Precisamos de mais Psiquiatria?

0
281

Precisamos de mais Psiquiatria?

Fernando Freitas & Paulo Amarante

Quem recentemente teve a oportunidade de ler o artigo de Jair Mari e Naomar de Almeida publicado na Folha de São Paulo foi informado da enorme e crescente prevalência dos transtornos mentais na população brasileira. O quadro que nos é apresentado é assustador. A informação passada para o público é a de que o Brasil tem uma das mais altas prevalências de ansiedade, alcoolismo e transtornos depressivos. No contexto da pandemia do COVID, com o aumento da insegurança, da orfandade, dos lutos complexos, do estresse com as medidas de isolamento e proteção social, o desemprego etc., o que se argumenta é haver uma correlação imediata com o aumento dos problemas ditos psiquiátricos.

Frente a um quadro assustador como esse que nos é mostrado, a reação esperada é que a sociedade venha a demandar por mais serviços psiquiátricos para dar conta de necessidades que não param de crescer. Se há um aumento do número de pessoas com problemas psiquiátricos, como argumentam os autores, o que se espera é que mais profissionais sejam incorporados ao sistema de assistência. Que se qualifique mais profissionais, preparando-os para diagnosticar melhor e para prescrever mais psicofármacos e, por conseguinte, ampliar o acesso das pessoas ao diagnóstico e aos psicofármacos.

Para quem está minimamente familiarizado com a literatura crítica da pesquisa em psiquiatria essa narrativa não surpreende. O que não é dito é que vem se tornando cada vez mais difícil ser “normal” para a psiquiatria, como foi dito pelo próprio Allen Frances, o coordenador da força-tarefa que elaborou o DSM-IV   A cada nova versão do DSM é aumentado o número de categorias de diagnóstico.  Mas, é preciso que se diga (como demonstraram, dentre muitos outros, José Jackson Coelho Sampaio e Evandro Coutinho), o diagnóstico psiquiátrico tem muito pouca confiabilidade científica para os critérios de diagnóstico propostos.

O que não é dito pelos autores desta narrativa oficial da psiquiatria é que a prescrição de drogas psiquiátricas vem aumentando o número de pessoas com incapacidades psiquiátricas e dependência química às mesmas. Quem leu o livro A Epidemia das Drogas Psiquiátricas, do premiado jornalista estadunidense Robert Whitaker, não pode mais fingir o quanto a psiquiatria é responsável pelo aumento do número de pessoas psiquiatrizadas, nos Estados Unidos e no mundo inteiro. São abundantes as evidências científicas a demonstrar as razões para que o próprio tratamento psicofarmacológico aumente os problemas psiquiátricos na população.

Estudos revelam que os antidepressivos aumentam o risco que a depressão se torne uma doença crônica; que um paciente unipolar se torne bipolar ao longo de tempo de uso; que um paciente em antidepressivo se torne incapacitado pelo seu uso e passe a depender da previdência social.

Tratamento da ansiedade? Estudos têm demonstrado que as benzodiazepinas causam danos no funcionamento em múltiplos domínios, quando tomadas por um longo prazo.

E o mesmo pode ser dito com relação aos antipsicóticos.

A experiência brasileira com a reforma psiquiátrica tem demonstrado algo que no passado parecia impossível. (1) Que se pode tratar pessoas com graves problemas psiquiátricos sem a necessidade da sua manutenção em asilos psiquiátricos. (2) Que é possível se prescindir da internação involuntária para garantir a segurança pessoal e de terceiros. (3) Que a atenção psicossocial é capaz de prestar a assistência para a grande maioria dos casos psiquiátricos. (4) Que quanto menos se converte as condições socioeconômicas e culturais em problemas de doença mental mais se garante a autonomia e o desenvolvimento das capacidades dos sujeitos. (5) Que a assistência em saúde mental deve estar subordinada aos imperativos dos direitos humanos.

Finalmente, é preciso ainda dizer que o processo de reforma psiquiátrica, minimizado pelos autores, conseguiu extinguir com mais de 60 mil lugares de violência em instituições asilares psiquiátricas no Brasil, retirando milhares de pessoas dos verdadeiros campos de concentração que são os hospitais psiquiátricos (vide Em nome da razão de Helvécio Ratton dentre outros), impedindo que outras milhares ingressassem nestas instituições e restituiu vida e dignidade a muitos outras milhares de pessoas, que passaram a ser cuidadas em serviços de saúde mental e atenção psicossocial em liberdade, participando de projetos de geração de renda, economia solidárias e projetos culturais. Milhares de pessoas que passaram a viver sem serem um simples diagnóstico!

****

Fernando Freitas e Paulo Amarante são Pesquisadores Titular e Sênior do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS) da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, são autores do livro “Medicalização em Psiquiatria” (Editora Fiocruz), editores da página www.madinbrasil.org membros do International Institute For Psychiatric Drug Withdrawal (IIPDW).