Medicina Insana: Epílogo

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Nota do editor: Ao longo de vários meses, Mad in Brasil publicou uma versão seriada do livro de Sami Timimi, Insane Medicine (disponível para compra aqui). Este é o capítulo final. Todos os capítulos estão arquivados aqui.

Tenho a ideia deste livro há já vários anos. Eu queria escrever algo para um público geral e não acadêmico ou clínico que reunisse todos os pedaços de teoria e prática que me têm preocupado em uma polémica apoiada empiricamente. Afundado com o desgosto da vida privada e laboral diária, e desmoralizado pela rigidez dos pântanos institucionais onde tenho tentado sobreviver profissionalmente, simplesmente eu não conseguia obter qualquer impulso.

As ideias podem ficar adormecidas durante muito tempo enquanto a paisagem sócio-política é estática. As contradições, incoerências e as mentiras absolutas do que passamos a acreditar e a aceitar como o conhecimento “correto” podem mover-se sem obstáculos e sem contestação durante décadas. De vez em quando ocorre uma crise de magnitude suficiente para lançar uma teia de incerteza em toda parte, e ideias anteriormente suprimidas podem encontrar o solo mais fértil para o crescimento. O bom, o mau, o perigoso, o ‘empoderador’, o libertador, o opressor – o potencial para que surjam novas imaginações ou para que renasçam (e a luta contra elas), estando mortas há muito tempo começam a agitar-se à nossa volta.

Não demorou muito até que o Covid-19 se espalhasse por todo o lado, e os bloqueios (‘lockdowns’) se seguiram, e os comentadores e os seus representantes institucionais começaram a falar sobre as outras doenças pandêmicas-mentais que se avizinhavam. Havia algo de revelador neste discurso público. Se se riscar a superfície desta narrativa (que os efeitos de ‘lockdown’ serão uma pandemia de transtornos mentais), surge uma contradição gritante.

Por um lado, fica claro que a pandemia de saúde mental se desenvolverá a partir das consequências sociais da nova paisagem política e cultural que temos de habitar por razões de saúde pública. Foi-nos dito que os impactos na nossa saúde mental seriam produzidos pelo ‘lockdown’, a desconexão, a perda de meios de subsistência, a perda de entretenimento socializado, e assim por diante.

Tendo sido avisados de que a saúde mental é um subproduto de perturbações comuns e compreensíveis nas experiências da vida real, fomos então informados de que isto teria de ser tratado, não abordando estas causas sociais e as adversidades que delas advêm, mas sim através de serviços que possam “diagnosticar” e “tratar” as disfunções individuais resultantes.

Chamando o impacto das perturbações sociais de “transtornos/doenças mentais”, juntamente com a ideia de que os serviços seriam sobrecarregados, colocou-se a resposta para longe desta paisagem social, deslocando-a para o espaço despolitizado que existe entre os ouvidos. Na indústria da saúde mental, os problemas sociais necessitam de soluções individualizadas, fornecidas por especialistas com o ‘know-how’ técnico para identificar e, de alguma forma, corrigir as “anomalias” resultantes.

Enfurecido com esta construção desordenada, e energizado pelo potencial de mudança que as crises trazem, eu finalmente me senti pronto para colocar a caneta no papel (ou mais precisamente o dedo no teclado). O desprendimento do mundo da saúde mental das realidades humanas do quotidiano estava agora no reino do absurdo. A ideologia da saúde mental se encontrava firmemente alicerçada no domínio do sistema neoliberal/capitalismo avançado (ou o que quer que se queira chamar ao nosso desastre de um sistema econômico desigual e da política insípida que promove): individualizar, dividir, e ‘desempoderar’, à medida que se mercantiliza o sofrimento psíquico e a diferença em números cada vez maiores de tipologias humanas.

Estas tipologias coloniais (tanto em termos de impor construções ocidentais às populações não ocidentais como de impor construções da elite ocidental às populações ocidentais) impõem um sistema de castas que inadvertidamente priva grandes faixas da população dos seus direitos de cidadania – condenando-as simultaneamente a sentirem pena e desconfiança. É um sistema que vitimiza e cria vítimas (geralmente sem a intenção dos seus praticantes), mas também que torna você inconsciente (não apenas através dos seus poderosos sedativos) para a consequente escravização que vem por meio de promessas de libertar a sua psique de males invisíveis, em erupções de biologia e psicologia anormais, que de alguma forma se afastaram da sua história e realidade social.

