Há mais do que está envolvido na ‘atenção plena’ do que o cérebro

De acordo com Lifshitz e Thompson, atenção plena (mindfulness) é melhor entendida como “orquestração complexa de habilidades cognitivas incorporadas em um contexto social particular”.

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Um capítulo no livro recentemente publicado, Casting Light on the Dark Side of Brain Imaging, fornece uma nova perspectiva sobre a neuroimagem e o cérebro em ‘atenção plena’ (mindful). Os autores do capítulo, os filósofos Michael Lifshitz e Evan Thompson, desafiam a atual visão neurocêntrica do fenômeno mindfulness (‘atenção plena’) no ocidente e convidam os leitores a ampliar sua compreensão do conceito budista.

“Ao contrário da visão das neurosciências, nós vemos a meditação como um grupo de práticas profundamente sociais e fundamentalmente incorporadas”, escrevem Lifshitz e Thompson. “Se reduzirmos as práticas de meditação a um conjunto de padrões cerebrais, perderemos a riqueza de como essas práticas funcionam e ignoraremos muito do que elas têm a nos ensinar sobre a experiência humana.”

Photo Credit: Bill Smith, Flickr

Pesquisas sobre mindfulness no Ocidente têm se multiplicado nos últimos 40 anos. O conceito tem sido invocado para tudo, desde ajudar alguém a se tornar um líder melhor, a reduzir o esgotamento no local de trabalho, ao tratamento de transtornos psiquiátricos. Com uma infinidade de aplicativos de ‘atenção plena’, o burburinho no mundo da tecnologia e um crescente corpo de pesquisas, a prática enraizada na filosofia budista tornou-se um fenômeno ocidental generalizado.

Não é surpresa que os cientistas tenham começado a explorar os efeitos que a atenção plena exerce sobre o cérebro. Escaneamentos dos cérebros de monges budistas (‘‘os atletas olímpicos de meditação”, como escrevem Lifshitz e Thompson) demonstram cérebros mais fortes e mais robustos. Um estudo sugere que mesmo depois de apenas oito semanas de prática formal de meditação feita por um novato, mudanças perceptíveis no cérebro podem ser detectadas.

Embora pesquisas desse tipo permaneçam em seus primórdios, é compreensível que o ocidente, conhecido pela ideologia da alta produtividade e por seu modo de pensar, ficasse empolgado com esses resultados. “Se há uma coisa que nossa cultura contemporânea valoriza muito é a autodeterminação individual, com resultados tangíveis. Colocamos nossa fé no que podemos medir”, escrevem Lifshitz e Thompson.

Embora a perspectiva de ‘provar’ que a atenção plena funciona demonstrando que as alterações detectadas em exames cerebrais sejam atraentes, reduzir a prática a uma ‘assinatura cerebral específica’ pode ser uma visão equivocada da atenção plena.

“Qualquer atividade repetitiva que você fizer provavelmente deixará traços duradouros em seu cérebro. Aprender a tocar um instrumento, adquirir uma segunda língua, jogar videogame ou até mesmo olhar para linhas em uma tela – já foi demonstrado que todas essas atividades moldam o cérebro.”

Em seu capítulo, Lifshitz e Thompson empregam o exemplo da parentalidade para esclarecer como uma visão reducionista da atenção plena perde inteiramente o seu conceito propriamente dito. Praticar habilidades parentais de fato muda o cérebro; no entanto, “boa paternidade não está dentro do cérebro; é uma maneira em que a pessoa inteira (incluindo o cérebro) está envolvida no mundo. Além disso, o que conta como boa paternidade difere dependendo da cultura. Então, apelar para o cérebro simplesmente não nos diz o que significa ser um bom pai.”

“Mesmo se assumirmos que as mudanças cerebrais relatadas nos estudos de neuroimagem da meditação são robustas, permanece um problema conceitual mais profundo com a ideia de que podemos mapear (sem falar em reduzir) comportamentos complexos ou processos mentais enquanto mudanças em determinadas regiões ou redes cerebrais.”

Em vez disso, Lifshitz e Thompson argumentam que os conceitos de atenção plena (mindfulness) são uma “orquestração complexa de habilidades cognitivas incorporadas em um contexto social particular”. E há muito mais envolvido na prática do que as mudanças cerebrais. Embora os escaneamentos cerebrais certamente contribuam para uma compreensão global da atenção plena, a prática em si não pode ser capturada por esses escaneamentos.

“O corpo também desempenha um papel crucial na meditação com a atenção plena. Muitas tradições da prática meditativa consideram a postura do corpo como um espelho da mente. Quando a atenção se dispersa, a postura diminui. Quando o pensamento se torna agitado ou agressivo, os músculos ficam tensos e rígidos. Mente e corpo estão unidos.

Os autores concluem:

“Ultrapassar uma visão neurocêntrica da atenção plena promete não apenas melhorar a ciência da meditação, mas também neutralizar a ideia perniciosa de que cuidar de nossa mente seja apenas uma questão de regular nossos próprios estados internos. Parte do que a prática meditativa revela é que nossas mentes estão intrinsecamente ligadas aos nossos corpos e aos contextos sociais e ecológicos mais amplos nos quais estamos inseridos. Esperamos por uma ciência que nos torne mais, e não menos, conscientes de como nossos cérebros se encaixam nesse quadro maior”.

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Lifshitz, M., & Thompson, E. (2019). What’s wrong with “the mindful brain”? Moving past a neurocentric view of meditation. In Casting Light on the Dark Side of Brain Imaging (pp. 123-128). Academic Press. (Link)

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