Distinguindo Distúrbios Dissociativos de Distúrbios Psicóticos: Compondo a Alienação

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ron ungerAs histórias nos organizam, e as ‘histórias ruins’ igualmente nos organizam de maneiras destrutivas. Neste post irei abordar um exemplo disso: a história contada sobre como os profissionais de saúde mental – qualificados – podem distinguir entre transtornos dissociativos – com suas raízes no trauma -, e transtornos psicóticos – considerados como doenças do cérebro.

Por que os profissionais insistem em fazer essa distinção?

A ideia é que as pessoas com distúrbios dissociativos precisam de uma terapia cuidadosa e habilidosa que lide com seu passado traumático e sua resposta fragmentada a ele, para que possam se reorganizar de maneira mais integrada. Acredita-se que tal abordagem psicológica seria inútil para aqueles com transtornos psicóticos, na medida em que seus problemas são entendidos como baseados em seus cérebros doentes, sendo as drogas necessárias para controlar as disfunções.

Se os profissionais realmente pudessem distinguir com segurança aqueles cujos problemas provenham de experiências difíceis e que podem ser ajudados pela terapia e pela auto compreensão, daqueles cujos problemas sejam mais orgânicos e que não podem ser ajudados de maneira psicológica, concentrando-se em fazer tal distinção seria uma abordagem útil. Mas se sua fé em sua capacidade para fazer isso for realmente uma ilusão, então o que eles estão realmente fazendo é definir todos do lado ‘psicótico’ da distinção como estando além da compreensão e ajuda humanas, e assim infligem outro golpe naqueles já severamente afetados.

É bem sabido que as pessoas se desassociem quando a a mente não consegue dar conta diretamente do que lhes aconteceu. Mais tarde, partes da pessoa cuja experiência não foi enfrentada podem ser incapazes de se integrar com as partes que conseguiram: cada uma se sente estranha à outra.

É o que acontece a seguir, o que pode ser crucial para separar aqueles que serão reconhecidos como tendo um distúrbio dissociativo daqueles que serão vistos como tendo um distúrbio psicótico.

Se a pessoa reconhece as partes ‘alienígenas’ de si mesmas como sendo apenas partes de si mesmas, mesmo que pareçam ser perturbadoras ou até mesmo ‘personalidades diferentes’, então elas têm uma boa chance de se verem a si mesmas e que os profissionais as vejam, como tendo PTSD ou transtorno dissociativo. Mas se as pessoas veem as partes ‘alienígenas’ de si mesmos como sendo literalmente alienígenas, ou demônios, ou agentes da CIA conversando com elas através de um implante cerebral, então elas provavelmente serão diagnosticados como psicóticos.

É importante nos darmos conta do que está acontecendo aqui: é a pessoa que se sente mais fortemente alienada de partes de si quem provavelmente fará a interpretação ‘psicótica’ sobre o que essas partes são – e então é essa pessoa que será vista pelo sistema de saúde mental como tendo um distúrbio que é compreensível apenas como disfunção cerebral.

Podemos imaginar a seguinte conversação:

Pessoa: “Eu tenho um alienígena dentro de mim.”

Profissional de saúde mental: “Não, o que você tem dentro de você é um cérebro defeituoso, isso é patologia cerebral ou é uma doença mental”.

Quando somos alienados de alguém, podemos deixar de cooperar com eles e lutar com eles, mas pelo menos percebemos que eles são seres vivos. Quando as pessoas são alienadas de pensamentos, sentimentos e partes de si mesmas, ou de personagens dentro de si mesmas, elas podem falhar em trabalhar com essas partes ou integrá-las em sua identidade, mas pelo menos elas se relacionam com essas partes como algo vivo. O que os profissionais fazem quando patologizam partes de pessoas ou suas experiências é desumanizá-las, vê-las não como algo que pode ser relacionado, mas como algo que deve ser exterminado. É aí que a alienação se torna composta.

O que falta na resposta do profissional é um reconhecimento de que o que a pessoa pode ter dentro de si é uma resposta muito humana a experiências muito difíceis, e o cérebro pode estar simplesmente respondendo a essas experiências. Ao não admitir essa possibilidade, a recuperação torna-se mais difícil. Se a pessoa aceitar a explicação do profissional, ela pode não mais ser habitada por um alienígena, mas agora ela é habitada por patologia, e pode-se esperar que a patologia seja vitalícia e exija esforços para o extermínio em curso.

Profissionais se diferenciam evidentemente quando começam a ver evidências de ‘patologia do cérebro’, versus quando estão abertas a ver um problema como sendo psicológico.

  • Alguns ainda identificarão qualquer relato de audição de voz como evidência de patologia cerebral, sem considerar a possibilidade de que as vozes possam ser dissociativas.
  • Alguns imaginam que podem usar certos critérios para distinguir ‘vozes dissociativas’ de ‘vozes psicóticas’ – mesmo que as pesquisas mostrem que não há base confiável para fazer tal distinção.
  • Alguns alegam que se uma voz é dissociativa a pessoa poderá falar com ela, enquanto a pessoa não pode falar com uma voz psicótica.

A hipótese alternativa é que os profissionais estão simplesmente deixando de reconhecer que a alienação existe em um espectro, e esses profissionais estão confundindo diferenças no grau de alienação com uma distinção categórica que não existe.

É comum, por exemplo, que as pessoas sejam informadas de que as vozes dissociativas são vivenciadas como vindo de “dentro” da pessoa, enquanto as vozes psicóticas são vivenciadas como “externas” à pessoa. Mas o que ocorre de fato é que essas experiências estão realmente em um espectro e, ao que parece, um espectro muito complicado.