Não queria escrever apenas mais um livro que pudesse ser discretamente escondido em um nicho acadêmico agradável, acrescentando cor às estantes de alguns críticos. Havia alguma forma de ligar isto aos movimentos sociais? Como poderia isto contribuir, ainda que de forma minúscula, para cortar aquela fenda crescente nos edifícios institucionais, para deixar entrar um pouco mais de luz (esclarecimento) sobre um assunto envolto em mito e fantasia?

Decidi, por isso, tentar algo novo para ver se conseguia chegar a um público leitor mais vasto. Fiquei impressionado com a forma como o website Mad in America (MIA) se expandiu para um espaço digital que reúne uma diversidade de vozes críticas internacionais, incluindo blogs, relatórios sobre novas pesquisas, e alguns dos seus próprios excelentes relatórios e análises. Fiquei encantado quando Robert Whitaker concordou em publicar o livro completo num formato semanal seriado no MIA (está agora também disponível em formato de brochura e eBook na Amazon). Quero também agradecer a Peter Simons, que tem sido o meu contato no MIA e ajudou a transformar esta ideia em realidade. E, também, ao Fernando Freitas, do Mad in Brasil (MIB), que traduziu para o português e o editou.

Todos os dez capítulos do livro estão agora publicados e sendo lidos por milhares de pessoas. Espero que alguns dos que leram o livro, ou partes dele, tenham encontrado algo de útil e que os tenha energizado de alguma forma. Além de fornecer mais munições nas críticas em curso, gostaria de imaginar que também inoculou algumas pessoas com algumas sementes de esperança que podem dar mais espaço para novas imagens de um mundo pós- indústria-da-saúde possam crescer.

Gostaria de agradecer particularmente a todos, e quero dizer a todos, que dedicaram tempo a escrever comentários, quer se tratasse nos sites do Mad, quer através de e-mails pessoais ou meios de comunicação social. Eu tento lê-los todos. Lamento nunca participar dando respostas. Tomei uma decisão há muitos anos, depois de colocar o dedo nas redes sociais e outras discussões/debates na internet, para me manter afastado disto. Cheguei à conclusão de que muitas vezes isso pode consumir muito tempo mental e físico sem ir realmente a algo produtivo. Espero que vocês possam compreender e respeitar o meu raciocínio, mas estou muito grato por todos os comentários feitos que me ajudam, e espero que outros apareçam, refletindo sobre o que escrevi, quer seja na crítica ou no apoio ao mesmo.

Compreendo alguns dos comentários que o assunto sobre o qual escrevi já foi tratado por escritores mais pessoalmente afetados e, como alguém que passou a sua vida profissional no sistema, sei que a minha perspectiva não terá a mesma autenticidade que aqueles que estiveram no fim receptor da destituição, crueldade e opressão que os serviços preponderantes são capazes de proporcionar.  Espero que uma crítica de um “infiltrado” que não dá murros tenha, no entanto, algum mérito. Quanto mais vozes críticas houver, quanto maior for a literatura crítica, melhor. Penso que os relatos críticos a partir de uma diversidade de perspectivas, antecedentes e posições contribuem cada um de uma forma para o crescimento de um movimento social em prol da mudança.

Queria neste livro interrogar os pressupostos que permeiam a teoria, a investigação e a prática na saúde mental. Quando são postos a nu os seus fundamentos essenciais, pode-se ver o vazio dos paradigmas empíricos e filosóficos que estão em circulação. Não se pode medir a mente utilizando a mesma metodologia usada para medir o fluxo de urina. Não se pode descobrir significados e intenções olhando para imagens coloridas do cérebro.

É claro que a biologia está envolvida, tal como existem redes biológicas ativas que me permitem escrever estas frases. Mas não podemos ver, sentir, pesar, calibrar e calcular desvios padrão para a forma como eu cheguei a essas frases. Não podemos escapar à subjetividade na compreensão da subjetividade. Não podemos descobrir a “verdade” sobre a razão pela qual escrevi uma determinada frase; só podemos criar um quadro para explicar a partir de um número limitado de sistemas de conhecimento disponíveis a que estivemos expostos. A nossa escolha de quadro explicativo tem consequências profundas.

