Nó na garganta!

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Nó na garganta. [1]

Era um dia comum de trabalho. Naquela manhã, como acontecia uma vez por semana, eu iniciaria o dia fazendo plantão, atendendo as demandas que chegavam e as já agendadas para realizar as triagens das pessoas para iniciarem atendimento no ambulatório de saúde mental. A sala de espera estava lotada como de costume e, antes que eu chamasse a primeira pessoa, entrou na recepção uma enfermeira. Ela havia descido da ambulância do Hospital Municipal, logo atrás outra enfermeira apoiava uma mulher com pouco mais de trinta anos de idade que andava cambaleante. As duas se dirigiram ao sofá, enquanto a enfermeira que havia entrado primeiro conversava com a gerente do serviço. Elas me chamaram e pediram prioridade no atendimento à Sra. que vinha encaminhada do hospital.

Iniciei, então, o plantão por aquele atendimento. No consultório, todas as questões que eu fazia eram respondidas por uma ou outra acompanhante, a moça – quem deveria ser atendida – mal abria a boca e já era interrompida pelo relato das enfermeiras. Os olhos dela me olhavam fixamente, como se fossem saltar para fora, estavam molhados, mas não escorriam lágrimas, embora brilhantes, pareciam feitos de vidro, enquanto os lábios se forçaram a ficar cerrados. Vez ou outra, entre um suspiro e outro, virava a cabeça em direção a uma das mulheres que relatavam o seu caso.

Falavam dos sintomas, em tom formal, relataram tudo que puderam notar no primeiro contato: “ideação suicida”, “pensamento desconexo”, “labilidade emocional”, “alucinação auditiva”; em seguida relataram todas as medicações administradas e seus miligramas, formas de posologia e preocupações quanto a situação do quadro de psicose, com ideação suicida, como constava no papel assinado pelo médico que tinha nas mãos. Ao final, sugeriram que aquele caso não parecia ser um quadro que poderia ser tratado ali, afinal, “psicose com ideação suicida” era algo muito grave. Sugeriram um encaminhamento para uma internação psiquiátrica na cidade vizinha – município com hospital de referência. Além, é claro, de solicitarem que eu acionasse o Conselho Tutelar para tratar da guarda e o possível abrigamento das crianças. Senti um nó na garganta!

Neste momento, a mulher que estava à minha frente – quem eu deveria de fato atender – começou a respirar profundamente e tremer, parecia estar com falta de ar. Os olhos permaneciam vidrados e fixos em mim, mas os lábios não se moviam. Fixei também meu olhar nela, deixei de ouvir o que as enfermeiras falavam e sugeri que as enfermeiras saíssem da sala. Relutantes, explicando a situação novamente e questionando se eu tinha certeza ou se eu não teria medo de ficar sozinha na sala, elas se retiraram. Fechei a porta, voltei a me sentar diante da mulher e disse “Pronto! Pode falar, agora somos só eu e você e quero que me conte tudo o que conseguir”.

Brasil de Fato

Ela começou me falando que era mãe de três crianças, um bebê de apenas quatro meses (que estava com a vizinha) e duas meninas de quatro e sete anos de idade (que estavam na escola), disse que tinha sido casada por quase dez anos, mas seu marido havia ido embora e ela não tinha contato com ele há cerca de 1 mês. Apertando os olhos um pouco e um tom de voz relutante, disse ainda que ele largou seus filhos e ela, deixando-a com bebê praticamente recém-nascido e não voltou mais, nem disse para onde estava indo, simplesmente, foi. Sua família morava em outra cidade, eles haviam se mudado para ali por causa do emprego do marido, ali ela conhecia poucas pessoas e não tinha a quem pedir ajuda, então, aproveitou as meninas mais velhas na escola e a oferta da vizinha para cuidar do bebê e foi até o hospital, porque não aguentava mais aquela situação.

Ela estava com medo de cometer um crime, as vozes em sua cabeça não paravam de dizer a ela para jogar os filhos no poço e se jogar em seguida. Naquela manhã, seu bebê estava mais irritado que antes, não parava de chorar, não pegava o peito e com aquele choro incessante ela se aproximou do poço e ouviu as vozes que pediam que ela o jogasse e, em seguida, também se jogasse. Ela parou ali. Depois, quando se deu conta, estava relatando para a enfermeira no hospital aquela cena e contou tudo o que as vozes a mandaram fazer.

