TDAH – Congresso SINPF: Resposta do Mad in Italy

0
629

O Congresso Nacional da Sociedade Italiana de NeuroPsicoFarmacologia (SINPF) foi inaugurado em 29 de janeiro em Milão, sobre a questão do diagnóstico e tratamento do TDAH (Síndrome de Hiperatividade e Déficit de Atenção), Asperger e outras doenças patológicas do desenvolvimento neurológico. O artigo publicado por Corriere della Sera (1) é um relato dos pontos essenciais do Congresso, mostra que a liderança da SINPF tem entre seus principais objetivos a criação de uma rede de profissionais e associações de familiares em nível nacional, com o objetivo de divulgar os diagnósticos acima e seu possível desenvolvimento ao longo da vida, da infância à maturidade.

O artigo concentra essencialmente a atenção no curso clínico desses problemas que, segundo os oradores, poderiam passar despercebidos e, portanto, negligenciados, causando danos substanciais ao desenvolvimento neuro-emocional do indivíduo.

Nesse contexto, os palestrantes enfatizam a necessidade de diagnóstico precoce para a adoção de intervenções que possam melhorar o curso desses desconfortos, a fim de evitar ou diminuir a extensão do dano emocional que eles podem criar, se crônico, mesmo na idade adulta.

O papel das drogas psiquiátricas é destacado em seus diferentes e potenciais aspectos terapêuticos, tanto em crianças quanto em adultos, e descrito de acordo com preceitos farmacológicos questionáveis atualmente, conforme discutido no decorrer do artigo.

O artigo do Corriere inclui dados dos Estados Unidos, com referência à prevalência dessas patologias, relacionando-os aos possíveis danos econômicos que resultariam, tendo em vista que esses transtornos seriam acompanhados por outros transtornos, como depressão, ansiedade e transtornos do humor.

Como já mencionado, fica claro que, entre os principais objetivos do Congresso, há a necessidade de ampliar os diagnósticos de TDAH e Asperger, até então limitados à idade da infância e adolescência, mas que atingem a idade adulta, a fim de tratar farmacologicamente também esta parte do população.

Nossa resposta:

Ao entender a importância dos desconfortos emocionais que podem afetar a vida de crianças e adolescentes, com potencial para se estender até a idade adulta, é necessário fazer observações referentes aos conceitos expressos no artigo, para ajudar o leitor a formar uma imagem melhor sobre os problemas discutidos no artigo.

Uma primeira observação é que, ao contrário do que tem sido afirmado, o TDAH não é uma síndrome médica válida, mas reflete um amplo espectro de possibilidades para as variações no comportamento da criança. Quando falamos de TDAH não falamos sobre uma patologia orgânica por si só, pois o termo reúne essencialmente um conjunto de sintomas (desatenção, impulsividade e hiperatividade) que podem ser causados ​​por múltiplos fatores psicológicos, pedagógicos, ambientais e culturais.

O TDAH é frequentemente apresentado como um distúrbio do neurodesenvolvimento com bases genéticas; mas, na realidade, não há evidências de alterações orgânicas do sistema nervoso, nem os genes responsáveis ​​pelo distúrbio foram isolados.

A completa falta de parâmetros biológicos também pode ser deduzida do fato de que os diagnósticos, de acordo com o Istituto Superiore di Sanità, são feitos exclusivamente através da administração de testes com família e a escola,  assim como outras avaliações baseadas em entrevistas e exame de sintomas com escalas comportamental (2).

Não há testes clínicos ou laboratoriais que possam confirmar o diagnóstico de TDAH, como é o caso de doenças ou patologias orgânicas, como por exemplo para diabetes.

É dito pelos neuropsiquiatras infantis que o TDAH seria causado por um desequilíbrio químico no cérebro da criança. Em particular, diz-se que as crianças diagnosticadas têm baixas concentrações de dopamina no espaço sináptico. No entanto, é preciso ficar registrado com honestidade frente aos usuários e leitores que esse desequilíbrio químico ainda não foi comprovado.

Sem esclarecer esses conceitos básicos, a hipótese de desequilíbrio químico dá a impressão errônea de que estimulantes, como o metilfenidato (Ritalina), seriam usados para restaurar o equilíbrio.

O metilfenidato, como outros estimulantes, pertence à classe das anfetaminas, possui o mesmo mecanismo de ação que a cocaína e também pode ser considerado mais poderoso que o mesmo, como afirma Nora Volkow (3).

Como nenhuma deficiência de dopamina foi demonstrada nas sinapses de crianças diagnosticadas com TDAH, parece provável que a hipótese nunca verificada da natureza do TDAH tenha decorrido de deduções no mecanismo de ação dos estimulantes, como tem sido feito para outros transtornos mentais, como depressão, psicose etc. (Gilman e Goodman). (4)

Deve-se notar que entender o mecanismo de ação de um medicamento não é o mesmo que entender a causa do distúrbio da doença que se deseja tratar ou curar.

