Trauma Fora da Caixinha: Como a Tendência “Informada pelo Trauma” fica aquém

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noelhunterCada vez mais está se tornando moda para as agências de saúde mental e profissionais se tornarem “informados sobre o trauma”. O alardeado é que isso é uma coisa boa. Mas o que está acontecendo na realidade está longe de ser o ideal.

Há uma necessidade premente de entender como coisas como abuso, pobreza, opressão, injustiça, racismo e outras adversidades afetam a nossa saúde mental e o bem-estar geral. O senso comum, é claro, nos diria que isso essencialmente ao longo de tempo leva uma pessoa a ficar louca. Mas hoje em dia o senso comum é percebido como juvenil ou que é menos do que a ‘ciência’.

Independentemente disso, é imperativo que qualquer pessoa ou sistema com a função de ajuda considere o contexto do sofrimento e o que aconteceu na vida de uma pessoa que a levou ao seu atual estado de espírito.

O problema é que isso é demorado, complexo, altamente subjetivo e individual – tudo contra o qual o sistema foi projetado.

O que parece acontecer na realidade quando uma organização ou um clínico individual torna-se “informado sobre o trauma” é que as fórmulas antigas simplesmente são misturadas com todos os ingredientes do trauma e check-boxes e sem nenhum significado real. Torna-se ainda uma outra maneira de progredir na própria carreira e de sentir-se bem consigo próprio, enquanto que na prática não faz nada diferente. É mais uma vez colocar os humanos em caixinhas.

Claro, isso não é universal – existem muitos programas genuínos dedicados a traumas e há profissionais trabalhando com traumas que ajudam a muitos. Este artigo não é sobre estes. Mas se você se sentir desconfortável ao ler isso ou se sentir na defensiva, talvez seja sobre você que eu esteja falando.

O que se segue é um vislumbre das inúmeras maneiras pelas quais os principais serviços e especialistas em traumas dentro deste mainstream estão perpetuando danos ao mesmo tempo em que se vangloriam por serem tão progressistas e conscientes.

Ignora o “trauma” invisível

Talvez uma das maneiras mais problemáticas que os estudos de ‘trauma’ impactaram a sociedade é a mensagem implícita de que se uma experiência não é considerada traumática pelo DSM, então não é “ruim o suficiente” para causar uma pessoa a sofrer intensamente e muito.

O DSM descreve especificamente o trauma como experimentar diretamente ou testemunhar algum evento com risco de vida, como por exemplo violência, guerra ou agressão sexual.

Testemunhar ou experimentar ameaças literais de morte é horrível. Mas o que é considerado risco de vida para uma criança de dois anos é muito diferente do que para uma criança de 22 anos. E o que ameaça nossa psique em um nível existencial nem sempre é tangível ou facilmente identificável.

O que sobrecarrega a capacidade do corpo de lidar ou o que deixa uma pessoa em um estado de estresse crônico pode não ser um evento evidente como é o caso de um assalto.

Tomemos o ostracismo, por exemplo. Ser ignorado, não ser querido ou ser deixado de fora, por mais sutil que seja, pode ser uma sentença de morte para alguns. Pode ser mais doloroso e mais prejudicial do que bullying ou abuso físico. No entanto, no mundo do DSM e dos profissionais de saúde mental, isso pouco importa. Não é ruim o suficiente.

Fumar cigarros é muito diferente do que ter uma arma sobre a minha cabeça. Mas ambos são susceptíveis de me matar em algum momento.

Nos anos 1960 e 70, terapeutas com orientação sistêmica em psicoterapia familiar pareceram entender muito bem os efeitos tóxicos e insidiosos de dinâmicas interpessoais camufladas, como gazlight , double-binds , e bodes expiatórios . Entendia-se que a disfunção psicológica tendia a existir dentro da família  ou no sistema social, e não dentro de qualquer indivíduo, mesmo que um indivíduo pudesse assumir os sintomas, por assim dizer, pelo todo.

Essa complexidade e visão holística foi perdida na idade do diagnóstico e da doença individual, mesmo dentro da terapia familiar. Como nenhuma dessas dinâmicas destrutivas contam como trauma e, certamente, são quase impossíveis de se medidas ou capturadas em um questionário, elas de alguma forma se tornam irrelevantes.

Os campos da saúde mental e do trauma chegaram a um lugar onde, essencialmente, se algo não pode ser facilmente identificável e mensurável, aparentemente isso não importa.

Questionários e tratamentos conforme manuais mercantilizam a experiência de vida

Só porque algo não pode ser resumido a uma pergunta simplista e medido em uma escala Likert de 5 pontos, não significa que não conte.

Ninguém pode realmente capturar experiências de opressão crônica, microagressões ou a luta da injustiça com uma escala de classificação arbitrária. Nem tudo pode ser quantificado. Isso não significa que não exista ou afete profundamente aqueles que experimentam tais adversidades.

O que acaba acontecendo é que se algo não pode ser convenientemente medido e estatisticamente manipulado, isso é visto como de alguma forma sendo inferior à ‘ciência real’ ou é totalmente ignorado.