Para os propósitos desta discussão, digamos que uma pessoa é apenas dissociativa, e não psicótica, se perceberem todas as vozes que ouvem (que outras não ouvem) como parte de seu eu, enquanto que definir alguém como ‘psicótico’ quando as pessoas percebem vozes que ouvem como algo diferente de si mesmos. (Visto dessa maneira, ser ‘psicótico’ não se distingue de um problema dissociativo, mas visto como uma possível complicação que pode ocorrer, ou que é um grau mais profundo de alienação).

A questão complicada é que muitas pessoas que são apenas dissociativas, no sentido definido acima, realmente ouvem as vozes das outras partes de si mesmas como se estivessem vindo de fora de si mesmas, de algum outro lugar da sala, por exemplo. Elas também podem ‘ver’ partes de si mesmas fora de si mesmas, embora estejam cientes de que isso é apenas uma experiência mental e, portanto, não são psicóticos. Enquanto isso, muitas pessoas que são ‘psicóticas’ no sentido definido acima, ouvem suas vozes ou muitas de suas vozes localizadas dentro de si, embora acreditem que não faz parte de si mesmas – como no caso em que acreditam que um demônio ou cérebro implantado ficou dentro delas.

A ideia de que os profissionais podem definir vozes como mais ‘psicóticas’, se as pessoas se acharem incapazes de conversar com elas, também ignora a possibilidade de um espectro; ignora a possibilidade de que a incapacidade de conversar possa ser outra função do grau de alienação. Todos sabemos, por exemplo, que quando as pessoas estão se sentindo muito alienadas dos outros seres humanos, muitas vezes descobrem que não conseguem conversar com elas. Muitos de nós descobrimos, por exemplo, que não podemos falar com pessoas politicamente muito diferentes – ou mesmo se estivermos dispostos a conversar, os outros não falarão conosco!

As pessoas que fazem parte movimento de ouvidores de vozes, e os terapeutas que trabalham com psicose, comumente descobrem desde o início que as pessoas não podem conversar com suas vozes, mas com algum trabalho, tal conversa se torna possível e útil.

Este trabalho não é visto como possível, no entanto, quando a incapacidade inicial da pessoa para conversar com as vozes, e a incapacidade de ver as vozes como parte de si mesmas com as quais poderiam se relacionar, é interpretada como evidência de que as vozes são apenas patologias cerebrais. Há uma noção de que ‘não se pode conversar com uma doença’ e, assim sendo, a interpretação do profissional de que a voz é patologia cerebral torna-se parte do problema da comunicação ou a compõe.

Devo salientar que a ‘dissociação’ – assim como a ansiedade ou o humor deprimido – não é uma coisa totalmente ruim. Há momentos em que é útil, e um certo grau disso faz parte do funcionamento humano saudável. As pessoas que fazem parte da rede de ouvidores de vozes apontam que ouvir vozes – um tipo particular de experiência dissociativa – também pode fazer parte do funcionamento humano saudável, embora as pessoas igualmente possam ter vários tipos de problemas com essas experiências. Alguns desses problemas atingem o nível do que é chamado de psicose – estar seriamente ‘fora de contato com a realidade’ e / ou seriamente desorganizado. Mas todos esses problemas podem ser potencialmente abordados  e resolvidos, ajudando as pessoas a se relacionarem com o que estão vivenciando, em vez de patologizá-lo.

Há muitas pessoas que publicamente têm descrito a jornada delas como havendo estado verdadeiramente perdidas em uma psicose, e que preenchem completamente os critérios diagnósticos para ‘esquizofrenia’, e que no entanto, à medida que obtiveram mais insight, mudaram para experiências que pareciam algo mais como um distúrbio dissociativo, e em seguida mudaram para não se sentirem mais ‘perturbadas’. Eleanor Longden é um exemplo bem eloquente. Quando estava totalmente ‘psicótica’, ela estava plenamente convencida de que suas vozes emanavam de seres fisicamente reais fora dela que poderiam prejudicá-la e à sua família, se ela não obedecesse aos seus comandos, e seu processo de raciocínio era tão ruim que chegou a fazer furos em sua cabeça para conseguir chegar às vozes, sem entender o fato de que ela provavelmente se mataria nesse processo. Mais tarde, ela passou a reconhecer as vozes como partes separadas de si mesma e, ao se reconciliar com aquelas partes, curou-se. Ela conta sua história eloquentemente em sua palestra Ted talk e em mais detalhes nesta versão mais longa.

Eu trabalho como terapeuta especializado em terapia para psicose e, embora nem sempre tenha sucesso, tive a sorte de ajudar as pessoas a fazer jornadas semelhantes em direção à cura.

Estes são problemas complexos, e este post apenas toca de leve no assunto. Eu tenho trabalhado para tornar a educação sobre este assunto mais disponível, em particular na forma do meu curso on-line Trabalhando com Trauma, Dissociação e Psicose: CBT e Outras Abordagens para Entendimento e Recuperação, que vem com 6 créditos CE para a maioria dos profissionais dos EUA. . (Até 23/5/18, está sendo oferecido com um grande desconto, e até mesmo gratuito para não-profissionais.)

Em um quadro mais ampliado, alienação e dissociação é algo que acontece não apenas dentro das pessoas, mas dentro e entre grupos sociais, tribos, nações, etc. Ver o ‘outro alien’ como apenas algo patológico, algo a ser exterminado, não costuma funcionar muito bem. Precisamos de dar mais atenção a abordagens que reconheçam a vida e a validade no outro estrangeiro, e que ajudem as pessoas e os grupos sociais a afirmarem suas próprias necessidades, enquanto também encontram maneiras de reconhecer e se reconciliar com as necessidades mais profundas do outro. Há razões para esperança, então vamos fazer o que pudermos para nutrir as possibilidades!

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