Quando analisamos a minha urina para várias substâncias, a minha urina não é subsequentemente afetada por essa análise. Não irá mudar em resposta às minhas conclusões. A urina não fica encantada, ansiosa, ofendida, não decide ficar comigo, ou abandonar-me. Não é o caso para as explicações que utilizamos para os fenômenos mentais. Se me disserem que o que me levou a escrever as frases acima foi um “transtorno” mental que me levou a um estado de espírito perigoso e paranoico, os efeitos nas minhas emoções, pensamentos e comportamentos podem ser muito diferentes de se me disserem que estas frases são uma “lufada de ar fresco”. Os efeitos serão mais marcados quanto mais poder a pessoa tem (ou que percebo que tenha) sobre mim.

Quando perdemos o contato com esta ideia básica – que tudo o que temos são quadros de referência que fazem sentido em vez de verdades neutras – tornamo-nos perigosos sem nos apercebermos que nos tornamos perigosos, particularmente se nos encontrarmos em posições de poder e influência potenciais. As ideologias dominantes da saúde mental criaram uma realidade em que substituíram a alma pela psique. Imaginar que se sabe e se pode explicar o que está errado, prende o praticante e o paciente em um paradigma religioso de culto, sem reconhecer que é isto que está a acontecer.

Com o diagnóstico, cria-se objetos abstratos que circulam na mente do profissional e do paciente, como demônios que são imaginados a sair da sua biologia ou da sua psicologia, que os pastores modernos (psiquiatras) irão expurgar com as suas poções mágicas e salas de confessionário. Ao contrário de uma absolvição religiosa, porém, estes demônios estão aí para ficar, emergindo periodicamente, porque não são externos, mas sim genéticos, com fios duros, algures no cérebro, para serem supridos/controlados.

O Royal College of Psychiatrists [Colégio Real de Psiquiatras] no Reino Unido deveria ser renomeado The Royal College of Psychianity [Colégio Real de Psiquiatrinidade].  Nesta, a religião da Psiquiatria, a noção de psiquiatria emerge da fé, não da ciência. A psiquiatria é concebida como um verdadeiro objeto concreto, que revelará as suas “verdades” através de formas confiáveis de as medir e avaliar. A psique passa a ser entendida objetivamente como uma mente sem significados. A espiritualidade foi sugada, deixando uma sopa agitada de neurotransmissores perigosos para ser estudada usando as escrituras do Santo DSM e outros manuais quase-religiosos.

Questionar pressupostos leva os meus argumentos muito para além do conflito entre psicoterapia obsoleta e psicofarmacologia. O que mais importa é o enquadramento em que a prática é formulada. A psicoterapia é tão responsável como a psicofarmacologia pela incorporação da história de doenças/disfunção/transtorno. A terapia, incluindo a utilização ocasional e judiciosa de psicotrópicos, pode também empregar modelos mais ‘empoderadores , através da manutenção de uma postura crítica e de ser capaz de compreender que os nossos modelos não podem refletir “verdades”, mas são, pelo contrário, ferramentas com consequências.

O debate mais importante não é o que temos mais ou menos em nossos serviços de saúde mental, mas sim a ideologia em que eles confiam. Podemos até ter de acabar com o conceito de saúde mental (que cria uma inevitável polarização doença/saúde doentia). Tenho questionado a ideia de “mental” e o enquadramento “saúde”. Talvez o que tenhamos que ter é serviços de bem-estar – seja ele qual for, o que deve implicar algo que não mais fomente divisões tais como nós /eles, estar-bem/doença, normais/anormais.

Nos últimos anos comecei a compreender como a concretude dos modelos que utilizamos nos serviços de saúde mental ajuda a incorporar os próprios problemas que somos empregados para aliviar. A curto prazo, o rápido alívio/satisfação imediata ao estilo McDonald’s, focalizado no consumidor, significa que fornecemos um menu de bens (diagnósticos e os seus supostos remédios) que vendemos com promessas de que a dor e o sofrimento mental podem ser eliminados sem efeitos secundários.

