O suporte familiar às medidas sanitárias com o Coronavírus

Algumas dicas da Saúde Mental Comunitária para o tempo de quarentena em família

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A saúde mental não é um tema relevante para a maior parte da sociedade, mas as medidas sanitárias pela pandemia de COVID-19 nos afetam, em três dimensões centrais e interdependentes: infectológica, econômica e saúde mental. Sem perder de vista que as três estão interligadas, tentemos falar da última.

ATENÇÃO, A PRIMEIRA COISA QUE TEMOS QUE CONSIDERAR: As diferenças entre os grupos sociais, entre quem pode parar na quarentena e quem não pode parar. Parar é um privilégio em uma sociedade ultra desigual, tão injusta na distribuição de riqueza e tão precária na concretização dos direitos; hoje sabemos mais do que nunca as enormes limitações do nosso sistema de saúde¹. Na diferença entre estes dois grupos há uma ideia maiúscula, que não se pode perder: NÃO EXISTE SAÚDE MENTAL SE EXISTE FOME.

Dicas da Saúde Mental Comunitária para a convivência familiares em tempos de pandemia:

  1. Exercitar-nos no viver COM – conviver: talvez descubramos que apesar de dormir, ou até comer, com as pessoas com quem compartilhamos o mesmo teto, não temos intimidade com elas. Intimidade aqui entendida como partilhar o mundo interior (afetos, ideias, perguntas, imaginação…).
  2. Validar o direito à solidão: ter espaços separados, onde se possa conectar consigo mesmo e com seus interesses pessoais. A solidão não é uma derrota, porque viver não é uma competição e porque, finalmente, em um sentido último, há uma solidão que não tem escapatória.
  3. Conflitos no contexto de pandemia: Se existem novos conflitos, estejamos prevenidos que há uma sobrecarga emocional por causa da pandemia, e talvez, possamos fazer um acordo de convivência em uma pequena assembléia familiar. Mas se os conflitos são antigos, talvez seja o momento para tomar decisões e pedir ajuda. Não temos que aguentar o que nos vem fazendo mal.
  4. Tempo para nos (re)conhecermos: usar esse tempo como uma oportunidade para que cada um possa se conhecer melhor, quase como um pequeno laboratório de vida, onde observamos e tentamos reconhecer e crescer naquilo que cada um tem pendente.
  5. Valorizar a lentidão: O que podemos descobrir com nossas vidas indo mais devagar?
  6. Potencializar a solidariedade entre vizinhos: o Estado está defasado e o admite. O mercado se interessa, fundamentalmente, pelo lucro. Então, que o comunitário seja, como tantas vezes, o elemento central do cuidado.
  7. O humor, nosso velho aliado: Nada que já não saibamos sobre isso. Memes e o resto de sempre!
  8. Legitimar e trabalhar as perdas: permitamos a dor do que perdemos. É legitimo que sintamos angustia. Encontrar maneiras de expressar o sofrimento, e nos permitir (sem culpa ou vergonha) pedir ajuda, para sermos cuidados quando estamos frágeis. Como viver sem querer perder nada? (Alejandra Kohan)
  9. Sonhem juntos: fazer o exercício familiar de sonhar uma nação mais solidária e igualitária. é um exercício que se pode fazer em família. Uma tarde, uma noite, em uma conversa (com desenhos, com karaokê, contando histórias), que cada família possa imaginar o que necessitamos para alcançar uma sociedade assim e a concretize quando isso acabe. Porque essa quarentena é por um tempo limitado! Vai acabar! Isso nos dá sentido e um sonho em comum.
  10. Finalmente, a rebeldia é um direito que como pessoa nos damos, e em contexto de abuso, é um sinal de saúde mental. O artigo 138 da Constituição Nacional² habilita ” DA VALIDADE DA ORDEM JURÍDICA: fica autorizado aos cidadãos a resistência aos ditos usurpadores, através de todos os meios ao seu alcance. Na hipótese de que essa pessoa ou grupo de pessoas, invocando qualquer princípio ou representação contra esta constituição, detenham o poder público, seus atos se declaram nulos e sem nenhum valor, não vinculante e, pelo mesmo, o povo em exercício do seu direito de resistência à opressão, fica dispensado de seu cumprimento.

Notas de pé de página:

¹Sistema de Saúde do Paraguai

²Constituição Nacional do Paraguai