Mindfulness e Traumas Complexos: as recompensas e os riscos

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mcassaniEste artigo surgiu como uma resposta a um fenômeno geral que venho observando há alguns anos. Recentemente, depois que uma amiga compartilhou seu aborrecimento e raiva sobre a meditação estar sendo apontada como uma cura para toda a depressão, comecei a reconsiderar meus pensamentos a respeito. Em muitas ocasiões tenho criticado o marketing da meditação na cultura popular, mas agora quero abordar essa questão mais profundamente.

Mesmo confiando na mindfulness (“atenção plena”) como tendo sido a pedra angular do meu próprio processo de cura, descobri que a orientação mais popular sobre meditação e mindfulness apenas oferece uma abordagem superficial do que de fato é. Que pode curar ansiedade, depressão, ajudar alguém a ser mais focado, empático, compassivo – a lista continua. O fato de que a meditação possa realmente ajudar a sustentar muitas coisas positivas na vida das pessoas é o que predomina nas conversas. E embora possa de fato fazer tudo isso, há que se reconhecer que o processo para atingir a meta é igualmente uma força destrutiva, por implicar em desafios ao eu condicionado. O processo pode nos despedaçar, antes que nos faça sentir melhor. Esta não é uma solução de tamanho único e, em alguns casos, pode ser perigosa.

Foram necessários anos de prática dedicada à ‘atenção plena’, penetrando profundamente nas partes mais sombrias da psique humana, para que eu me recuperasse dos danos que a psiquiatria me impôs. Na maioria das vezes isso tem sido tudo, menos algo agradável, pacífico e livre de ansiedade. Tem sido bem o oposto de um processo agradável, pois sendo uma luta para chegar a um acordo com o que aconteceu comigo e com tantas outras vítimas da psiquiatria. Esse processo continua hoje enquanto eu me recupero e ganho clareza.

Nesse processo, aprendi a ouvir meu corpo e a seguir minha própria orientação. Este não é um processo exato, preciso, nem é sem risco. Eu acabei na UTI por uma semana há um ano, quase morrendo como resultado desse processo, na medida em que eu aprendia e algumas vezes cometia erros sobre o que fazer em cada estágio da cura. Erros e interpretações erradas do que está acontecendo enquanto curamos nossos corpos são simplesmente parte do processo.

A boa notícia é que aprendi a excluir as múltiplas vozes condicionadas de nosso horroroso sistema capitalista e a voltar a mim mesma. Para ser clara, isso continua – é sempre um processo contínuo. E, de fato, o que a publicidade da mídia e aqueles que vendem mindfulness não lhe dizem é que a ‘atenção plena’ é um processo que pode transformar radicalmente você e nem sempre é seguro, nem é fácil ou direto. Tornamo-nos pouco a pouco mais seguros, conscientes dos riscos e aprendendo a ouvir nossos próprios corpos sobre quando está ou não está tudo bem para nós. Nenhum outro sabe realmente mais do que a gente. Aprender com aqueles em quem confiamos é uma boa ideia, mas no final só nós sabemos o que é melhor para nós. Compartilhar experiências é muito melhor do que saber o que fazer. Proceder com cuidado e com auto-respeito é importante. Às vezes o processo envolve aprender a fazer essas duas coisas, daí o risco envolvido e o potencial de erros graves. A ‘atenção plena’ e a meditação nem sempre são apropriadas para todos o tempo todo. Isso também pode mudar e faz parte da estrada esburacada da vida.

A ‘atenção plena’ profunda, sincera e honesta pode alienar e isolar enquanto se está a caminho do bem-estar. Não é uma solução rápida e os relatos populares geralmente ignoram esse fato. Mas há algumas pessoas falando sobre isso. Eu tenho uma página no meu site chamada: ” Meditação: nem tudo são felicidades e rosas … ” Lá eu explico como a ‘atenção plena’ pode levar a um colapso completo. Isso é o que ocorreu comigo, realmente. Ou, mais precisamente, isso me levou a um colapso completo e me ajudou a melhorar. (Eu estava acamada e sem falar há alguns anos – isso, claro, foi causado por  lesão cerebral psicotrópica iatrogênica e porque, em vez de ser ensinada a me ouvir como uma jovem mulher em crise, fui drogada, quase até a morte, por um sistema que não sabe como nos ajudar na crise psico-espiritual.)

