Estudo Realça a Importância dos Grupos de Ouvidores de Vozes no Brasil

Pesquisadores brasileiros apresentam os resultados qualitativos dos grupos de ouvidores de voz liderados por pares e que estão integrados ao atendimento psiquiátrico padrão.

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Um novo artigo publicado na revista brasileira Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental documenta a experiência dos usuários de serviços que participam dos grupos Hearing Voices. O artigo foi escrito por quatro autores brasileiros, Giselle Morais, Lorena Vinne, Deivisson Santos, e Sabrina Stefanello, da Universidade Federal do Paraná.

Utilizando metodologia qualitativa, os autores demonstram como os grupos de ouvidores de vozes podem ser uma estratégia para o cuidado e recuperação dos indivíduos que ouvem vozes.

“Os participantes identificaram o grupo como um lugar para falar tanto do preconceito que sofrem por ser um ouvinte de voz, mas do próprio preconceito que têm em se identificar como um ouvinte de voz ao início do grupo. Afinal, na prática tradicional diária, as experiências de ouvir vozes são frequentemente silenciadas, o que pode aumentar a ignorância e o medo, mesmo entre os próprios ouvintes, a respeito delas”, escrevem os autores.

“Em contraste, foi possível observar que apesar do medo inicial dos participantes de se juntarem ao grupo, em geral, após as reuniões, eles começaram a ter uma nova visão sobre a experiência de ouvir vozes e começaram a se identificar com seus pares. Este movimento, comum nas estratégias de apoio mútuo, permite um reconhecimento do eu que é diferente dos rótulos trazidos pelos diagnósticos”.

O Hearing Voices Movement (HVM) se baseia em abordagens intersetoriais, informadas por trauma e com base em direitos na atenção em saúde mental. Embora os benefícios dos grupos de ouvidores de vozes tenham sido documentados relativamente bem nos EUA e Europa, menos pesquisas demonstram a eficácia dos grupos no Sul Global, particularmente na América Latina.

Reconhecendo esta oportunidade, os autores visaram avaliar a percepção dos participantes em grupos de ouvidores de vozes em três Centros de Atendimento Psicossocial na cidade de Curitiba-PR, Brasil. O estudo foi qualitativo e as entrevistas foram realizadas até a sua saturação.

Foram realizadas 14 entrevistas semi-estruturadas com indivíduos com mais de 18 anos de idade que participavam regularmente do grupo de ouvidores de vozes por pelo menos três meses. Depois que as entrevistas foram lidas várias vezes para identificar temas centrais, elas foram reorganizadas usando uma grade de análise para reconhecimento e comparação utilizando análise hermenêutica gadameriana.

A análise hermenêutica gadameriana, os autores salientam, “não é entendida como uma metodologia em si, mas como uma postura interpretativa que é apoiada pela busca de compreensão de um texto ou, mais globalmente, de um fenômeno humano. Esta postura procura explicar as narrativas dentro de um contexto histórico, além da forma como estes participantes compartilharam suas próprias experiências e significados“.

Após a análise, foram identificados quatro temas distintos que emergiram.

  1. A chegada dos pacientes ao grupo: cada paciente chegou ao grupo de maneira relativamente semelhante, com uma indicação relacionada aos sintomas. Um paciente observou que os profissionais da saúde mental tinham visto anteriormente melhorias nos indivíduos que ouviam vozes ao participar do grupo.
    “Eu ouço vozes praticamente o tempo todo. Quando o grupo chegou, então todos eles aqui, todos os profissionais aqui, acharam que era bom para as pessoas que ouvem vozes participarem do grupo, ver a melhora que eles poderiam ter. É por isso que eles me encorajaram”.
  2. Como funciona o grupo: a confidencialidade do grupo permite que os usuários se sintam seguros e, portanto, compartilhem as suas experiências sem vergonha ou medo de mais ostracização.
    “Eu me sinto seguro de que tudo fica aqui, o que você diz aqui fica aqui, ele (moderador) nos disse, então nos sentimos mais seguros”.
  3. Uso de medicamentos: o uso de medicamentos entre os usuários foi praticamente onipresente, com apenas um optando por não tomar os medicamentos dada a escolha. Os dados qualitativos apontam para o sentimento compartilhado entre os usuários que, sem os medicamentos, suas vozes e sintomas muitas vezes pioram.
    “Quando tomo a clozapina, a voz diminui, como se eu diminuísse o volume do rádio, então a gente continua a ouvir, só que mais baixo”.
  4. Significado e efeitos do grupo: a maioria dos usuários identificou que a cooperação e a participação de seus pares no grupo proporcionou um tipo adicional de tratamento que melhorou a sua qualidade de vida. É mais do que um espaço seguro sem julgamento; é uma comunidade e uma rede de apoio que permite que se sinta mais no controle das vozes.
    “Você sempre pensa, ‘bem, só eu é que estou passando por isso? Cada pessoa tem uma história dentro [do grupo] que nos ajuda, é por isso que eu acho que não estou sozinho no grupo.

Esta nova pesquisa proveniente do Brasil confirma ainda mais que os grupos de ouvidores de vozes apenas podem melhorar os cuidados e a qualidade de vida. Os autores observam que isso também reequilibra o poder.

“Os grupos de ouvidores de vozes criam espaços onde seus participantes têm suas experiências e seus conhecimentos sobre elas validados, assumem um papel protagonista em seus próprios cuidados, e há uma relação horizontal com os profissionais moderadores”, concluem os pesquisadores.

“A relação horizontal com profissionais e estudantes dentro dos grupos tem permitido que as experiências vividas por estes indivíduos sejam reconhecidas e re-significadas, sem o filtro do conhecimento técnico, e passaram a ocupar o papel principal em suas próprias vidas, ao invés de sintomas. Ao compartilhar conhecimentos experimentais, ou ao invés de apenas conhecimentos técnicos, os participantes experimentaram uma estratégia de co-construção de novos conhecimentos sobre a experiência de ouvir vozes”.

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Morais, G., Vinne,L., Santos, D., & Stefanello, S. (2022, março). As vozes dos usuários participantes de grupos de ouvidores de vozes. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental25(1), 140-161. http://dx.doi.org/10.1590/1415-4714.2022v- 25n1p140.8

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Samantha Lilly traz a sua formação em filosofia, bioética e justiça social para o seu trabalho como suicidóloga crítica, com a crença de que a suicidologia, no seu melhor, é um trabalho de justiça social. Antes de iniciar um doutoramento em Saúde em Ciências Sociais na Universidade de Edimburgo, Sam recebeu uma bolsa Thomas J. Watson Fellowship. O seu projecto, "Understanding Suicidality Across Cultures", deu-lhe o privilégio de trabalhar ao lado de especialistas em ética, académicos e defensores dos direitos nos países da Benelux, Lituânia, Argentina, Aotearoa, e Indonésia. A investigação actual da Sam dedica-se a trazer metodologias feministas e descoloniais para a prevenção do suicídio.