Desigualdades sociais provocam um aumento do sofrimento mental em meio à pandemia de COVID-19

Os investigadores salientam que o sofrimento mental num mundo pós-COVID-19 está relacionado com determinantes sociais e não com o vírus em si.

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Um novo estudo, publicado na Lancet Psychiatry, examina o efeito da pandemia de COVID-19 nas taxas de suicídio. Depois de analisar dados de 21 países, os investigadores não encontraram um aumento significativo do risco de suicídio desde o início da pandemia, apesar das preocupações iniciais de que as taxas aumentariam. Eles exortam à vigilância e atenção aos efeitos a longo prazo da pandemia sobre a saúde mental.

Os investigadores, liderados pela Professora Jane Pirkis da Universidade de Melbourne, escrevem:

“O nosso estudo é o primeiro a examinar os suicídios ocorridos no contexto da COVID-19 em múltiplos países. Oferece um quadro amplamente consistente, embora proveniente de países de elevado rendimento e de rendimento médio-alto, de números de suicídios que permanecem inalterados ou declinam nos primeiros meses da pandemia. Este quadro não é completo nem final, mas serve como a melhor evidência disponível sobre os efeitos da pandemia no suicídio até agora.”

“TSUNAMI IN NEW YORK” BY GOA

A pandemia da COVID-19 teve um impacto significativo na saúde mental, embora os investigadores ainda estejam trabalhando para compreender a extensão do impacto. Em uma tentativa de compreender o efeito da COVID-19 nas taxas de suicídio, os investigadores examinaram estudos atualmente disponíveis sobre as taxas de suicídio ao nível mundial. Contudo, encontraram provas insuficientes para oferecer uma compreensão completa de como a pandemia influencia as taxas de suicídio.

Realçam como o efeito da pandemia nas taxas de suicídio depende de muitos fatores, incluindo: “a extensão da pandemia, as medidas de saúde pública instituídas para a controlar, a capacidade dos serviços de saúde mental existentes e os programas de prevenção do suicídio, e a força da economia e as medidas de alívio para apoiar aqueles cujos meios de subsistência são afetados pela pandemia.”

Além disso, irão provavelmente variar de país para país, outras influências externas sobre o suicídio, tais como instabilidade política ou dificuldades econômicas, que podem ser independentes e agravadas pela pandemia,

No estudo atual, os investigadores utilizaram dados de suicídio em tempo real de 21 países de alta e média-alta renda. 10 destes países forneceram dados relativos a todo o país, enquanto 11 forneceram dados sobre uma área ou áreas específicas no país. Os dados foram analisados para determinar se as taxas mensais de suicídio (que variaram entre 1 de abril e 31 de julho de 2020) se alteraram após o início da pandemia.

Globalmente, os investigadores não encontraram um aumento do risco de suicídio desde o início da pandemia, consistente com os resultados de outros estudos que investigaram as taxas de suicídio em países de rendimento elevado e médio-alto.

Atribuem ao não aumento de aumento das taxas de suicídio a vários fatores, incluindo a preocupação manifestada desde cedo sobre os potenciais impactos negativos na saúde mental das ordens de permanência em casa e dos fechamentos de escolas e empresas. Embora as experiências auto relatadas de depressão, ansiedade e pensamento suicida tenham aumentado durante o período examinado, não parece haver afetado as taxas globais de suicídio nos países incluídos no estudo.

Um fator adicional é a maior ênfase e acessibilidade dos tratamentos e serviços de saúde mental disponibilizados por alguns países durante a pandemia, que podem ter sido protegidos contra alguns dos efeitos nocivos da pandemia.

Os investigadores salientam também o papel da comunidade como potencial fator de proteção. Por exemplo, as comunidades que se esforçaram para apoiar indivíduos em risco para a saúde mental ou outras preocupações, ou onde os lares podem ter desenvolvido relações mais estreitas e fortes através do aumento do tempo em conjunto. Um sentimento geral de união, enquanto comunidades, foi uma proteção à pandemia, o que pode também haver protegido as pessoas contra um aumento do suicídio.