Foi quando perguntei quem estava com suas crianças, ao que ela me respondeu que o bebê estava com a vizinha e as outras duas “Graças a Deus, estavam na escola, porque pelo menos lá tinha merenda”.

A esta altura, era impossível esconder os incômodos que esse relato foi causando, impossível me manter neutra, com semblante blaze – com licença Sr. Freud, mas nosso trabalho é feito nos detalhes da linguagem, mas também de afetos. Investigando um pouco mais, questionei se ela trabalhava, ela me respondeu que não tinha como trabalhar com o bebê pequeno, então perguntei se ela tinha comido naquela manhã. Seus olhos encheram d’água e dessa vez as lágrimas foram inevitáveis – as dela e as minhas. Pois, ela não tinha dinheiro para comprar comida desde que seu marido havia ido embora e há quatro dias o último pacote de macarrão havia acabado. Seu peito não produzia mais leite para alimentar o filho que chorava de fome. FOME! O que ela tinha era FOME, ela recebeu uma injeção de antipsicótico, porque ficou dias sem comer, sem ter o que dar para os filhos se alimentarem e, diante de toda essa situação, a morte lhe pareceu a única possibilidade na vida. Ela delirava, mas delirava, senhoras e senhores, era de FOME! E não importava o quanto ela repetia a sua história para as pessoas que a atendiam no hospital, eles não lhe davam nem ouvidos, tampouco algo para comer, apenas uma injeção que não lhe acalmou a dor na barriga.

Diante de histórias como essa, que não são exceção no dia-a-dia dos vários serviços de saúde mental Brasil afora, permitam-me algumas pontuações críticas. Lá, pois, onde Kraepelin (1907) recomenda aos estudantes de psiquiatria, “que não deixem lugar para a fala do paciente” é justamente, nessa fala e em seu conteúdo, onde encontraremos, por vezes, as raízes do que, à primeira vista, parecia patológico. Neste caso, a “patologia” orgânica – fome – era evidente, mas não se pode cair no erro da correlação direta entre a expressão sintomática e as causas fisiológicas, sem considerar as mediações que estão para além, que estão fora mesmo, do fenômeno aparente e, ainda que fora, o determinam: a “patologia” dessa mulher era social.

Para ajudar a entender melhor de onde parte minha crítica, vou explicitar um pouco melhor o caminho do pensamento que traço. Tenho trabalhado [2] com a ideia da construção da psicose como própria de nossa capacidade imaginativa e criativa, enquanto seres humanos  – como aprendi com Castoriadis (2000; 2004) e Aulagnier (1979). O processo, imaginativo e criativo, todavia, longe de ser uma capacidade extraordinária, é uma capacidade que exercitamos cotidianamente, como aponta Vygotsky (1996), cujas raízes estão nas nossas condições objetivas e materiais determinadas e nas nossas vivências.

Como bem explica Gabriel Garcia Márquez, a respeito de sua atividade imaginativa e criativa como autor literário: “Diverte-me que elogiem minha obra sobretudo pela imaginação, quando na verdade não há nela uma única linha que não se baseie na realidade.”. Assim, pois, como o autor literário, a pessoa que expressa comportamentos psicóticos, utiliza-se de toda a sua capacidade imaginativa e criativa e cria o delírio a partir do seu próprio drama.  Esta capacidade, não surge “do nada”, nem “em nada” mas, em última instância, é fruto de nossa atividade de transformação da natureza e de transformação de nós mesmas. É esta atividade/trabalho, que cria a nossa própria psique/alma, como percebe Marx ao virar de “cabeça para baixo” a dialética hegeliana. A essência de nossa humanidade, portanto, não está só, pura e simplesmente, na capacidade imaginativa e criativa – como acreditou Castoriadis – mas é esta capacidade também parte da atividade: trabalho, como a capacidade humana de, a partir de uma necessidade, imaginar e criar, primeiro idealmente em seu pensamento, formas de sanar esta necessidade e a partir daí agir intencionalmente na natureza, na realidade concreta transformando-a e, consequentemente, transformando a si próprio.