A ‘atenção plena’ tem sido profundamente curativa e realmente é a base de tudo o que aprendi, mas sim … flertar com as pessoas para meditar sem tal compreensão é irresponsável.

Quando começamos a observar e a prestar atenção, o que quer que tenhamos negligenciado surgirá. Em alguns casos, isso pode ser radicalmente desestabilizador. Para aqueles de nós com esses graves danos psicológicos, existe o fato de que pode ser insuportável estar em nossas peles. Saber quando encontrar distrações é tão importante quanto praticar a ‘atenção plena’. Eu comecei fazendo literalmente 30 segundos de cada vez por causa da condição de pesadelo do meu sistema nervoso. Esta jornada levou anos.

Muitos dos leitores deste site estão lidando com traumas complexos causados pela experiência adversa na infância, que é ainda mais complicada pelo trauma hediondo incorrido pela medicação da nossa dor e, por conseguinte, pela profunda negação da sociedade e dos complexos médicos-psicofarmacêuticos. A negação do que passamos faz parte do trauma que se torna ainda mais cravado em nossas almas.

Além disso, para mim, a meditação formal foi apenas um pouquinho da minha prática. A maior parte da minha prática é 24 horas por dia, 7 dias por semana, aprendendo a estar no presente, permitindo que o passado surja e saia (não é bonito, com frequência). ‘Atenção plena”‘ Prestando atenção a este momento, em cada aqui-e-agora. O tempo todo. Isso é tudo. É simples e para aqueles com traumas complexos, continua a ser arriscado e, por vezes, extremamente difícil e, portanto, nem sempre é uma boa ideia.

Então, aqui estou apresentando outra visão da meditação e da ‘atenção plena’ que contrasta nitidamente com a popular… Essa visão é muito mais complexa e não há revestimento de açúcar. Esse caminho pode matar. A sério. E quase acabou comigo, de maneira positiva e negativa. E sou profundamente grata por ter conseguido isso também… mas sua milhagem pode variar. Eu tenho uma ressalva que está sempre presente quando compartilho técnicas de cura, apoios e ideias: ISTO PODE OU NÃO PODE SER APROPRIADO PARA VOCÊ. Por favor, confie em suas inclinações e siga em frente.

Outra coisa importante: o bem-estar não tem muito a ver com ser feliz… mas a felicidade acontece, ocasionalmente, como qualquer outro estado de espírito e mente. Chama-se ser humano. Nem sempre estamos felizes e o marketing para meditação e ‘atenção plena’ que promete felicidade infinita é ilusório na melhor das hipóteses. Veja:  “Marketing de felicidade”.

A meditação me guiou para que eu aprendesse a me alimentar, a me movimentar, tudo … PARA MIM. Uma vez mais, eu não digo às pessoas como comer. Minha dieta teve que mudar inúmeras vezes. Quando prestamos atenção, aprendemos que a cura é um processo dinâmico e em constante mudança. Nossas necessidades mudam à medida que nos curamos, e ser conscientes nos permite reconhecer quando as coisas mudaram para que possamos responder de forma diferente ao momento. Assim, a ‘atenção plena’ é apenas a base da conscientização de nossas realidades caleidoscópicas, de modo que possamos responder de forma fluida e vibrante ao que está acontecendo agora, e  isso,  novamente, está sempre mudando. A maioria das pessoas não parece entender que prestar muita atenção em nossas vidas vai alterar tudo e leva tempo, sim. (Veja:  “Tudo importa.” )

Meditação / mindfulness é a prática de aprender a prestar atenção. Isso é tudo.

Quando se entende isso, então tudo o que está acontecendo é digno de ser. Outro mito sobre a meditação é que você deve ficar em silêncio e em paz enquanto se envolve com ela. A meditação real permanece com o que quer que surja. Ela abraça e permite tudo e isso inclui TODO o caos em nossos sistemas nervosos. Se temos lesões cerebrais psicotrópicas, é uma tarefa hercúlea ficar com essas coisas uma boa parte do tempo. Ao fazermos isso, podemos responder com mais e mais habilidade ao momento. O processo, novamente, pode envolver uma curva de aprendizado íngreme e longa.

Ter trauma complexo complica tudo.