A prestação de apoio financeiro aos cidadãos e empresas por parte dos países pode ser outra salvaguarda potencial. Contudo, como grande parte deste apoio está agora a ser reduzido ou retirado, os potenciais aumentos nas taxas de suicídio, devido ao impacto pandêmico e econômico da pandemia, podem ainda estar por vir, dado que a recessão econômica tem demonstrado ser um fator que contribui para o aumento do suicídio.

Embora não tenha sido encontrado qualquer aumento nas taxas de suicídio durante uma análise primária, os investigadores encontraram aumentos significativos no risco de suicídio em Viena, Japão, e Porto Rico quando o período de observação foi prolongado de 31 de julho a 31 de outubro de 2020. Além disso, foi observado um aumento em Porto Rico quando a data de início foi alterada de 1 de abril para 1 de março de 2020. Potenciais fatores externos podem ter contribuído para estas aberrações, tais como um aumento de suicídios de celebridades no Japão durante a pandemia, bem como a recessão econômica em curso em Porto Rico, que a pandemia pode ter exacerbado ainda mais.

A falta de inclusão dos países de baixo ou médio rendimento, que representam ligeiramente menos de metade dos suicídios do mundo (e podem ter sido especialmente afetados pela pandemia), apresenta uma limitação importante deste estudo.

A falta de dados oficiais destes países constituiu uma barreira. Contudo, os investigadores conseguiram encontrar dados não oficiais da Tunísia, Mianmar (ambos de rendimento médio-baixo), e Malawi (de rendimento baixo). Para o Malawi e a Tunísia, encontraram aumentos perturbadores nas taxas de suicídio – aumentando em 57% no Malawi e 5% na Tunísia. Em Mianmar, foi encontrada uma diminuição de 2% nas taxas de suicídio.

Outras limitações incluem uma potencial diminuição da qualidade dos dados utilizados devido aos possíveis efeitos da COVID-19 na recolha de dados, o que poderia ter resultado em sub-contagens de suicídios, incapacidade de analisar os dados por categoria demográfica e uma confiança em dados centrados em áreas específicas para 11 dos países.

A exploração do impacto da pandemia em determinados grupos demográficos, especialmente indivíduos marginalizados, como a situação de população de rua, é fundamental, considerando que as desigualdades sociais agravaram os efeitos negativos da COVID-19, incluindo o sofrimento mental.

Pirkis e colegas concluem enfatizando a necessidade de se continuar a monitorizar dados em tempo real para que qualquer aumento nas taxas de suicídio possa ser descoberto imediatamente. Sugerem que precisamos de compreender que fatores protetores ajudaram a manter as taxas de suicídio baixas no início da pandemia.

Além disso, as taxas de suicídio capturam apenas um fator de saúde mental, pelo que outros aspectos da saúde mental devem ser explorados e compreendidos para fornecer o apoio adequado. É também crucial um maior esforço para compreender o efeito da pandemia nos países de menor rendimento e encontrar formas de comunicar os resultados da investigação aos governos e comunidades de tal forma que suscita compreensão e mudança de políticas, em vez de ser sensacionalística. A tomada destas medidas poderia permitir uma compreensão e prevenção dos potenciais efeitos a longo prazo da pandemia sobre o risco de suicídio e a saúde mental.

Os autores concluem:

“Os aspectos falhos na sociedade britânica foram fortemente revelados pela pandemia. Para se ‘reconstruir melhor’, no longo rescaldo da COVID-19, nós precisamos de criar os ambientes sociais e materiais que não só abordem as causas da doença mental, mas também aumentem as capacidades de todos os cidadãos para criar vidas de sentido e propósito para si próprios.” 

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Rose, N., Manning, N., Bentall, R., Bhui, K., Burgess, R., Carr, S., … & Faulkner, A. (2020). The social underpinnings of mental distress in the time of COVID-19–time for urgent action. Wellcome Open Research5 (166). (Link)

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Equipe de Notícias da MIA Research: Ayurdhi Dhar é professora de psicologia na University of West Georgia, onde também concluiu seu Ph.D. em Consciência e Sociedade em 2017. Ela é autora de Loucura e Subjetividade: Um Exame Intercultural de Psicose no Ocidente e na Índia (a ser lançado em setembro de 2019). Seus interesses de pesquisa incluem a relação entre esquizofrenia e imigração, práticas discursivas que sustentam o conceito de doença mental e críticas de formas de conhecimento contextuais e a-históricas.