Sofrimento Psíquico na Infância: Psicopatologização e Medicalização

Muitos têm sido os trabalhos que se dedicam a analisar mudanças sócio históricas nos tratamentos propostos aos sofrimentos psíquicos. Entre as mudanças estudadas estão os procedimentos diagnósticos propostos a partir da produção da série DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), bem como os avanços da medicalização e a medicamentalização como formas majoritárias de intervenção terapêutica. A associação entre a ampliação irrefreada de categorias diagnósticas, a disseminação do vocabulário psiquiátrico para nomear o sofrimento, a obsessão por detectar indicadores e vestígios de anomalias do desenvolvimento em tempos cada vez mais precoces da existência, são elementos que incidem hoje sobre a infância. Como consequência disso, a psicopatologização do sofrimento infantil apresenta um papel de destaque nos trabalhos acima.

Despertando cada vez mais o interesse de estudiosos e pesquisadores, o movimento de psicopatologização do sofrimento articula-se com o processo de medicalização da existência. Este último refere-se ao caráter político da medicina que enlaça a cultura, o indivíduo contemporâneo e o sofrimento, através do qual ele fala de si mesmo e do mundo ao seu redor.

Na maioria, as análises criticam a presença de diagnósticos psiquiátricos, que estabelecem as bases biológicas para os sofrimentos psíquicos, aproximando os fenômenos mentais das doenças orgânicas, ou seja, vê-se um abandono crescente da descrição causal e de sentido dos sintomas apresentados pelo sujeito em benefício de uma noção em que os sintomas são reconhecidos como manifestações de desordens da bioquímica cerebral (Aguiar, 2004).

Retomando Canguilhem, o campo da saúde mental, por ter fronteiras instáveis, difusas e ambíguas entre o normal e o patológico, teria favorecido o crescente processo de medicalização através do qual determinadas condutas típicas da infância passaram a ser classificadas como “anormais ou patológicas”. A biologia tornou-se  um fundamento da psicopatologia na atualidade, que embasa correntes de pensamento que se autoproclamam “ateóricas” por estarem alicerçadas na ética naturalista ou naturista.

As neurociências fornecem o instrumental que orientam a construção da explicação psiquiátrica. Por esse viés, a psicopatologia pretende ter encontrado, finalmente, sua cientificidade de fato e de direito. Além disso, a nova psicopatologia acredita ter encontrado, enfim, sua vocação médica, em um processo iniciado no início do século XIX fundado no discurso biológico (Birman, 1999).

A psicologização parece ceder lugar à psiquiatrização do discurso familiar e escolar. É relativamente comum que educadores utilizem diagnósticos diante da observação de comportamentos que considerem discrepantes nos alunos e encaminhem para avaliação psiquiátrica, neurológica ou psicológica. Quando este tipo de encaminhamento escolar encontra eco na dinâmica familiar, a nomeação psiquiátrica adquire relevo em detrimento de outras explicações subjacentes.

Kamers (2013) afirma que o discurso médico-psiquiátrico se converteu no principal dispositivo regulador do normal e do patológico na infância. Isso se dá graças às instituições de assistência à infância – a família, a escola, o conselho tutelar, as clínicas privadas, as unidades de saúde – que demandam à medicina uma intervenção medicamentosa sobre a criança. Atualmente, a medicação tem sido utilizada não apenas como a principal forma de “tratamento da infância”, mas como dispositivo de vigilância e controle que as instâncias tutelares realizam sobre a família e a criança. Nesse contexto, os dispositivos assistenciais e tutelares são os que demandam, autorizam e asseguram a intervenção médico-psiquiátrica sobre a criança.

Vorcaro (2004) afirma que a infância se tornou objeto de disputa de poderes, configurada como uma zona limítrofe de confronto entre o público e o privado, gerando novos saberes e modalidades de controle. O discurso médico-psiquiátrico, através de seus dispositivos disciplinares, é convocado a detectar e responder a qualquer entrave que a criança possa representar para o projeto social.

