Como Prevenimos a Solidão?

A solidão tem sido associada a resultados negativos de saúde, mas ainda não há intervenções claramente comprovadas para "consertar" o problema!

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shanonspetersRita Rubin, que é uma jornalista independente, explora os desafios com relação ao desenvolvimento de intervenções para reduzir a solidão. Em um novo artigo sob essa perspectiva, publicado no periódico científico JAMA, Rubin analisa estudos recentes sobre o impacto da solidão e programas para melhorar os ‘vínculos sociais’. Ela também informa sobre entrevistas com pesquisadores e profissionais dedicados a reduzir a solidão. Em suma, há um consenso de que a solidão está relacionada a resultados adversos para a saúde, mas as soluções não são claras.

“A associação entre a solidão e as doenças físicas e o fato de que a solidão é angustiante são motivos suficientes para intervir … [ainda] há uma escassez de evidências para apoiar o que intuitivamente parece ser um bom conselho para indivíduos solitários: fazer um curso, tomar uma aula de ginástica, pegar um cachorro, fazer algum trabalho voluntário “, escreve Rubin.

Solidão

A solidão é “uma discrepância angustiante entre níveis desejados de contato social e aqueles reais”, explica Rubin.

A solidão é diferente do isolamento social, na medida em que alguém pode sentir-se solitário sem estar isolado e vice-versa. No entanto, ambos têm sido associados a resultados negativos de saúde.

A solidão tem sido identificada como uma epidemia, com alguns cientistas colocando a solidão no mesmo nível do que fumar cigarros.

Christina Victor, professora de Gerontologia e Saúde Pública da Universidade Brunel de Londres, aborda o equívoco de que a solidão possa ser facilmente ‘consertada’ por uma única interação com um estranho. Ela dá o exemplo de instituições de caridade que criam laços entre idosos com voluntários, quando os idosos não passam férias sozinhos. Esta intervenção não é apoiada pela pesquisa, uma vez que as interações com estranhos demonstraram não reduzir a solidão, e que os idosos são mais propensos a se sentir mais solitários no verão do que no Natal.

Rubin também relata a pesquisa de Julianne Holt-Lunstad, professora de psicologia e neurociência da Universidade Brigham Young. Holt-Lunstad identificou a solidão como uma ameaça à saúde pública, com base em pesquisas que descobriram que o isolamento social aumenta o risco de se morrer prematuramente.

Estudiosos, como Victor, observaram limitações na pesquisa sobre a solidão. As principais questões são que a maioria dos estudos tem sido transversais ou que não conseguem controlar fatores confusos, deixando não claro se a solidão está realmente causando resultados negativos para a saúde. Apesar dessas limitações, Holt-Lunstad e seu colega, Timothy Smith, afirmam: “A evidência cumulativa aponta para o benefício de fatores sociais, em treinamento médico e educação continuada voltados para profissionais de saúde”.

Infelizmente, “há que se reconhecer que a solidão recebe pouca atenção nos cuidados de saúde”, de acordo com Rubin. E mesmo quando os indivíduos são adequadamente identificados, Rubin observa que “a evidência sugere que o que muitas pessoas considerariam soluções de senso comum não necessariamente são as que levantam o véu da solidão”.

Um exemplo disso é ‘fazer amizade com’, onde um voluntário regularmente se encontra com um indivíduo identificado como solitário para desenvolver uma relação de apoio. Uma recente revisão bibliográfica sobre programas de amizade feita por acompanhantes descobriu apenas uma modesta melhoria nos sintomas de depressão e de ansiedade, e que tais benefícios não foram estatisticamente significativos.

De acordo com Laurie Theeke, professora associada de enfermagem na Universidade da Virgínia Ocidental, as intervenções de acompanhantes são falhas porque adotam uma abordagem universal que trata cada pessoa solitária como sendo a mesma. Em vez disso, Theeke identifica a solidão como uma construção psicológica conectada à depressão e à ansiedade. Theeke e colegas desenvolveram “Intervenção de Solidão usando a Teoria da História para Melhorar os Resultados Sensíveis às Enfermagens” (LISTEN),  como uma abordagem individualizada.

Participantes do programa LISTEN se envolveram em sessões grupais de 2 horas por cinco semanas. Esses cursos incluem educação sobre envelhecimento e espaço para falar sobre sua solidão e quais padrões em seus pensamentos ou comportamentos podem contribuir para isso. Theeke diz que este programa “é como ensinar uma pessoa a como pescar”, fornecendo-lhes as habilidades para promover mais conexão social. Segundo Theeke, este programa também combate o estigma da “não ser desejável socialmente”, muitas vezes associada à solidão, normalizando a experiência.

A solidão afeta as pessoas ao longo da vida útil. Uma abundância de pesquisas sugere que tanto a solidão quanto o isolamento social estão ligados a resultados negativos para a saúde e a uma menor qualidade de vida. No entanto, os pesquisadores ainda não encontraram soluções eficazes. Para combater a solidão, Rubin pede mais atenção nos cuidados de saúde para que sejam indentificados os indivíduos que vivem a solidão, e pra programas mais individualizados, como é o caso do LISTEN.

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Rubin, R. (2017). Loneliness might be a killer, but what’s the best way to protect against it? JAMA. Advance online publication. doi:10.1001/jama.2017.14591 (Texto Completo).

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