Relatório sobre a recente conferência organizada por Mad na Itália

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Recentemente foi realizada a “Conferência MAD” sobre as questões de mudança no sistema de saúde mental em Trieste, sobre a censura às críticas ao modelo biológico da psiquiatria e sobre o risco de reabrir os asilos.

Reflexões e planejamento para o futuro

A recente conferência on-line promovida pela MAD IN ITALY se propôs a desenvolver os temas descritos acima, a fim de obter indicações para o desenvolvimento do planejamento com objetivos claros e concretos. O resumo dos principais temas e a análise que se segue acompanham esta intenção de concretização.

A conferência se desenvolveu focalizando os dois temas relacionados acima, mas ao mesmo tempo bem circunscritos: a necessidade de acesso a práticas de desprescrição e suspensão de drogas psicotrópicas e a necessidade de se criar uma rede de ajuda mútua no território nacional, incluindo o desenvolvimento do papel do ‘especialista entre pares’.*

Com relação ao tema de Trieste, a impressão que emerge dos testemunhos de alguns dos participantes é que o modelo de Trieste, embora inclua aspectos de intervenção psicossocial que ainda são bastante válidos, na verdade é um modelo que recorre a um uso pronunciado de intervenções farmacológicas, ao mesmo tempo em que não oferece nenhum espaço concreto para o processo de desprescrição ou suspensão de drogas psicotrópicas.

Neste contexto, as mudanças muito recentes na liderança do sistema de saúde mental de Trieste foram discutidas como sendo provas concretas desta involução e, portanto, de um crescente afastamento progressivo do modelo basagliano.

Os outros dois temas: A possibilidade de reabertura dos asilos e a da censura ao modelo biomédico da psiquiatria, foram recebidas com uma certa incredulidade, provavelmente porque foram consideradas como questões implícitas à problemática sobre as deficiências em geral do sistema de saúde mental no país.

Então, o que de fato surgiu sobre as questões, que apareceram como as principais, a saber: a suspensão das drogas e o papel dos especialistas entre pares?

Com relação à desprescrição e suspensão, foi destacada a necessidade de se desenvolver e refinar as habilidades dos profissionais de saúde sobre como administrar o processo de suspensão com competência farmacológica. Entretanto, ficou muito claro que o processo de desprescrição e retirada necessita de uma rede psicossocial, que pode ser criada ou ampliada com a introdução da figura do especialista entre pares no sistema de saúde italiano.

Deve-se lembrar que o especialista entre pares é um usuário ou ex-usuário que demonstra uma estabilidade emocional e as habilidades necessárias para ajudar outros usuários. Este personagem vem desempenhando um papel fundamental nos serviços de saúde de vários países (EUA, Canadá, Reino Unido) durante décadas, com resultados notáveis na prevenção de crises emocionais, nas consultas de emergência e nas internações hospitalares.

Além disso, os especialistas entre pares freqüentemente ajudam outros usuários durante o processo de retirada das drogas psicotrópicas, fornecendo conselhos valiosos a partir da sua própria experiência. Neste contexto, a falta de conhecimento adequado por parte da maioria dos profissionais de saúde para iniciar e seguir um processo de desprescrição e retirada foi destacada mais de uma vez pelos participantes, sugerindo a necessidade de cursos de treinamento profissional sobre o assunto.

Com relação à criação de uma rede de especialistas entre pares no território, alguns dos participantes mencionaram experiências já existentes (Modena, Trento), que merecem, portanto, consideração.

Entretanto, o fato mais relevante é que essas iniciativas estão isoladas em um número limitado de cidades e regiões. Os participantes também ressaltaram a necessidade de que a rede de especialistas em pares seja independente da psiquiatria e que tenha a capacidade de se gerenciar sem perder de vista os objetivos de recuperação, que não se baseiem no modelo biomédico, mas que sigam um modelo psicossocial que vise alcançar pelo menos um nível aceitável de qualidade de vida.

É também evidente, pela soma das intervenções sobre o assunto, que há necessidade de maior clareza sobre o trabalho dos especialistas entre pares, que poderia ser proporcionada através de outras conferências on-line com a participação, se possível, da rede internacional MAD.

Finalmente, a experiência italiana com o Diálogo Aberto foi discutida durante algumas intervenções, que destacaram a natureza positiva da iniciativa, mas também o fato de que ainda não há dados suficientes disponíveis para fazer uma análise clara sobre a eficácia do modelo no terreno.

As questões descritas acima serão desenvolvidas por meio de um plano de ação que, por enquanto, pode ser resumido nos pontos principais a seguir, mas que são suscetíveis a mudanças e atualizações, se necessário:

  • Organização de uma conferência do MAD sobre o tema “Caminho psicossocial, desprescrição / suspensão com o uso de “Especialistas pares”.
  • Coleta de dados on-line sobre o assunto de desprescrição / suspensão (dados sobre aqueles que gostariam de empreender um processo de desprescrição, mas não o fazem).
  • Envolvimento da rede internacional MAD como um sistema de apoio a iniciativas no terreno.
  • Consideração do desenvolvimento de projetos-piloto para a suspensão de drogas psicotrópicas.
  • Identificação de redes interessadas na criação de projetos-piloto.
  • Obtenção de mais dados sobre a eficácia dos projetos do Diálogo Aberto na Itália.

Confira o texto original publicado no Mad in Italy →

Nota do Editor: * “Especialista entre pares”.  Refere-se ao reconhecimento do know-how daqueles que foram usuário/paciente da psiquiatria, por uma razão ou outra, e que deixando de sê-lo passam a integrar o sistema de assistência enquanto “especialista”, trabalhando lado-a-lado com os profissionais formais da saúde mental. É algo que nós aqui no Brasil carecemos em nossos serviços assistenciais.