Essas questões estão longe de ter respostas simples, uma vez que a trama dorsal dessa discussão se encontra primordialmente assentada sobre os cuidados dispensados às crianças. Os cuidados com as crianças são cada vez mais perpassados por uma perspectiva excessivamente técnica, diagnóstica e medicalizante.

A cerebralização dos sintomas e transtornos fomentam o encurtamento do debate. A ampliação do espectro diagnóstico da doença mental aumenta o número de categorias clínicas na medida em que sua unidade decresce. A partir dos anos 1980, popularizou-se a noção de desordem ou de transtorno para substituir a antiga noção médica de doença mental. Houve um declínio da ideia de conceituar o sofrimento mental por meio de processos mais complexos, que engendram e explicam inúmeros sintomas.  A despatologização da doença mental, que pode agora ser desestigmatizada por sua renomeação como transtorno, desordem ou dificuldade, corresponde de certa forma a uma repatologização generalizada, pela qual todos nós aceitamos nossos sintomas como “normais” (Dunker, 2015).

Em termos psiquiátricos, especialmente psicopatológicos, o sofrimento infantil vem sendo nomeado, identificado e tutelado com vistas à produção de normalidade e à extinção da diferença subjacente a humanidade. Todavia, se categorias como depressão, ansiedade, TDAH, transtorno opositor desafiador, entre tantas outras, passaram a designar dificuldades infantis, também surgiram – prontamente – terapêuticas que prometem o alívio e até mesmo a “cura” da anormalidade e dos desvios de conduta. As categorias de normal, anormal e patológico passaram a dominar os discursos médicos, familiares, escolares, sociais, assim como as políticas públicas. Ao lado da difusão social massiva do discurso psicopatológico, o discurso psiquiátrico se vangloria de ter o domínio sobre drogas e protocolos que supostamente poderiam regular o mal-estar. Isso porque tais medicamentos oferecidos pela psiquiatria biológica e pela psicofarmacologia seriam capazes de incidir no metabolismo dos neuro-hormônios, não ficando a regulação do mal-estar restrita à imprecisão das psicoterapias (Birman, 2012).

Ora, se nos registros da economia, da política, das ciências, das artes e da cotidianidade o sujeito tem cada vez mais se chocado com o imprevisível que o desorienta (Birman, 2012), como as crianças não estariam sentindo os efeitos de tamanha devastação? Podemos dizer que tanto no registro coletivo como no individual, nas escalas local e global, a subjetividade foi virada de ponta-cabeça. Nas coordenadas da atualidade, as queixas se inscrevem em uma discursividade ao mesmo tempo naturalista e naturista, que constitui nossa atmosfera cultural.

No que se refere à infância podemos pensar que a medicalização incide sobre a criança através do cuidado, trazendo uma resposta rápida para o seu sofrimento, todavia, tampona e enclausura a subjetividade infantil nas classificações diagnósticas. Observamos que o tempo de espera tão necessário para o desenvolvimento infantil, para a elaboração e consolidação de cada etapa, tem sido solapado através do fenômeno da medicalização. Finalmente, o diagnóstico psiquiátrico visa a responder aquilo que não é reconhecível pelo ideal parental e social, indicando terapêuticas que sustentem a promessa de reconduzir a criança à “normalidade” e aliviar o mal-estar que a infância produz ao projeto social para, assim, sustentá-lo. A armadilha produzida por esta promessa tão inalcançável de saúde plena, bem-estar e felicidade encontra seu calcanhar de Aquiles sobre a própria premissa que propõe.  O estabelecimento das bases biológicas do sofrimento psíquico não abarca a complexidade da existência humana.

 

Referências

AGUIAR, Adriano. (2004). A psiquiatria no divã: entre as ciências da vida e a medicalização da existência. Rio de Janeiro: Relume Dumará.

BIRMAN, Joel. (2012). O sujeito na contemporaneidade. Rio de Janeiro: Civilização brasileira.

CANGUILHEM, G. (2002). O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

DUNKER, C. I. L. (2015). Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. Boitempo Editorial.

KAMERS, M. (2013). A fabricação da loucura na infância: psiquiatrização do discurso e medicalização da criança. Estilos da clínica, São Paulo, 18 (1), 153-165.

VORCARO, A. (2004). A criança na clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.