A Retraumatização pela Psiquiatria: Uma Conversa acerca do livro Trauma e Loucura nos Serviços em Saúde Mental

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blevineForças políticas, culturais e financeiras têm feito com que muitos profissionais de saúde mental ignorem a realidade do trauma e da adversidade, o que costuma prejudicar muito em vez de ajudar. Em seu livro recentemente publicado Trauma e loucura em serviços de saúde mental (Trauma and Madness in Mental Health Services, publicado por Palgrave Macmillan, 2018) a psicóloga clínico Noël Hunter oferece uma crítica perspicaz das irracionalidades do diagnóstico e tratamento em saúde mental, e também fornece ferramentas concretas para os sobreviventes de trauma e para quem quer ajuda-los.

Hunter tem um ponto de vista particular para ver a profissão de trabalhadores em saúde mental. Não só ela é uma psicóloga com amplo conhecimento da pesquisa empírica, mas ela mesma foi ‘diagnosticada’ e ‘tratada’ como tendo uma ‘doença mental séria’. Antes de se tornar psicóloga clínica, Hunter era uma atriz envolvida em comédia de improvisação – que ela ainda faz – e ganhou a vida por uma década como personal trainer. No entanto, suas próprias experiências como paciente resultaram em seu retorno à escola para se tornar psicóloga. Sua dissertação de doutorado, na qual o livro é baseado, inclui entrevistas com indivíduos com experiência em primeira mão do sistema de saúde mental – especialistas por experiência – que Hunter cita ao longo de seu novo livro.

Recentemente, eu revi Trauma e Loucura em Serviços de Saúde Mental para CounterPunch, e eu estava curioso para ouvir mais de Hunter sobre seu novo livro.

Bruce Levine: Você escreve: “Não apenas minhas experiências no sistema de saúde mental foram retraumatizadas, mas elas também alteraram criticamente a minha visão de mim mesma e do mundo. Além disso, a dinâmica entre eu e vários dos profissionais de saúde mental que encontrei espelhou estranhamente aqueles que foram meus agressores.” Noël, me fale mais sobre isso, e quão comum você acha que é para o tratamento psiquiátrico estar sendo ‘retraumatizado’?

Noël Hunter: Eu acho que quanto mais alguém se machucou na vida, particularmente se foi durante o desenvolvimento, o mais provável é que se machuque de novo e de novo e de novo ao longo da vida. O sistema de saúde mental é um reflexo disso. Acredito que, no geral, o sistema é parte de uma grande reencenação das primeiras dinâmicas – sejam experiências de marginalização, discriminação, rejeição, abandono, julgamento e condenação, etc. – e há uma enorme falta de consciência por parte da maioria dos profissionais de como eles são cúmplices em reproduzi-los.

Um homem negro passa sua vida sendo marginalizado e agredido, demitido ou descartado do sistema por causa de seu medo e dor – se ele/ela entrar no sistema, ele não é mais “menos que” por causa de sua negritude, agora ele/ela é marginalizado e descartado como sendo ‘esquizofrênico’. Uma mulher jovem que sofreu abuso sexual e foi informada de que ‘queria’, foi culpada e nunca teve a oportunidade de ficar zangada com o sistema – ela agora está ‘limítrofe’ e mais uma vez culpada por ser muito sexualizada, por fazer a equipe se comportar de modos vergonhosos, e condenada por sua ira, mesmo quando está sendo retirada de si mesma.

Talvez mais do que qualquer outro, a encenação mais comum é aquela associada com o indivíduo que cresceu com um pai narcisista em constante necessidade de adulação, intolerante ao desconforto ou a autorreflexão, e que era um mestre na arte da manipulação sobre si mesmo.

Bruce Levine: Há tantas coisas que a psiquiatria do establishment tem errado que aqueles de nós que escrevem artigos e livros criticando esta instituição podem sobrecarregar um leitor. Para você, o que é o mais importante para os leitores em Trauma e loucura em serviços de saúde mental?

Noël Hunter: Que os problemas não provêm de poucos indivíduos ou mesmo de uma profissão. Em vez disso, a totalidade do campo da saúde mental e o paradigma sob o qual ela opera é uma religião moderna repleta de todos os problemas e benefícios familiares que existem em qualquer religião. Mais importante, porém, é a esperança de que as pessoas estejam dispostas a ir além do que a sociedade nos diz que ‘devemos’ fazer. As pessoas têm se recuperado de grandes dores há 200 mil anos – enquanto que as profissões de saúde mental existem há menos de 200. Embora hajam algumas coisas que aprendemos, precisamos parar de tentar reinventar a roda. As pessoas precisam de amor, apoio, comunidade, para serem ouvidas, valorizadas, validadas, terem propósito, ter saúde e moradia, ter nutrição física e emocional – não é ciência de foguetes e não se torna em ciência apenas porque continuamos dizendo que é.

Bruce Levine: Da minha experiência, nada deixa os psiquiatras do establishment mais irritados do que ser confrontados com essa verdade: seu desequilíbrio bioquímico e suas teorias de falhas genéticas o que fazem é rotular as pessoas como ‘defeituosas’, e isso resulta em que as pessoas que já estão sofrendo sejam estigmatizadas e marginalizada devido a este status de defeito. Isso é extremamente importante e você discute isso em seu livro.