Isto começa então a escrever um novo capítulo importante na vida das pessoas que lutam, principalmente com o que eu chamo experiências comuns e compreensíveis (mesmo que elas ou nós não consigamos inicialmente ver como isso pode ocorrer). Elas passam agora a ser possuídas por forças para além da sua influência consciente ou inconsciente. Tornam-se alienadas das suas vidas emocionais, vendo perigos e abismos intermináveis. O novo capítulo escrito para eles/elas pelos pastores da Psiquiatria molda a forma como eles/elas e os seus entes queridos interpretam o significado de como se sentem, se comportam e pensam. Eu tive que escrever algo sobre esta armadilha viciosa.

Pode parecer que o que eu escrevo é contra os psiquiatras, mas não é. Sim, eu sou um, e sim, isso irá influenciar o meu preconceito. A psiquiatria, como qualquer outro corpo socialmente construído, é feita de indivíduos com vários graus de poder e influência. Foram formados pelos currículos e depois cultivados pelos sistemas profissionais onde têm de trabalhar. O que ouço regularmente dos meus colegas psiquiatras é como é difícil lidar com a procura e exigência dos pacientes por parte de outras pessoas envolvidas que, compreensivelmente, esperam que o psiquiatra apresente uma explicação (diagnóstico) e depois um plano de tratamento, muitas vezes com a esperança de que este inclua medicação.

A maioria gostaria de fazer mais psicoterapia e muitos tentam incorporá-la na sua prática. Negar o que é percebido pelo público, por outros médicos e outros profissionais, sobre qual é o seu papel (ser diagnosticador e prescritor), é quase impossível. É o que tenho tentado fazer há muitos anos, mas isso é realmente nadar contra a maré externa da procura, e não apenas contra as correntes internas da ideologia estabelecida.

É por isso que precisamos de educação pública; uma oportunidade para mudar o discurso. Muitos médicos apoiariam isto, uma vez que experimentam a maré da medicalização às portas das suas clínicas. A psiquiatria deveria ser a profissão que pode ajudar o resto da medicina com a questão da medicalização. Em vez disso, uma colaboração mafiosa entre a indústria farmacêutica e grande parte da psiquiatria acadêmica tem alimentado a minha profissão com os piores criminosos da medicalização – mórbidos, inapropriados e perigosos para a saúde pessoal e pública.

Naturalmente, isto exigiu então que eu também escrevesse sobre política. A McDonaldização só pode emergir em uma economia política que a encoraje. Portanto, uma apreciação do meio político mais amplo, que influencia quem controla a produção de conhecimento, em cujos interesses atuam, que modelo de “humano” isto promove, e o que o público passa então a entender como sendo a posição do “senso comum”, tudo isto necessitava de ser explorado.

Isto levou-me finalmente à globalização. A globalização se acelerou nas últimas décadas, particularmente com o crescimento das tecnologias digitais. Isto ampliou os riscos existentes do neocolonialismo, tanto no concreto (como o comércio e o poder militar) como no abstrato (a exportação e a imposição de ideias). Mas também tem criado novas oportunidades. Colaborações internacionais, comunicações e ativismo são muito mais capazes de atravessar disciplinas, grupos de interesse e fronteiras.

Escrevo isto num computador na minha casa em Lincoln, no Reino Unido, e é publicado num website americano e, depois em websites afiliados (como o Mad in Brasil), em seguida é partilhado nas redes sociais, onde pessoas de praticamente qualquer país podem lê-lo, comentá-lo e debatê-lo. Neste novo internacionalismo, reconhece-se que na nossa batalha contra uma ideologia quebrada e corrompida e os seus produtos, partilhamos tanto os problemas como as potenciais soluções ou caminhos a seguir com muitos, muitos outros em todo o mundo.

Quem sabe quando é que a massa crítica será suficiente para a mudança sistêmica? Quem sabe como, onde, e quando surgirá e acontecerá? Só sei que devemos continuar a acreditar; porque estamos do lado da ciência, da ética e do futuro. Como disse certa vez o político britânico, ex-membro do Parlamento, escritor, e ativista socialista Tony Benn:

“Não há vitória final, pois não há derrota final. Há apenas a mesma batalha a ser travada uma e outra vez. Portanto, endureça, endureça ensaguentando-se.”

 

[trad. e edição Fernando Freitas]