Capitalismo e o Modelo Biomédico de Saúde Mental

A psiquiatra Joanna Moncrieff argumenta que devemos abandonar o modelo médico e, em vez disso, nos concentrar em como o sistema de saúde mental se relaciona com o capitalismo.

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Um artigo publicado na revista Frontiers in Sociology utiliza o marxismo para uma análise do sistema de saúde mental. A autora, a psiquiatra britânica Joanna Moncrieff, que é uma figura de destaque na Critical Psychiatry Network, argumenta que devemos resistir a explicações biomédicas de sofrimento mental em favor de explicações econômicas e políticas. Em última instância, ela acredita que, para enfrentar as questões de saúde mental, precisamos enfrentar problemas sociopolíticos e econômicos porque o capitalismo e o sistema de saúde mental estão fundamentalmente interligados.

“A análise parte da posição de que os problemas de saúde mental não são equivalentes às condições médicas físicas e são vistos mais frutuosamente como problemas de comunidades ou sociedades. Usando o exemplo do Reino Unido, ela reconstroi como um sistema público de saúde mental evoluiu juntamente com o capitalismo a fim de administrar os problemas colocados por pessoas cujo comportamento era caótico, perturbador ou ineficiente demais para participar de um mercado de trabalho baseado na exploração”, explica Moncrieff.

“O sistema proporcionava uma mistura de cuidado e controle e, sob regimes neoliberais recentes, essas funções têm sido cada vez mais transferidas para o setor privado e fornecidas de forma capitalista”.

Há muito tempo os estudiosos apontam para a relação mutuamente benéfica entre capitalismo, forças de mercado (incluindo a Big Pharma) e o paradigma da saúde mental, que privilegia tratamentos individualistas e explicações biomédicas para o sofrimento humano.

Muitos desses pensadores vêem o sofrimento mental como impossível de se desenredar das realidades materiais e questões de poder, desigualdade de riqueza, privação de direitos e outras formas de desvantagem social. Até mesmo as Nações Unidas se envolveram com pelo menos algumas dessas idéias, propondo um movimento em direção à compreensão da saúde mental através das lentes dos “determinantes sociais da saúde“.

A autora do artigo atual também escreveu um post de blog para o MIB, explorando seu artigo e algumas de suas implicações, que podem ser encontradas aqui.

O artigo atual analisa a relação entre o capitalismo e o sistema de saúde mental através de um quadro analítico marxista. Moncrieff observa que há décadas existem esforços para chamar a atenção sobre como o sistema de saúde mental apóia o capitalismo e em última instância disfarça as fontes sociais, políticas e econômicas de sofrimento psíquico, colocando o ônus sobre o indivíduo ou sua biologia. Apesar desse fato, o complexo saúde mental-capitalismo-farmacêutico continua em expansão. Ela argumenta que, para fazer mudanças, precisamos entender o que está acontecendo de uma perspectiva materialista e econômica.

Moncrieff observa primeiro que a busca de marcadores biológicos de transtornos mentais não conseguiu encontrar evidências convincentes e que existem numerosos problemas dentro desses programas de pesquisa:

  • “A pesquisa genética com famílias e gêmeos tem negligenciado importantes pontos de confusão, e as descobertas positivas têm sido destacadas enquanto as negativas têm sido enterradas”.
  • “Estudos recentes em todo o genoma produzem provas insignificantes de quaisquer efeitos genéticos relevantes”.

Ela também observa que uma das descobertas mais consistentes da neurobiologia – que pessoas com esquizofrenia têm “cérebros menores e cavidades cerebrais maiores” – tem sido perturbada por descobertas mais recentes de que isto se deve, pelo menos em parte, a medicamentos antipsicóticos.

Em vez de ver esses casos de sofrimento humano como anormalidades ou patologias biológicas, ela sugere que tentemos entendê-los no contexto, como “problemas de comunidades ou sociedades”.

