“A mente polarizada” como estrutura alternativa para o sofrimento humano

O psicólogo existencial-humanista, Kirk Schneider, sugere que a causa do sofrimento e da destruição não é "doença mental", mas "a mente polarizada"

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shanonspetersUm novo artigo, escrito por Kirk Schneider, aborda a questão de que os indivíduos marginalizados têm maior probabilidade de receber diagnósticos psiquiátricos, enquanto muitos comportamentos abusivos ou destrutivos exibidos por indivíduos poderosos são mais glorificados do que patologizados. Como presidente do Instituto Existencial-Humanista e professor adjunto da Saybrook University, Schneider é um dos principais porta-vozes da psicologia existencial-humanista contemporânea. Seu artigo, adaptado de um post anterior da sua coluna no Psychology Todaye publicado no Journal of Humanistic Psychology, sugere que “a mente polarizada” pode ser uma estrutura mais útil para responder ao sofrimento do que o diagnóstico.

“Se quisermos abordar o problema do distúrbio mental em nossas comunidades e, de fato, no mundo, devemos abordar as culturas e as motivações que causam tal perturbação, e precisamos buscar recursos muito além do modelo médico ou da psicologia clínica”, escreve Schneider.

 

Photo Credit: Flickr
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Schneider observa que a ‘doença mental’ é popularmente entendida como referindo-se ao sofrimento psicológico, mas tem sido cada vez mais definida em termos biológicos. Ele argumenta que esse foco biológico “quase que nos cega para sua causa mais profunda”, que ele argumenta ser ambiental e o resultado do medo não reconhecido. Schneider levanta a questão de que muitas pessoas que se envolvem em atos destrutivos (por exemplo, abuso, guerra) não são vistas pela sociedade como tendo uma “doença psiquiátrica”. Ele usa o exemplo de muitos líderes políticos, empresariais e religiosos que exibem traços antissociais, transtorno de personalidade ou transtorno de personalidade narcisista. Ele escreve:

“Agora, é muito claro – ou deveria ser, ainda que com um conhecimento superficial da história do passado ou a dos tempos atuais – que essas ‘desordens’ mencionadas são grandes perturbações da humanidade e não meramente as patologias de grupos marginalizados.”

Schneider reivindica uma terminologia que “possa capturar a amplitude do problema que convencionalmente atribuímos aos grupos marginalizados e privados de direitos que sãao rotulados como pessoas com transtornos mentais”. Ele sugere que “a mente polarizada” possa ser uma estrutura útil. Schneider define:

“A mente polarizada é a fixação em um ponto de vista e a exclusão total de pontos de vista concorrentes e, na minha opinião, essa é a ‘praga’ psicossocial da humanidade.”

De acordo com Schneider, a mente polarizada aplica-se a todas as pessoas em algum grau, atravessando os diversos níveis de poder (por exemplo, ricos / pobres, privilegiados / marginalizados). Ele espera que este quadro possa ajudar a explicar como o ‘transtorno mental’ surge.

“A mente polarizada é uma estrutura conceitual mais aberta para diagnósticos do DSM; nos dá um contexto sociopolítico para esses diagnósticos, e os situa na narrativa muito maior e mais precisa do sofrimento histórico do que nas narrativas compartimentadas da fisiologia, paternidade ou trauma individual ”, escreve Schneider.

Schneider conecta a mente polarizada à teoria do gerenciamento do terror: que a fixação em um ponto de vista é o resultado do medo, especificamente do medo da morte. Quando não abordado, as pessoas trabalharão para evitar o medo, o que pode resultar em atos destrutivos. Ele dá exemplos de tiroteios em massa, atentados suicidas e homicídios racialmente carregados, bem como a influência corporativa no Congresso dos EUA, destruição do meio ambiente e retórica odiosa.

Schneider oferece possíveis maneiras de integrar a estrutura da mente polarizada em intervenções. Ele recomenda mais pesquisas de psicologia profunda, referindo-se a “análises quantitativas e qualitativas, existencialmente informadas, da condição humana”. Por exemplo, ele sugere pesquisas sobre psicoterapia profunda para jovens, famílias e comunidades.

Ele também sugere pesquisas sobre artes, humanidades e inteligência emocional sejam incorporadas aos currículos nas escolas. Por fim, ele pede estudos sobre encontros facilitadores entre membros da comunidade e funcionários do governo. Schneider espera que esses tipos de intervenções permitam que as pessoas ampliem suas perspectivas e encontrem pontos de convergência com outras, o que poderia reduzir a polarização.

Schneider conclui com o alerta: “Se não reconhecermos que as abordagens psiquiátricas convencionais – e a terminologia – são insuficientes para a tarefa de abordar aqueles que governam e muitas vezes ameaçam nosso mundo, continuaremos a tropeçar em desespero”.

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Schneider, K. J. (2018). The chief peril is not a DSM diagnosis but the polarized mind. Journal of Humanistic Psychology. Advance online publication. doi:10.1177/0022167818789274 (Link)

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