Perspectivas para o cuidado de si em meio a uma pandemia sem fim (por enquanto)

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Será que somos gregários? O distanciamento social é o mais tocante ao humano, ao que parece, durante a pandemia e as consequentes políticas restritivas de distanciamento social. A identidade abatida pelo uso de máscara afeta a sensibilidade individual. O mote “fique em casa” afeta o familiar e o infamiliar*, diria Freud, cem anos depois. Em tudo se vê essa ordem e em muitos, na imposição do trabalho para o sustento, gera opressão e culpa pela condição de ter necessidade de ir e vir e não poder ficar em casa. Trabalho em casa (home office) não é a realidade da maioria, apesar de tão falado nas mídias.

De modo mais radical, em especial os inseridos em grupos de risco, sentem a falta de ver alguém presencialmente e a falta de qualquer toque físico torna-se uma realidade. Pessoas que moram sozinhas, trabalham em casa ou estão aposentadas ficam dias e dias, até meses, sem sair à rua e a relação com os outros se manifesta somente por voz e/ou imagem. Há também aqueles que ao contrair a covid-19, ficam em isolamento em casa e outros que passam essa quarentena em espaços coletivos, como escolas adaptadas para isolamento, em comunidades. Uma minoria é internada em hospital, os casos graves.

É um período único de vida, desconhecido, estranho aos coletivos sociais. Assim, faz-se necessário adentrar o contexto diverso em que se vivencia o sofrimento psíquico, para além de diferenças pessoais. Afinal, o indivíduo, o sujeito se constitui em um meio social, em um ambiente com seus valores morais e econômico-políticos. É um conjunto expresso pelas tradições e religiões, condições financeiras, acesso às políticas públicas, à seguridade social (saúde, assistência social e previdência), como também à educação e aos direitos humanos, de deficientes, de gênero, de povos e de cor da pele, de diversidade, enfim. Não nascemos iguais e não temos as mesmas condições para/de estar-no-mundo. É nítido, então, que a epidemia não afeta a todas/os com uma mesma intensidade e as consequências advindas das restrições como da possibilidade de adoecimento, as alterações no ambiente doméstico como nas condições de trabalho são tão diversas como as reações de grupos e individuais a tudo isso.

Em cada um se imprime de uma maneira as experiências sociais e familiares, o sofrimento é disseminado seja pela repressão como pela permissividade, pelas oportunidades ou carências, pelo racismo e pelo sexismo. Pensemos, portanto, que o psicossocial não é um pacote conceitual estanque de instruções e condições para se alcançar a saúde mental. Sem adentrar nas origens desses conceitos, torna-se importante explicitar que as idiossincrasias de ser humano são componentes da saúde mental. Vivemos em situações abrangentes de alterações emocionais e isso influencia nossas atitudes e vice-versa. A busca de se conhecer começa em aceitar a afetividade e a cognição imbrincadas, inseparáveis, se posso ser radical por um momento.

O apego pela vida é inerente a estar vivo e a capacidade de compaixão e empatia nos move em nossos sentimentos mais polares, como raiva e amor, tristeza e alegria, egoísmo e solidariedade etc. No entanto, sentir medo de perder o controle e pensar em desistir, chegando até algumas vezes a sentir vontade de morrer, não é doença mental, mas é preciso estar atento a si mesmo, pois sentimentos exacerbados de medo, de derrota, de insegurança e de urgência, podem ser sinais/alertas e indicam a necessidade de buscar ajuda. Lembrando de que ao que parece somos gregários, a busca do outro quando algo escapa à capacidade de resolução de conflitos é sinal de saúde, de desejo de ficar bem. Nesse contexto social, muitos estão inseguros emocionalmente, com problemas financeiros, muitos precisam reinventar o trabalho, outros sofrem com problemas de relacionamento e algumas novas aproximações afetivas também se estabelecem.

A desesperança e a esperança são dois lados da mesma moeda. Vive-se atualmente com medo de pegar a covid-19 e para muitos a negação dessa possiblidade parece uma solução emocional, mas ao contrário, isso representa um perigo para si de contrair o vírus como também de expor o outro, haja vista o que essa expressão emocional faz em relação a afrouxar os cuidados sanitários. Seria como enterrar a cabeça na areia para não enxergar o fato, a epidemia de coronavírus.

Na minha experiência clínica, é nítido (levando em conta o diminuto número de pessoas nessa observação empírica), nestes meses de pandemia, que a maioria deseja aprofundar o autoconhecimento, deixar a superfície. O isolamento e a incerteza do futuro parecem ter colocado um espelho diante de algumas pessoas. A clínica psi é um dos caminhos possíveis na busca de si mesmo.

Sou uma psicóloga e deixo aos epidemiologistas e matemáticos, entre outros cientistas, os cálculos e as prospecções. Não abordei aqui o negacionismo científico do governo federal e suas graves consequências à população brasileira, analisada em especial por sociólogos. Ative-me aos sofrimentos do sujeito, da pessoa e os alertas do corpo e da alma indicando a necessidade de buscar auxílio profissional habilitado para apoio psicológico. Deixei também o lembrete para aqueles que desejam aprofundar o autoconhecimento e o desenvolvimento pessoal, por meio da clínica psicológica. Fica este brevíssimo panorama sobre a percepção das emoções e sentimentos e da possibilidade de aprofundamento para o cuidado de si, deixando a certeza de que o psicológico se constrói em uma cultura, na sociedade em que se vive.

É um período denso, com data de início e sem definição de quando vai abrandar ou mesmo terminar. Ao mesmo tempo, abre-se uma oportunidade de autoconhecimento para ampliar a autonomia na gestão de si e de seu cotidiano.

Referência bibliográfica:

* Freud, S. O infamiliar [Das Unheimliche]. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.