No caso das psicoses, podemos pensar a história que os delírios nos contam, como uma história imaginada, criada e contada por aquelas e aqueles que a vivenciam como atrizes e atores seus dramas. Só que, neste caso, sem a intencionalidade consciente daquela existente na atividade trabalho, que descrevi no parágrafo anterior.

Então, Dr. Kraepelin – ou Dr. quem quer que seja neo-kraepliniano -, não se pode descartar a pessoa que vivencia a experiência psicótica nem seus conteúdos, tão pouco, seus afetos. Só que, por outro lado, não se trata de fetichizar seu discurso e compreender essas pessoas como figuras de linguagem. Porque a pessoa que delira é uma complexa, multideterminada totalidade e seus delírios, seus sintomas, sua linguagem são apenas partes dessa nossa totalidade humana.

O desenrolar da história que ilustra este texto, seu desfecho felizmente, foi a imediata inclusão daquela família nos serviços emergenciais da secretaria de assistência social – pois eles existiam na época -, ela saiu do ambulatório com uma cesta básica nos braços. Uma semana depois, no horário agendado de sua psicoterapia, ela retornou. Os braços que saíram carregando alguns alimentos básicos voltaram trazendo seu bebê, um sorriso no rosto, o sentimento de gratidão e a notícia de que não seria mais preciso retornar àquele consultório, pois seus “sintomas” tinham ido embora. Ela agradeceu por ter sido ouvida, por eu ter conseguido enxergá-la como uma mulher, uma mãe desesperada para alimentar seus filhos e ter condições de criá-los com dignidade e, a partir disso ter atuado na raiz do seu problema.

Neste dia, saímos do trabalho – eu e minha amiga – com a certeza de que a Luta Antimanicomial é, sobretudo, uma luta contra essa forma de sociedade que medica e aprisiona a mulher faminta, mas lhe nega o direito de acesso a condições básicas para a sobrevivência, dela e de seus filhos. E, por isso, as palavras de Basaglia fazem tanto sentido: “Devemos nos opor a esta sociedade que destrói a pessoa e mata quem não tem meios para se defender. Em certo sentido, vivemos em uma sociedade que parece um manicômio e estamos dentro deste manicômio, internados lutando por liberdade.” (Franco Basaglia, p.82 1979/2008). Estamos lutando pelo direito a condições de vivenciarmos nossas experiências humanas com dignidade, tendo respeitadas as nossas diversidades que nos singularizam: “lutamos pelo direito de estarmos vivas/os!”

[1] Este texto é baseado em fatos reais. Agradeço à Luciana Belmonte Moreira, quem de fato atendeu um caso semelhante a este e compartilhou comigo os aprendizados do dia-a-dia do atendimento clínico ambulatorial no SUS.

[2] As anotações que teço nestes próximos parágrafos estão baseadas na minha pesquisa de mestrado sobre as categorias “Imaginação e Criação”, e em estudos recentes que aguardam publicação.

Referências bibliográficas

AULAGNIER, Piera. A Violência da Interpretação: do pictograma ao enunciado. Rio de Janeiro: Imago, 1979.

BASAGLIA, Franco. La Condena de ser Pobre y Loco: alternativas al manicômio. Buenos Aires: Topía Editorial, 2008.

CASTORIADIS, Cornelius. A Instituição Imaginária da Sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2000a.

CASTORIADIS, Cornelius. As Encruzilhadas do labirinto: Figuras do Pensável. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004(a).

KRAEPELIN, Emil. Clinical Psychiatry. a textbook for students and physicians. New York: Macmillan, 1907.

MÁRQUEZ, Gabriel, G. Entrevista a Peter H Stone, The Writer’s Chapbook. in: Oficina de Escritores: um manual para arte da ficção. Stephen Koch. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

VYGOTSKY, LEV S.. Imaginación y creatividad del adolescente. In: Obras escogidas IV: psicología infantil. Madri: Visor, 1996.

[1]Este texto é baseado em fatos reais. Agradeço à Luciana Belmonte Moreira, quem de fato atendeu um caso semelhante a este e compartilhou comigo os aprendizados do dia-a-dia do atendimento clínico ambulatorial no SUS.

[2]As anotações que teço nestes próximos parágrafos estão baseadas na minha pesquisa de mestrado sobre as categorias “Imaginação e Criação”, e em estudos recentes que aguardam publicação.