Noël Hunter: Essa pode ser uma das coisas mais comuns com as quais me deparo em meu trabalho clínico, ao lado de pessoas que estão constantemente tentando provar que são fantasmas de seu passado sem sucesso. Se os pacientes aceitam de bom grado o papel de defeituosos, então como o médico está fazendo algo prejudicial ou errado? Pessoas que cresceram como bode expiatório, que acreditam que estão sujas, defeituosas ou más, que têm vergonha de sua existência ou acreditam que deveriam ser alguém que não são, que levaram suas vidas inteiras sendo marginalizadas e discriminadas na sociedade – estas são as pessoas que mais frequentemente entram em serviços de saúde mental. Elas também são as mais facilmente vulneráveis a aceitar essas mensagens sob o disfarce de tratamento e cuidado. Não é até que as pessoas estejam dispostas a começar a considerar que, de fato, elas não são defeituosas, ao contrário, que elas são seres humanos imperfeitos e únicos, adaptando-se a uma dor incrível, e que elas podem começar a acreditar em si mesmas o suficiente para se curar.

Naturalmente, há simplesmente a questão existencial dos profissionais de saúde mental que pode ser insuportável para eles enfrentar: se não estou corrigindo um problema definido e identificável, para o que, então, sirvo eu? Se o real poder de cura que tenho é algo que qualquer ser humano pode em princípio fornecer, desde que esteja disposto, por que gastei todos esses anos na escola e, possivelmente, dezenas de milhares de dólares? Se essas não são doenças específicas relacionadas a falhas bioquímicas ou genéticas específicas, por que me especializei – e quem não gosta de se sentir especial? E, pior, se eu não estou me dirigindo a pessoas com doenças genéticas e problemas bioquímicos, o que, de fato, estou fazendo quando tudo o que tenho para oferecer são drogas e intervenções tecnológicas?

Este problema não é exclusivo dos profissionais de saúde mental. Os médicos são pegos em um dilema semelhante quando se trata de obesidade, doenças cardíacas, diabetes, inflamação crônica e muitas doenças autoimunes, até mesmo câncer. O que esses médicos fazem quando percebem que esses problemas são quase inteiramente devidos a uma dieta industrializada amplamente baseada em interesses corporativos – a indústria açucareira, os fabricantes de soja, a Monsanto – e que se as pessoas simplesmente comessem como os humanos são projetados para comer, problemas na maior parte não existiriam? E, claro, essas questões estão totalmente interligadas com problemas de saúde mental!

É muito perigoso para a própria ansiedade existencial e a identidade qualquer questionamento sobre teorias genéticas e bioquímicas; a ideia de que essas teorias e seus tratamentos relacionados são realmente prejudiciais e discriminatórios está além do limite da aceitabilidade. Na defesa dos profissionais, os pacientes também passaram a acreditar que não estão recebendo tratamento ‘de verdade’ ou tratamento de qualidade se lhes for pedido que se exercitem, que comam saudavelmente, que caminhem mais, etc. – elas sentem que estão sendo pouco cuidadas se elas não saem com um plano ou prescrição concretas. O ônus ainda está com os profissionais que devem dizer a verdade.

Bruce Levine: O seu livro Trauma e Loucura em Serviços de Saúde Mental é sobre um assunto muito sério, mas você me fez rir em voz alta algumas vezes. Por exemplo, quando você discute a necessidade financeira dos profissionais de saúde mental de se destacar de seus numerosos colegas através de especializações pretensiosas, você escreve: “Eu moro em Nova York, onde a população de terapeutas é rivalizada apenas por atores, profissionais do sistema financeiro e pelos ratos”. A maioria dos profissionais de saúde mental têm medo de ser irreverentes sobre aspectos de sua profissão que ninguém deveria reverenciar. Você acha que a socialização deles prejudica sua espontaneidade e autenticidade?

Noël Hunter: Qual é o sentido da vida se não podemos rir! O riso é tão incrivelmente curativo e nos permite enfrentar os aspectos mais dolorosos da nossa existência sem sermos sufocados sob o peso de tudo isso. Isso nos permite digerir o que de outra forma é intolerável. Em essência, o riso é como um laxante altamente prazeroso. Uma boa risada é realmente uma boa… bem, você sabe bem.

Infelizmente, rir é desaprovado, e eu concordo que muitos profissionais de saúde mental parecem estar de alguma forma com medo de humor, pelo menos quando se trata de seu trabalho. Eu não acho que esse problema seja exclusivo dos profissionais de saúde mental. Eu acho que é um subproduto do próprio desenvolvimento doloroso em que eles podem ter sido ridicularizados ou não levados a sério quando crianças, e também, sim, da sua formação. Vivemos em uma sociedade que valoriza o estoicismo, o controle total sobre os próprios comportamentos, a falta de expressão emocional, a ‘polidez’ às custas da autenticidade – eu amo Nova York! – e um misterioso ideal de conformidade. Profissionais de saúde mental muitas vezes são selecionados por sua capacidade de representar esses valores. Aqueles encrenqueiros que dizem a verdade, são espontâneos (que também chamados de ‘impulsivos’), que riem ou encontram humor na escuridão (ou ‘afeto impróprio’), que se recusam a se conformar (ou o meu favorito, que têm um comportamento ‘desafiador’) são marginalizados e patologizados pela ameaça que eles representam para a propriedade. Eles geralmente não passam pelo processo de treinamento. Eu sei que quase nunca. É o caminho anglo-saxão. É também o que faz a maioria de nós completamente infelizes.