A pesquisa qualitativa, que se baseia no subjetivo e tenta capturar narrativas com nuances, é previsivelmente criticada por aqueles que acreditam ser cientistas sérios. Em teoria, a pesquisa quantitativa deve ser objetiva, imparcial, demonstrando novas descobertas ao revés do senso-comum, confiável ou consistente entre estudos e pesquisadores, formalizada, generalizável e válida.

É isso que as ciências sociais valorizam – previsibilidade, falta de complexidade, falta de subjetividade ou emoção e em fórmulas robóticas.

No entanto, considere que o simples uso de diferentes procedimentos estatísticos pode determinar resultados muito diferentes usando os mesmos dados. Ou que milhões de dólares são gastos em pesquisas sobre o cérebro para que possamos entender descobertas totalmente inovadoras e fora do senso-comum , como a tristeza associada a áreas do cérebro ligadas a emoções (e nem mesmo o tempo todo!). Pensemos em como os pesquisadores tendem a encontrar apoio para a sua afiliação particular (farmacêutica, teórica, etc.) mais frequentemente do que não, ou que as descobertas negativas quase nunca são publicadas. Será que realmente precisamos de centenas de estudos para nos dizer que, quando coisas ruins acontecem, isso nos afeta e pode nos enlouquecer?

É divertido jogar com números e provar que estamos certos. Quem não gosta de estar certo? Também é super bom para a segurança da carreira. Mas isso não é ciência. E isso não ajuda.

Muito pelo contrário. Isso ameaça tomar a narrativa de vida pessoal e subjetiva de uma pessoa e inseri-la em uma caixa de fórmulas que, de alguma forma, leva a uma suposta explicação do motivo pelo qual as pessoas sofrem. Oh, você diz que nunca se sentiu sendo entendido dentro de sua família? Como se você fosse ruim ou não fosse bom o suficiente para a maior parte de sua vida? Você sentiu que não importa o quanto você tentasse, nada funcionou para ajudá-lo a progredir ou a encontrar validação e conexão com os outros? Bem, nenhuma dessas coisas está no meu questionário de trauma validado nem está incluída na escala do ACE. Então, nada aconteceu com você. Desculpe. Você só tem um desequilíbrio químico e precisa de tratamento especializado para sua doença mental genética.

Ditos modos compreensíveis versus não compreensíveis de reagir ao estresse

Mesmo que uma pessoa tenha a sorte de ter suas experiências de vida reconhecidas e validadas, ainda há o problema do que é aceitável em resposta a tais experiências. Se uma pessoa pode articular seu medo como diretamente relacionado ao evento identificável que um profissional de saúde mental considera ruim o suficiente para justificar uma resposta angustiada, então pode ser considerado compreensível. Se o medo se torna difuso ou simbolizado, ou não se liga diretamente a algum evento evidente, então a pessoa é paranoica ou delirante.

Se alguém sente dor e grita de modo a perturbar os outros, é quase certo que a pessoa será diagnosticada com um distúrbio não relacionado a trauma que insinua um defeito interno. Se a pessoa grita muito alto ou faz com que os outros sintam sua dor, diz-se que sua personalidade está desordenada. O que isso significa?

Isso é absurdo. Não é ciência.

Os diagnósticos são quase inteiramente baseados em como um determinado clínico individual entende a pessoa à sua frente. Uma das diferenças que definem, por exemplo, entre um distúrbio dissociativo e uma psicose, é a história que se coloca às experiências internas.

Se alguém sente que algumas forças do ‘não-eu’ estão controlando a mente ou o corpo e atribui isso a ‘alters’ ou a outras pessoas que vivem no corpo, bem, isso é compreensível e dito ser dissociação. Se o clínico acredita que os distúrbios dissociativos não existem, a pessoa é informada de que está inventando ou apenas buscando atenção.

Alternativamente, se, ao contrário, essa experiência possessiva é atribuída a alienígenas irradiando ondas de luz radioativas para o cérebro (o que pode-se argumentar ser o mais plausível), agora a pessoa tem uma doença genética do cérebro chamada esquizofrenia que requer drogas tóxicas para a vida.

Basicamente, se uma pessoa está em extrema angústia e procura ajuda de um profissional de saúde mental, as probabilidades de obter compreensão e cuidados informados sobre trauma são amplamente aprimoradas se você puder articular sua experiência e dor de uma forma que o profissional entenda, não seja perturbado por algo, e possa caber em uma caixa de seleção ou em uma escala validada.

As teorias do trauma tornaram-se, em grande parte, apenas mais um modelo de doença

Há muitas coisas que são úteis para entender os correlatos do que está acontecendo no cérebro com comportamentos ou sentimentos às vezes confusos. Quando uma pessoa está em estado de congelamento, por exemplo, o cérebro literalmente fica offline. Além de funções básicas para sustentar a vida, o cérebro está jogando morto. Tentar falar com uma pessoa ou forçar uma pessoa assim a falar quando em tal estado isso não passas de um esforço fútil, é como fazer a chuva voltar à sua nuvem. Técnicas não-verbais são prudentes neste caso – ficar com raiva e mais patologizar e culpar o paciente por ser difícil, é claro, são muito mais comuns.

