Pesquisador Discute Retirada das Drogas Psiquiátricas e o Movimento dos Sobreviventes

Novas formas de entender as experiências de medicação e de retirada da medicação demandam que sejam repensados conceitos de saúde e "loucura"

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Will Hall, entre outros papéis, é terapeuta e pesquisador e ex-paciente com psicose,  que publicou recentemente um artigo que explora experiências retirada de drogas que estão centradas no paciente, e chama a atenção para o recente momento dos movimentos de pacientes / sobreviventes. Ele mostra a conexão entre as ideias reducionistas sobre medicação psiquiátrica e as ideias igualmente reducionistas sobre a loucura, insistindo na urgência em se repensar o que constitui ‘saúde’.

“Reconsiderar a eficácia da medicação é inseparável do imperativo de se repensar a própria loucura”, escreve Hall. “As doenças mentais e a psicose são distúrbios cerebrais, como é alegado? E quanto aos pacientes que tomaram medicamentos que agora vem sendo questionados? Como resultado desse crescente ceticismo, demandas por mais pesquisas estão surgindo, especialmente para que seja preenchida a lacuna de investigação a respeito da retirada de medicamentos ”.

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Will Hall é uma liderança no campo da Saúde Mental nos Estados Unidos, consultor, escritor e professor. Diagnosticado com esquizofrenia, ele uma liderança e organizador do movimento dos sobreviventes da psiquiatria. 

 

Hall começa destacando as tendências recentes em direção à colaboração entre pacientes e os prestadores de serviços em diversos ambientes médicos. Quando se trata de tomada de decisão médica e pesquisa, descobriu-se que a colaboração aumenta os resultados e a satisfação do paciente. No campo da psiquiatria, no entanto, a cooperação está ainda muito atrasada.

Pesquisas recentes recomendam cada vez mais cautela em torno dos potenciais efeitos adversos e danos causados pela ingestão de medicamentos psiquiátricos. Muitos suportam efeitos graves de abstinência, na medida em que tentam descontinuar o uso, e têm que enfrentar resistências e falta de apoio dos profissionais de saúde. A importância das decisões de tratamento psiquiátrico é justamente o que garante uma maior colaboração, argumenta Hall.

“Ser totalmente humano significa ser reconhecido como tendo direitos iguais para a escolha do risco médico”, escreve Hall.

Além disso, Hall afirma que a psiquiatria pode aprender observando como os pacientes passaram a abordar a abstinência de medicamentos relacionados a outras condições de saúde, como epilepsia, dor crônica e diabetes tipo 2, para citar algumas. Ele descreve as experiências comuns de pacientes com a retirada das drogas psiquiátricas que são espelhadas nas abordagens do movimento de sobreviventes em psiquiatria:

  • Diversidade e imprevisibilidade. As condições se manifestam de maneira diferente em pessoas diferentes, assim como os medicamentos provocam efeitos diferentes. As opiniões variam entre os médicos, e todas as decisões acarretam riscos.
  • Adaptando as decisões às necessidades individuais. “Uma medida não serve para todos”, quando se trata de decisões de tratamento. Muitas vezes, várias mudanças no estilo de vida estão por detrás das decisões de deixar de tomar a medicação.
  • A importância da retirada gradual. Exceto em circunstâncias em que a retirada abrupta é necessária, a redução gradual pode ajudar a reduzir os efeitos de uma retirada rápida.
  • O paradoxo de tornar as condições piores. Algumas drogas, como drogas antiepilépticas, têm o potencial de exacerbar os sintomas para os quais as drogas foram prescritas. Essa preocupação também vem sendo manifestada com relação aos antipsicóticos.
  • Consideração da informação sobre risco-benefício. “Muitas tomadas de decisão do paciente não se concentram na certeza, mas em riscos e benefícios a serem calculados em uma escolha pessoal.”
  • A dignidade do risco e autonomia do paciente. “Os pacientes são livres para assumir riscos, mesmo quando há discordância”.
  • Riscos da medicina integrativa e holística. Os médicos estão dispostos a incorporar em suas práticas tratamentos integrativos, mesmo que sejam céticos quanto ao seu mecanismo de cura, na medida em que podem fortalecer o relacionamento clínico, motivar a mudança e melhorar a agência do paciente.

Tratamentos das psicoses ou substâncias psicoativas?

Hall observa que, não havendo evidências de marcadores biológicos, as drogas psiquiátricas são mais bem entendidas quando consideradas como substâncias psicoativas: elas alteram a consciência, por meio de mudanças cerebrais, de placebo ou de efeitos nocebo, e podem criar dependência semelhante às substâncias recreativas. Apesar de anos de pesquisa, Hall descobre que não há consenso sobre o protocolo das melhores práticas de tratamento da dependência e, mais uma vez, enfatiza a diversidade que provavelmente existirá no processo de descontinuação.

Dois fatores podem informar a retirada, como ele escreve. 1) que a duração e o grau de uso da substância podem geralmente aumentar a dificuldade de retirada, e 2) a retirada gradual é geralmente recomendada para a maioria das drogas.

(trad. Fernando Freitas)

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Hall, W. (2018). Psychiatric Medication Withdrawal: Survivor Perspectives and Clinical Practice. Journal of Humanistic Psychology, 0022167818765331. (Link)