Entrevista com o Dr. Peter Groot

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Dias 29, 30 e 31 de Outubro próximo, teremos o 3 Seminário Internacional A Epidemia das Drogas Psiquiátricas – Alternativas ao Diagnóstico Psiquiátrico e ao Tratamento Psicofarmacológico.

O Seminário será transmitido on-line e com transmissão simultânea. youtube.com/VIDEOSAÚDEDEFIO

 

 

Tive o prazer de entrevistar o Dr. Peter Groot. O Dr. Peter desenvolveu junto com o Dr. Jim Van_Os, os dois são pesquisadores da Universidade de Maastrich (Holanda), uma tecnologia revolucionária que garante que médicos e pacientes planejem e executem um programa individualizado de redução da medicação psiquiátrica de forma segura e eficaz. São as chamadas “tiras de afunilamento” (tapering strips).

A ENTREVISTA

Fernando: Olá Peter. Antes de tudo, devo dizer que foi muito bom haver conhecido você em Gotemburgo durante o Encontro do Instituto Internacional para a Retirada de Drogas Psiquiátricas (IIPDW). A apresentação que você fez para nós das tiras de afunilamento teve um forte impacto em todos nós, você sabe. E certamente o mesmo acontecerá com o público brasileiro.

Muito obrigado por responder a esse pequeno número de perguntas que apresentarei. Esta breve entrevista será importante para preparar o público brasileiro para o que você nos trará.

Você poderia nos dizer por que é tão importante oferecer às pessoas meios para reduzir ou interromper o uso de drogas psiquiátricas?

Peter Groot: Parar abruptamente com medicamentos psiquiátricos pode causar sintomas de abstinência. Esses sintomas podem ser leves, mas também podem ser graves. Tão graves que os pacientes não conseguem parar e (precisam) continuar usando seus medicamentos. Mesmo se eles não quiserem fazer isso. Mesmo que isso seja desnecessário ou até prejudicial. Os sintomas de abstinência podem deixar as pessoas ansiosas, agitadas e até suicidas e, portanto, podem ter consequências muito graves. Para impedir que isso aconteça, os médicos devem poder deixar seus pacientes pararem com segurança. No entanto, até agora, isso era muito difícil ou praticamente impossível.

Para fazer algo sobre isso, desenvolvemos as chamadas tiras de afunilamento. As tiras de afunilamento tornam praticamente possível para os médicos prescreverem programas de redução individualizados, e adaptáveis na medida que for o necessário. É muito importante que o paciente e o médico trabalhem juntos, que as decisões de tratamento sejam feitas com base na tomada de decisão compartilhada e que sejam feitas consultas sobre o auto (monitoramento) durante e após o tratamento da redução gradual. Se o médico e o paciente fazem isso bem, sair com êxito de medicamentos psiquiátricos se torna muito mais fácil. Nosso objetivo é tornar isso praticamente possível. Já há muitos pacientes (e ainda estão) sofrendo desnecessariamente com a retirada e, como consequência disso, estão usando medicamentos psiquiátricos desnecessariamente e por muito tempo.

Fernando: Você desenvolveu a estratégia das “tiras de afunilamento” para o processo de retirada de medicamentos psiquiátricos. Você poderia explicar em poucas palavras qual é a racionalidade das tiras de afunilamento? Como elas operam?

Peter Groot: A lógica das tiras de afunilamento é muito simples: redução da dose em etapas muito pequenas. Tornamos praticamente possível o que muitos pacientes tentam fazer em casa, porque não conseguem diminuir com segurança a dosagem do medicamento que o médico possa haver prescrito.

Inicialmente, queríamos desenvolver apenas uma tira de afunilamento para os antidepressivos Paroxetina e Venlafaxina, os dois antidepressivos mais difíceis de serem eliminados com segurança. Logo descobrimos que isso não era o suficiente. Ao longo dos anos, foi solicitado o desenvolvimento de tiras de afunilamento para outros medicamentos: não apenas para outros antidepressivos, mas também para benzodiazepínicos, antipsicóticos, antiepiléticos, analgésicos opioides como Oxicodona, e a lista ainda está crescendo. A retirada é um problema muito maior do que muitas pessoas pensam. Depois que desenvolvemos as primeiras tiras de afunilamento, também aprendemos muito rapidamente que o sistema que desenvolvemos tinha que ser flexível, porque os pacientes diferem um do outro. As soluções de tamanho único não funcionam muito bem na medicina, a tomada de decisões compartilhadas funciona muito melhor. O sistema que desenvolvemos para a medicação afunilada torna isso praticamente possível.

Fernando: Você sabe, no Brasil e no resto do mundo, nosso sistema de assistência à saúde mental depende fortemente do modelo biomédico. O senso comum é que os sintomas que aparecem quando alguém reduz ou para de tomar drogas psiquiátricas são os sintomas da suposta doença mental. Você tem formação em química. Então, o que você diz sobre os sintomas de abstinência? Os sintomas de abstinência não são bem aceitos pela comunidade científica e pelos médicos. O que poderia nos dizer sobre isso? Sabemos que é uma questão complexa, mas em poucas palavras, você poderia nos dizer algo do que nos mostrará com mais detalhes durante nosso Seminário no Rio de Janeiro?

Peter Groot: A confusão sobre a distinção entre sintomas de abstinência e sintomas de recaída é um grande problema clínico. Importante para resolver isso é ser capaz de impedir a ocorrência de sintomas de abstinência e a redução gradual da medicação torna isso praticamente possível.

Penso que nas últimas décadas a consciência da presença e importância dos problemas de abstinência foi mínima e que os problemas de abstinência foram amplamente subestimados. Não foi dada atenção suficiente às experiências dos pacientes e os ensaios clínicos não são adequados para detectar problemas de abstinência suficientemente bem.

Mas acho que isso está realmente mudando agora. Há um grupo crescente de pessoas em todo o mundo, e você é uma delas, que está trabalhando duro para conseguir mudanças importantes. E acho que vemos isso acontecendo agora.

Fernando: Por fim, conte-nos sobre as suas perspectivas com este seminário no Rio.

Peter Groot: Meu plano é contar com mais detalhes sobre a medicação afunilada. E para falar sobre o que gostaríamos de fazer no futuro próximo. Uma coisa importante é usar os dados fornecidos a nós pelos pacientes que usam medicação afunilada, não apenas durante a redução, mas também por um período mais longo. Isso é importante porque sabemos que os pacientes que abandonam a medicação com sucesso podem ter problemas mais tarde. Problemas que podem indicar recaída, mas também podem ser efeitos tardios do uso prolongado de medicamentos. Há uma crescente conscientização sobre a ocorrência de tais efeitos tardios, ou como se queira chamá-los. Sabemos muito pouco sobre isso, porque isso nunca foi investigado adequadamente. Eu acho que para começar a investigar isso estamos dando um bom passo.

Finalmente, espero ver o que está acontecendo na Fundação Oswaldo Fiocruz e no Brasil, aprender uns com oss outro e trabalhar juntos. Também estou ansioso para conhecer Lucy Johnstone pessoalmente. Fernando, nos encontramos pela primeira vez na Reunião de Rede da IIPWD em Goteborg, na Suécia, que achei muito emocionante, encorajadora e energetizante. Espero muito que esse também seja o caso no Rio. Estou ansioso por isso!

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As “tiras de afunilamento” ganham expressão em diversas partes do mundo.  Como você pode verificar com um click aqui, conhecendo por exemplo o movimento no Reino Unido para que o seu Sistema de Saúde reconheça oficialmente as “tiras”.