De fato, no que diz respeito às patologias mencionadas no artigo, as evidências científicas não apenas não confirmam a existência de um desequilíbrio químico, mas também mostram que o desequilíbrio químico é induzido pelo uso de drogas psicotrópicas, como amplamente explicado por Robert Whitaker no livro Anatomia de uma Epidemia (5).

Além disso, no que diz respeito à necessidade de tratamento medicamentoso, a ser estendido à idade adulta, muitos estudos alertam sobre os riscos significativos associados ao uso de estimulantes. Esses medicamentos, como mencionado, pertencem à classe das anfetaminas e são classificados pela OMS como medicamentos com alto risco de dependência e abuso; na mesma tabela de cocaína, anfetamina, opiáceos e barbitúricos, enquanto são classificados pela AIFA (Agência de Regulação Italiana de medicamentos) como psicotrópicos para crianças de 6 a 18 anos (6).

Mas há outra consideração importante: quando se trata de TDAH, costuma-se dizer às pressas e erroneamente que o distúrbio estaria em comorbidade com outros distúrbios, como depressão, transtornos maníacos, transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo, síndrome de Tourette, ansiedade, disforia, e associados à irritabilidade, hostilidade e agressão, tanto verbal quanto física, ‘crises emocionais’ e crise de raiva, ideias e tentativas de suicídio (7).

O psiquiatra americano Peter Breggin, em seu meticuloso estudo sobre os efeitos das drogas psiquiátricas, publicou muitos livros e artigos nos quais fornece evidências tangíveis de que muitas das doenças acima mencionadas atribuídas à ‘comorbidade’ com o TDAH, na realidade, também seriam os efeitos colaterais aos estimulantes e outras drogas psicotrópicas usadas para controlar os efeitos colaterais dos próprios estimulantes. (8) (9)

Em uma certa porcentagem de casos, portanto, o que é chamado de ‘distúrbios comórbidos’ seria realmente efeitos colaterais de drogas psicotrópicas que, não sendo reconhecidos como tais, são tratados com novas drogas psicotrópicas.

Considerando que não há evidências de que o TDAH seja um distúrbio orgânico, de neurodesenvolvimento e genético, mas que os sintomas que o caracterizam têm muito mais probabilidade de serem psicológicos, pedagógicos e ambientais, modelos de tratamento baseados em intervenções psicológicas e psicossociais parecem muito mais convenientes e adequados.

Concluindo, acreditamos que os usuários e suas famílias devem ser informados sobre esses aspectos dos problemas descritos no artigo, que infelizmente são quase sempre negligenciados.

Para obter informações completas, listamos a lista de empresas farmacêuticas que apoiaram o Congresso Nacional do SINPF, conforme mostrado no site do SINPF:

Bibliografia:

(1)  Asperger e Adhd, ancora troppo poche le diagnosi (e le cure). Corriere della sera, 29 gennaio 2020.

https://www.corriere.it/salute/neuroscienze/20_gennaio_29/asperger-adhd-ancora-troppo-poche-diagnosi-cure-72d6c028-4286-11ea-8fab-5eae1fe9ccd1.shtml

(2)  Istituto Superiore di Sanità. ADHD

http://old.iss.it/adhd/index.php?lang=1&id=233&tipo=1

(3) Volkow ND. Expectation enhances the regional brain metabolic and the reinforcing effects of stimulants in cocaine abusers. J Neurosci. 2003 Dec 10;23(36):11461-8.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/14673011

(4)  Goodman & Gilman. Pharmacology. July 6 2018.

https://medicostimes.com/goodman-gilmans-pharmacology-pdf/

(5)  Whitaker R. Indagine su un’epidemia. Fioriti Editore, 2013.

(6)  AIFA Concept Paper. Titolo: Gestione farmacologica del disturbo da deficit attentivo con iperattività (ADHD). 20/11/2014

http://old.iss.it/binary/adhd/cont/AIFA_Concept_Paper_ADHD_101214.pdf

(7)  Comorbilità e diagnosi differenziale del disturbo da deficit dell’attenzione e iperattività: implicazioni cliniche e terapeutiche
https://www.aifaonlus.it/ladhd/le-comorbilita.html#ADHD_DISTURBI_DEPRESSIVI

(8)  Breggin R.P. ADHD: Bambini esposti a più farmaci a cominciare dagli stimolanti.

https://mad-in-italy.com/wp-admin/post.php?post=2478&action=edit

(9)  Breggin R.P. ADHD e trattamenti farmacologici

https://mad-in-italy.com/2019/07/adhd-e-trattamenti-farmacologici/