Bruce Levine: O que você acha que é mais importante transmitir aos profissionais de saúde mental que estão tratando de pessoas que podem estar se comportando de maneiras que parecem bizarras para eles ou que os assustam?

Noël Hunter: Tente entender o que você não entende. Saiba que quase sempre há uma razão pela qual uma pessoa está se comportando da maneira como está. É nosso trabalho dedicar um tempo para tentar entender o que é isso, não para escrever e julgar. Todos nós podemos imaginar um animal assustado e preso – ele esperneia, contorce-se, corre em círculos, pula, e se pudesse falar, provavelmente não estaria se esforçando muito para ajudar você a se sentir melhor, ele estaria tentando se proteger. Entendemos isso com animais e sabemos instintivamente que devemos ajudar a acalmar o animal e ajudá-lo a se sentir seguro. No entanto, com as pessoas, de repente, todo o senso comum e instinto sai pela janela e, em vez de compaixão e compreensão, julgamos, condenamos, evitamos, agredimos e desumanizamos. A reação padrão aos indivíduos que estão com medo e com muita dor é exatamente o oposto do que eles precisam.

Em suma: só porque alguém é diferente de você, isso não os torna errados, doentes, com personalidade desordenada, defeituosa, menos do que ou abaixo de você. Se você não pode ser curioso ou controlar seu próprio medo, busque aconselhamento.

Bruce Levine: Para concluir esse nosso bate-papo, você teve alguma reação à minha revisão do CounterPunchCounterPunché uma publicação política antiautoritária de esquerda com a maioria de seus leitores tendo antipatia por Donald Trump e Hillary Clinton, e parte do que eu queria fazer na minha análise de Trauma e Loucura em Serviços de Saúde Mental foi conquistar esses tipos de leitores para que se tornem tão críticos do complexo psiquiátrico-industrial quanto do complexo militar-industrial. Alguma coisa que eu disse na revisão que você discorda?

Noël Hunter: Eu amei a sua revisão e os paralelos que você desenha. É importante reconhecer o quadro maior – a psiquiatria existe dentro de um contexto maior. Vivemos em uma sociedade gerida por interesses corporativos e o nosso ‘conselho de experts” em quase todas as áreas é mais sobre proteger esses interesses do que a humanidade.

Também agradeço que você chame a atenção para a situação que muitos clínicos individuais têm o desejo sincero de ajudar seus pacientes, mas que o sistema industrial-corporativo estraga quase qualquer possibilidade de que eles possam realmente fazer isso. Eu não vejo o valor em atacar profissionais individuais assim como não gostaríamos que eles nos ataquem – encurralar uma pessoa com uma crítica ácida e agressões raramente, ou nunca, faz com que essa pessoa ouça ou se conecte.

As pessoas que entram nos serviços de saúde mental são frequentemente as mais vulneráveis da sociedade – pessoas que sofreram extensos traumas, adversidades, abuso e opressão durante toda a vida. Ao mesmo tempo, luto contra a palavra ‘trauma’ porque significa algum evento muito forte e evidente que precisa passar por uma linha arbitrária de ‘ruim o suficiente’ para ser levado em conta. Eu prefiro os termos ‘stress’ e ‘adversidade’. No livro, falo sobre o problema da linguagem e como isso insinua diferenças que não existem, julgamentos e suposições que são falsas. Nossos cérebros e corpos não sabem a diferença entre ‘trauma’ e ‘adversidade’ – um estado estressado luta pelo stress / estado de luta por trauma é o mesmo, independentemente das palavras que você usa para descrever o ambiente externo. Estou cansado de pessoas dizerem que “nada de ruim me aconteceu”, porque elas não sofreram “trauma”. As pessoas sofrem e, quando o fazem, é por um motivo.

Além disso, é importante reconhecer que ‘ex-pacientes recuperados’ são um grupo seleto de indivíduos muito privilegiados, como eu sou, e não são as únicas vozes de valor. Os participantes que citei ao longo do meu livro existem ao longo de um grande continuum de funcionalidade, angústia e status de recuperação autoidentificada – embora a maioria tenha, de fato, se identificado como ‘recuperado’. Quase todos ainda estavam em algum tipo de terapia ou tratamento de saúde mental, e, portanto, não seriam considerados ex-pacientes. Muitas pessoas não têm o luxo de escapar do sistema, seja devido à dependência de drogas, falta de outro apoio, medo, solidão ou a lei. Suas vozes são igualmente importantes.

E esse é realmente todo o propósito do meu livro. Para dar a essas vozes a chance de serem ouvidas. Espero que as pessoas escutem.

 

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