber amor. Da mesma forma, não é de admirar que tantas pessoas se voltem para um poder superior para encontrar força, que é a força para superar os sentimentos de desamparo que nos afligem desde a infância.

Um bom lugar para a cura, o que costumava ser chamado de comunidade terapêutica ou um local de culto ou Igreja, deve ter em comum a criação de um espaço amoroso no qual as pessoas se sintam capacitadas para enfrentar e superar seu desamparo emocional. O mesmo vale para o cenário da psicoterapia, que pode ser visto como uma miniutopia, na qual razão e amor são o padrão para o relacionamento. Por fim, é disso que trata todo bom relacionamento íntimo – superação de sentimentos de desamparo e sentimentos relacionados de não ser digno de amor.

Como sabemos e reconhecemos o amor ou um relacionamento amoroso? Pela maneira como nos leva a ter alegria pela existência de outros seres humanos e pela maneira como leva todos os envolvidos a se preocuparem, respeitarem, protegerem e nutrirem.

Tudo de bom entre e com os seres humanos começa e se baseia em relacionamentos empoderadores e amorosos. Amor e auto-capacitação são os ingredientes mais essenciais em todas as atividades que chamamos de terapia, cura, recuperação, reabilitação, crescimento pessoal ou iluminação. Superar nossos sentimentos de desamparo e nos tornar uma fonte de amor são as coisas mais maravilhosas que podemos fazer por nós mesmos e pelos outros. A vida oferece muitos caminhos para a recuperação e a autotransformação, da terapia e educação à amizade, família, trabalho, natureza e espiritualidade. No centro de todo crescimento pessoal está a experiência de sentir-se capacitado para amar e ser amado, o que nos eleva além de nós mesmos, para uma consciência alegre e preciosa de tudo o que é bom em nós mesmos, nos outros e na vida.