As conseqüências do racismo histórico em publicações psiquiátricas

Revistas revisadas por pares em periódicos psiquiátricos continuam a abrigar artigos promovendo teorias racistas em seus arquivos.

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Em um próximo artigo, a ser publicado no The Canadian Journal of Psychiatry, Imen Ben-Cheikh e colegas exploram a história do racismo em publicações de revistas psiquiátricas revisadas por pares.

Ben-Cheikh observa que muitos periódicos ainda incluem descobertas pseudocientíficas de períodos históricos de colonialismo desenfreado, escravidão e nazismo. Pouco tem sido feito para enfrentar este racismo presente nas publicações científicas. Os autores concluem que embora estes artigos devam continuar disponíveis aos pesquisadores como documentos históricos, eles devem incluir uma declaração de isenção de responsabilidade sobre a natureza pseudocientífica do conteúdo. Eles escrevem:

“Recomendamos que todas as revistas científicas identifiquem quaisquer publicações históricas que tenham um conteúdo racista e acrescentem no início dessas publicações uma declaração sobre a divulgação … Embora esta solução em potencial seja simples, representa, no entanto, uma ação sem precedentes em termos de políticas antirracistas no campo da publicação científica”.

Muitas vozes têm apontado para o racismo institucional dentro do campo da saúde mental. Pesquisas têm mostrado o impacto do racismo tanto no desenvolvimento da psicose em comunidades historicamente oprimidas quanto como o tratamento bem sucedido da psicose pode ser complicado por questões culturais e econômicas.

Também temos visto os perigos de conceitos como “daltonismo” que levam os pesquisadores a ignorar as desigualdades estruturais reais. A pesquisa atual acrescenta a estas críticas citando muitos exemplos de racismo histórico presentes em artigos que ainda estão disponíveis como “pesquisa revisada por pares”.

Ben-Cheikh e colegas encontram mais companhia em uma carta de 2020 assinada por 166 membros do Royal College of Psychiatrists no Reino Unido. Esta carta, escrita após o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos, insta o Colégio a criar uma comissão independente para identificar e corrigir os problemas de racismo, colonialismo e preconceito na raiz da psiquiatria.

Além do racismo dentro do campo da saúde mental, a psiquiatria também tem muitos problemas com o viés de publicação. As publicações psiquiátricas frequentemente deturpam a eficácia dos tratamentos para esquizofrenia e depressão e os efeitos positivos dos resultados em geral. Alguns autores têm até apontado a questão de muitos poucos pesquisadores estarem cientes do viés esmagador que existe na publicação científica e basearem erroneamente suas pesquisas em descobertas tendenciosas. A pesquisa atual destaca a grande e iminente área do racismo histórico no viés de publicação.

A pesquisa atual explora vários exemplos de racismo e colonialismo em publicações psiquiátricas para destacar como a psiquiatria tem sido usada para minar os direitos humanos fundamentais dos grupos marginalizados. Os autores apontam em primeiro lugar a cumplicidade preocupante de alguns psiquiatras em relação ao tratamento desumano de comunidades marginalizadas.

Um exemplo é o trabalho de Donald Ewen Cameron, um psiquiatra americano que mais tarde se tornou membro honorário da Associação Psiquiátrica Canadense e foi cúmplice no diagnóstico errado de doenças mentais em crianças órfãs canadenses nos anos 50. Os autores também citam Hans Asperger como tendo sido cúmplice da ideologia nazista da purificação racial.

Além da cumplicidade na violação dos direitos humanos, a pesquisa atual também aponta para autores proeminentes que aceitaram as ideologias racistas como fatos e sua influência em suas pesquisas. Por exemplo, Emil Kraepelin defendeu uma hierarquia de desenvolvimento racial e assim ignorou o contexto social de suas observações. Cesare Lombroso foi um defensor da craniologia, insistindo que “os criminosos se parecem com os selvagens e as raças de cor”.

Os autores também apontam para os 100 anos de história da psiquiatria afirmando a inferioridade do povo negro. Apesar das críticas bem fundamentadas e repetidas, vemos o tema da inferioridade do povo negro em termos de tamanho do cérebro, inteligência e moralidade se repetir ao longo da história da publicação psiquiátrica. Já em 2012, a revista American Psychologist publicou um trabalho de John Philippe Rushtel afirmando a inferioridade intelectual do povo negro.

De acordo com Imen Ben-Cheikh, há uma necessidade esmagadora de abordar a questão muitas vezes designada do racismo sistemático nas publicações psiquiátricas. Para os autores, esta necessidade é óbvia devido aos efeitos devastadores que o racismo tem sobre a saúde física e mental de indivíduos e comunidades. Os autores até apontam o diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático resultante de “trauma racial” como potencialmente ofuscando as raízes políticas, raciais e históricas do sofrimento.

Como remédio, os autores sugerem acrescentar um pequeno desmentido ao prefácio da pesquisa historicamente racista que aparece em revistas revisadas por pares. Esta solução permitiria a manutenção destes artigos como documentos históricos sem permitir que eles possam envenenar o corpo contemporâneo do conhecimento psiquiátrico.

Ben-Cheikh e colegas acreditam que explorar o racismo histórico na publicação psiquiátrica pode nos ajudar a entender melhor os efeitos dessas idéias ultrapassadas na sociedade contemporânea. Eles escrevem:

“A psiquiatria tem sido utilizada política e socialmente, de forma maliciosa, em diferentes períodos da história. Como cientistas, médicos, éticos, psiquiatras, psicólogos, devemos olhar de forma crítica para este passado, que não desapareceu tanto quanto gostaríamos, tanto para reconhecer o impacto embutido de nossa história em nossas sociedades contemporâneas quanto para abraçar nossas responsabilidades coletivas frente a estas derivações”.

Os autores reconhecem que enquanto alguns casos de racismo histórico em pesquisas publicadas são óbvios, outros são mais sujeitos a interpretação. Portanto, a pesquisa atual sugere a criação de um corpo de especialistas para fazer a determinação final em tais casos.

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Ben-Cheikh, I., Beneduce, R., Guzder, J., Jadhav, S., Kassam, A., Lashley, M., Mansouri, M., Moro, M. R., & Tran, D. Q. (2021). Historical Scientific Racism and Psychiatric Publications: A Necessary International Anti-racist Code of Ethics. The Canadian Journal of Psychiatry, 1–5. (Link)

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Richard Sears ensina psicologia no West Georgia Technical College e está estudando para receber um doutoramento em consciência e sociedade da Universidade da Geórgia Ocidental. Trabalhou anteriormente em unidades de estabilização de crise como assessor de admissão e operador de suporte por telefone às situações de crise. Os seus interesses de investigação atuais incluem a delimitação entre as instituições e os indivíduos que as compõem, a desumanização e a sua relação com a exaltação, e os substitutos naturais para intervenções psicofarmacológicas potencialmente nocivas.