A ‘atenção plena’ e a meditação estão certamente incluídas nisso tudo … a meditação é arriscada porque fomos forçados a enterrar e a negar tanta dor. Essa dor e, depois, a manipulação violenta dessa dor, modifica profundamente o sistema nervoso, tornando a meditação francamente arriscada e às vezes perigosa. Há um livro interessante disponível agora, escrito por David A. Treleaven:  Mindfulness Sensível ao Trauma: Práticas para Cura Segura e Transformadora .

Este livro de Treleaven é bom até certo ponto, pois aborda a questão da meditação ser arriscada, mas não aponta a natureza sistêmica opressiva  e muitas vezes retraumatizante da psiquiatria e as profissões de saúde mental,  que é francamente uma omissão gritante em um livro que de outra forma fala com alguma sofisticação sobre as ligações entre trauma, opressão e justiça social em nossa sociedade. Então leia com esse aviso que estou dando. Não podemos obter a ajuda de que precisamos quando os problemas sistêmicos que enfrentamos não estão sendo reconhecidos.

Muitas pessoas com histórias psíquicas foram negadas a inclusão quando se aproximam dos professores de mindfulness também … às vezes de maneiras que são muito traumáticas.  Isso também não é mencionado e é uma omissão que é um feio ponto cego por parte do autor e da maioria dos professores de meditação e profissionais de saúde mental em geral. Não devemos ser ignorados e dispensados. Precisamos entrar na conversa e juntos podemos encontrar maneiras de criar espaços seguros e inclusivos para alguns dos nossos membros mais vulneráveis da sociedade. Veja: “Liberdade para sentar: acolher pessoas com rótulos psiquiátricos em retiros budistas”, escrito por Will Hall.

Assim, os sistemas são muitas vezes perigosos porque parecem incapazes de reconhecer as próprias deficiências graves de sua profissão, nem parecem entender ou apreciar o tipo de força opressiva sistêmica que a psiquiatria e a crença no modelo médico são. Micro-agressões contra a população de pessoas rotuladas pela psiquiatria estão em toda parte na sociedade o tempo todo. Pessoas que são rotuladas pela psiquiatria continuam a ser infantilizadas e despojadas de dignidade, muitas vezes pelo resto de suas vidas adultas. Muitas pessoas estão perdidas para o sistema sem esperança de se desgarrar. Por essa razão, muitos no sistema nunca têm a chance de curar seu trauma adverso precoce, porque o trauma continua e piora muito em nome do tratamento psiquiátrico.

Para mim, a meditação  é  o processo de integração.

Outro mito é que longos retiros formais de se ficar sentados são necessários para se tornar consciente. Isso não é verdade e, em alguns casos, retiros longos podem até ser contraproducentes. Alguma sessão formal pode ser útil em alguns momentos para algumas pessoas. Claramente é também muito construtivo para algumas pessoas. Mais uma vez, todo mundo é diferente.

Eu faço o que faço e assisto. Eu sou o que sou e assisto.

Pema Chödrön articula o que a meditação é muito claramente:

A meditação é sobre ver claramente o corpo que temos, a mente que temos, a situação doméstica que temos, o trabalho que temos e as pessoas que estão em nossas vidas. É sobre ver como reagimos a todas essas coisas. É ver nossas emoções e pensamentos exatamente como estão agora, neste exato momento, nesta mesma sala, neste mesmo lugar. É sobre não tentar fazê-los ir embora, não tentar se tornar melhor do que nós somos, mas apenas vendo claramente com precisão e gentileza … [Nós] trabalhamos com cultivar gentileza, precisão inata, e a capacidade de deixar de lado a mesquinhez, aprendendo como se abrir para nossos pensamentos e emoções, para todas as pessoas que encontramos em nosso mundo, como abrir nossas mentes e corações. –  Pema Chödrön  de A sabedoria do não escape e o caminho da bondade amorosa

Prestar atenção e desenvolver clareza pode ser um feito muito difícil em uma cultura em que somos ensinados a negar tanto o nosso ser. Encontrar-se novamente, no entanto, é incrivelmente valioso. Lembre-se, nem sempre é sinônimo de se ficar sentado de pernas cruzadas. ‘Prestar atenção’ (“mindfulness”), pode ser trazido para todos os momentos de nossas vidas e, de fato, no final, é isso que realmente importa.

A meditação é a prática de aprender a prestar atenção. Isso é tudo.

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