Pesquisadores propõem que se fale de “abstinência”, não “síndrome de descontinuação”

Os pesquisadores sugerem que a indústria farmacêutica tem interesse em usar o termo "descontinuação" para ocultar a gravidade da dependência física e das reações de abstinência que muitas pessoas experimentam com antidepressivos.

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O termo “síndrome de descontinuação” é deliberadamente enganoso, de acordo com pesquisadores que escrevem no The British Journal of Psychiatry. Elia Abi-Jaoude e Ivana Massabki sugerem que o termo é apenas um eufemismo para o termo mais preciso “abstinência” (também conhecido no Brasil como “desmame” ou “retirada”).  Eles escrevem que o termo “síndrome de descontinuação” foi cunhado com o apoio da indústria farmacêutica para subestimar e desconsiderar o testemunho de pessoas que experimentam efeitos adversos após a interrupção dos antidepressivos ISRS (inibidores seletivos de recaptação de serotonina).

“O termo síndrome de descontinuação, que parece ter sido estabelecido e divulgado com o apoio das indústrias farmacêuticas para minimizar as preocupações dos pacientes com relação ao uso de medicamentos ISRS, é enganoso e deve ser abandonado em favor do termo mais apropriado que é síndrome do desmame dos ISRS”, eles escrevem.

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Uma atualização recente das diretrizes vigentes no Reino Unido reconheceu o potencial de sintomas graves e duradouros gerados pela retirada dos antidepressivos. Isso ocorreu depois de um artigo do BMJ publicado no ano passado, onde é feita uma forte crítica às diretrizes oficiais que minimizam os sintomas de abstinência. Nesse artigo, os pesquisadores escreveram que os pacientes estavam sendo diagnosticados erroneamente como tendo uma recaída de depressão quando, em vez disso, estavam sofrendo de sintomas de abstinência dos ISRS.

Um outro estudo constatou que mais da metade das pessoas que tomam antidepressivos apresentaram sintomas de abstinência – e cerca de 25% classificaram esses sintomas como “graves”. Ainda outro estudo descobriu que, em média, a retirada do ISRS durava 90,5 semanas, enquanto a retirada do ISRN (outra classe de antidepressivos) durava 50,8 semanas.

Em seu artigo, Massabki e Abi-Jaoude examinam a história do termo “síndrome de descontinuação” em artigos acadêmicos revisados por pares. Antes de 1997, o termo foi usado apenas uma vez. No entanto, em 1997, uma edição complementar do Journal of Clinical Psychiatry usou o termo – desencadeando uma reação em cadeia que resultou em 12 usos do termo apenas naquele ano. Essa edição foi patrocinada pela empresa farmacêutica Eli Lilly (fabricante do Prozac, Cymbalta e Zyprexa). Foi apresentada uma definição de “síndrome de descontinuação” que não era diferente da “abstinência”, podendo assim ser aplicada aos efeitos nocivos da interrupção de qualquer medicamento.

O próximo grande pico no uso do termo ocorreu em 2006 com a publicação de um segundo suplemento no mesmo periódico – este patrocinado pela empresa farmacêutica Wyeth (fabricante do Effexor, conhecido por Velanfaxina). Nessa edição, os autores sugeriram que os pesquisadores parassem de usar o termo “abstinência” e, em vez disso, usassem o termo “descontinuação”. Eles argumentaram que o termo “desmame” era assustador para pacientes preocupados em se tornar fisicamente dependentes de antidepressivos. Os autores também argumentaram que a “síndrome da descontinuação” era diferente da síndrome de abstinência – mas, novamente, sua definição não distinguia entre as duas. O suplemento de 2006 incluiu a seguinte lista de sintomas de abstinência de antidepressivos que eles usaram para definir a síndrome de descontinuação:

“Neurossensorial (por exemplo, vertigem, parestesias, reações semelhantes a choque, mialgia, outra neuralgia); neuromotor (por exemplo, tremor, mioclonia, ataxia, alterações visuais); gastrointestinal (por exemplo, náusea, vômito, diarreia, anorexia); neuropsiquiátrico (por exemplo, ansiedade, humor deprimido, intensificação de ideação suicida, irritabilidade, impulsividade); vasomotor (por exemplo, diaforese, rubor); e outros neurológicos (por exemplo, insônia, sonhos vívidos, astenia / fadiga, calafrios). ”

De acordo com Massabki e Abi-Jaoude, “os sintomas descritos são típicos dos pacientes que sofrem de abstinência e indicam as várias maneiras pelas quais os pacientes podem se tornar dependentes de seus ISRSs”. De fato, outra revisão recente descobriu que 37 dos 42 sintomas de abstinência ocorreram tanto para benzodiazepínicos quanto para ISRSs. Então, por que a mesma experiência é chamada de “abstinência” quando para benzodiazepínicos, mas “síndrome de descontinuação” quando para ISRSs?

Massabki e Abi-Jaoude escrevem que a resposta está na maneira sutil como é que a “síndrome de descontinuação” sataniza a dificuldade que as pessoas têm quando tentam parar o uso de ISRS. Eles escrevem que o termo “descontinuação” é enganoso, porque mesmo uma redução gradual pode resultar em sintomas de abstinência – a descontinuação total não é requerida. E o termo “síndrome”, que significa “doença”, é uma maneira de esconder o fato de que os danos são devidos ao efeito da própria droga.

Os pesquisadores concluem que o uso da terminologia de “desmame” promove um consentimento melhor informado. Quando os pacientes conhecem os riscos e benefícios do medicamento a eles oferecidos, eles têm mais autonomia sobre suas escolhas. Além disso, se eles reconhecerem os perigos da retirada, os profissionais médicos poderão ajudar mais as pessoas que desejam diminuir sua dose ou parar de usar os ISRSs.

“O reconhecimento transparente de que o uso de ISRS pode resultar em dependência e sintomas de desmame ou na síndrome de abstinência do ISRS permite que os pacientes sejam verdadeiramente informados sobre suas decisões e ajuda a informar estratégias para diminuir gradualmente esses medicamentos amplamente prescrito.”

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Massabki, I., & Abi-Jaoude, E. (2020). Selective serotonin reuptake inhibitor “discontinuation syndrome” or withdrawal. The British Journal of Psychiatry, 1–4. DOI:10.1192/bjp.2019.269 (Link)