Observando o argumento comum de que o sistema de saúde mental existe para conter e controlar o comportamento socialmente desviante:

“O comportamento perturbado e perturbador não é apenas um incômodo social; entretanto, ele afeta potencialmente os processos de produção que formam a base das sociedades modernas. O indivíduo que é agudamente paranóico ou severamente deprimido, por exemplo, é pouco provável que seja capaz de trabalhar, ou pelo menos de trabalhar eficientemente, e os membros da família também podem ser impedidos de trabalhar por causa da perturbação causada em suas vidas.

Além disso, alguém que esteja gravemente perturbado mentalmente pode assustar e perturbar aqueles ao seu redor, impedindo que as pessoas se sintam seguras e motivadas o suficiente para satisfazer as exigências do trabalho, e potencialmente prejudicando todo o sistema de produção moderna”.

Em outras palavras, não é apenas uma forma particular de arrumação social ou tentativa nua de controle que está em jogo ao querer remover “indesejáveis” e “desviantes” da vista; mas na verdade, o sistema de saúde mental tem uma relação direta com as economias capitalistas e o mercado de trabalho.

Discutindo a relação entre capitalismo e serviços sociais, Moncrieff afirma:

“Contribui para a reprodução social do sistema capitalista, assegurando que haja uma oferta de trabalhadores saudáveis, educados e disciplinados”.

E que os serviços sociais também funcionam de forma a “assegurar a harmonia social, ao atender aos idosos e doentes e sustentar aqueles que nunca entrarão na força de trabalho, por exemplo. [Pode ser visto como um meio de legitimação do sistema, pois, ao impedir que as pessoas morram nas ruas, elas asseguram a continuidade das relações capitalistas de exploração e dominação através da hegemonia em vez da força”.

Sobre o tema das condições de trabalho e satisfação do trabalhador dentro do capitalismo, Moncrieff argumenta que as pessoas trabalham mais sob o neoliberalismo do que no passado. Sua “produção” e “desempenho” também são “constantemente escrutinadas” e, é claro, muitas pessoas enfrentam altos níveis de precariedade no trabalho.

Ela afirma que, por estas e outras razões, não é de se admirar que muitos trabalhadores estejam enfrentando um moral baixo, existindo em uma cultura de “medo e culpa”, e finalmente passando por uma série de condições mentais angustiantes:

“A competição, a base do sistema capitalista, cria vencedores e perdedores. O medo do fracasso é, portanto, uma fonte constante de ansiedade para o indivíduo moderno, e o próprio fracasso é tão freqüentemente o precipitante da desmoralização e desesperança que é chamada de depressão”.

A autora conclui:

“Esta análise sugere que o sistema de saúde mental pode ser entendido como parte de um sistema mais amplo de reprodução social através do qual as sociedades modernas produzem uma força de trabalho apta, capaz e receptiva e asseguram a harmonia social. Os meios particulares de reprodução social dependem da forma econômica e social que cada sociedade assume”.

“A transformação das populações pós-industriais em pacientes mentais representa a marginalização econômica e social de um grande segmento da sociedade. Rejeitar a medicalização dos chamados problemas de saúde mental é um passo necessário para revelar algumas das contradições fundamentais do capitalismo e lançar as bases para a mudança política”.

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Moncrieff, J. (January 01, 2021). The political economy of the mental health system: A Marxist analysis. Frontiers in Sociology, 6, 1-11. (Link)

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Equipe MIA Research News: Micah Ingle é um estudante de doutorado em Psicologia: Consciência e Sociedade na Universidade do Oeste da Geórgia. Ele publicou abordagens terapêuticas centrando a pessoa ao contexto e às características das pessoas com alta empatia, em oposição ao modelo médico individualizante. Seus interesses atuais incluem a interseção de estruturas sociopolíticas / econômicas e saúde mental, individualismo em psicologia, gênero, psicologia da libertação e perspectivas mitopoéticas inspiradas pelo pensamento junguiano.