Com certeza, há mudanças cerebrais distintas que parecem estar associadas ao abuso infantil, estresse crônico e a outras formas de adversidade. O hipocampo tende a encolher, o funcionamento executivo é alterado, as maneiras pelas quais as emoções são processadas são diferentes e os ventrículos tendem a ser ampliados. MAS, isso NÃO é igual a disfunção ou a doença!

O cérebro é um órgão incrível que se adapta ao seu ambiente. Um estudo que realmente analisou as diferenças cognitivas do ponto de vista da adaptação mostrou como um grupo que sofreu trauma teve dificuldade com a inibição (isto é, eles eram ‘impulsivos’). No entanto, por outro lado, eles também eram melhores em trocar tarefas rapidamente e trabalhar em situações de incerteza e estresse. Estas são pessoas que podem se tornar excelentes policiais, paramédicos, médicos de ER ou soldados. Ao mesmo tempo, elas podem ser excelentes bibliotecários.

Tudo o que ouvimos, no entanto, é como o trauma danifica o cérebro e prejudica a vítima.

E, claro, que uma vítima é uma vítima. Vivenciar o trauma e viver com a dor e o sofrimento não exime uma pessoa de responsabilidade por seus comportamentos. Todo perpetrador já foi uma vítima. Demasiadas vezes, porém, a responsabilidade é confundida com a culpa, na medida em que, se uma pessoa é considerada responsável pelos seus comportamentos, essa pessoa é de alguma forma culpada ou é má.

Vítimas são boas. Perpetradores são ruins. Pessoas que sofreram traumas são uma ou outra. Tudo é simples.

Pior, raramente há discussão de como o cérebro realmente se cura e pode se adaptar a ambientes novos, mais seguros e mais calmos ao longo do tempo e com um sistema de suporte saudável. Pode ser mais difícil superar as primeiras experiências que a pessoa mais velha tem e mais camadas de dor e adversidade são adicionadas ao longo dos anos, mas a possibilidade de cura está sempre presente.

Cura, no entanto, só pode significar algo diferente para a pessoa que sofre do que para o profissional que precisa consertar alguém ou se sentir bem por ser um ajudante e se livrar de sintomas e doenças como um médico de verdade faz.

Muitas coisas demonstraram alterar a função e a estrutura do cérebro : ioga, meditação, relacionamento, terapia, exercícios aeróbicos, nutrição e muito mais. E, para a maioria deles, nenhum profissional de saúde mental é necessário.

O trauma pode ser extremamente prejudicial, tóxico e difícil de superar. Mas não é uma doença nem uma sentença de vida.

Missionários Modernos: Intervindo onde você não é necessário ou desejado

Os profissionais de saúde mental adoram dizer ao mundo como devem ou não se comportar, o que são e o que não são comportamentos, crenças e emoções aceitáveis e como medicamentos e terapia são necessários em quase todas as situações. Mas o que eles amam ainda mais é mostrar como são úteis e necessários.

No início do século 20, os missionários cristãos voltaram seus esforços para a África subsaariana. Sem dúvida que eles foram benevolentes em seus esforços – acreditando totalmente no poder dos evangelhos e na bondade das palavras de Jesus, certamente eles queriam se doar aos outros compartilhando seus conhecimentos e crenças em terras distantes. O resultado desses esforços, no entanto, levou à erradicação de costumes africanos seculares e à eventual implementação do apartheid.

Da mesma forma, agora é amplamente reconhecido que, quando profissionais de saúde mental entram em outras culturas, especialmente após um desastre natural ou outro evento social trágico, eles pioram as coisas. A ideia de que alguém precisa ‘processar’ o evento traumático por meio de orientações específicas de terapia informadas sobre o trauma com um profissional tende a levar um sofrimento a ser mais prolongado e a piores desfechos em longo prazo do que aqueles que não contaram com esse tipo de ajuda.

O livro Crazy Like Us: A Globalização da Psique Americana , de Ethan Watters, descreve como a exportação da indústria de saúde mental americana levou à perda de costumes locais e de formas alternativas de entender e lidar com o sofrimento humano. E algumas dessas culturas estavam melhores antes que nossos missionários psiquiátricos se intrometessem em sua sociedade.

No final, qualquer ideologia corre o risco de se tornar polêmica e autoritária; a psiquiatria já cruzou essa linha. Quando os interesses de negócios e de carreira distorcem aqueles com uma forte identidade de ser o ‘bom rapaz  ou ‘ajudante’, então qualquer sugestão de que eles não são necessários ou estão fazendo mal não é ouvida e descartada. Esses indivíduos têm dificuldade incrível em manter a raiva, reconhecer quando estão errados, dizer “sinto muito” ou, melhor: “não sei”.

No processo, o ajudante corre o risco de se tornar um destruidor.

É hora de começarmos a abraçar a diversidade, a diferença, a complexidade e a humildade. Profissionais de saúde mental fariam bem em considerar que somos uma pequena partícula entre a história de curandeiros, crentes, contadores de histórias, filósofos, charlatões, vendedores de óleo de cobra, amantes, juízes e ideólogos. Nenhuma lista de verificação ou questionário mudará isso.

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