A cultura medicalizante e os processos transgeracionais

Na contemporaneidade faz-se evidente a proliferação e banalização dos diagnósticos psiquiátricos, bem como a apropriação pela cultura de uma leitura do sofrimento psíquico a partir de termos médicos. Com a crescente transformação do sofrimento psíquico em adoecimento psiquiátrico, frequentemente recebemos na clínica pacientes autodiagnosticados ou portando diagnósticos dos mais diversos, queixando-se de sintomas que, em geral, fazem parte do vocabulário médico e são atrelados às formas excessivamente fisiológicas de nomear o sofrimento e o mal-estar do qual padecem.

O avanço das neurociências e a disseminação cultural do discurso medicalizante fizeram com que a linguagem para designar o mal-estar inerente à condição humana ficasse profundamente atravessada pelo materialismo biológico, desconsiderando aspectos essenciais da existência do sujeito, inclusive, social, relacional, econômico, familiar, escolar, laboral, histórico, cultural etc.

Na contramão do discurso biologizante, as reflexões psicanalíticas sobre a noção de transmissão transgeracional representam uma via de análise que desembaraça e amplia o debate acerca do sofrimento psíquico, tecendo novas perspectivas de interpretação. Os processos transgeracionais referem-se à transmissão de conteúdos inconscientes, de uma herança genealógica, na qual podemos encontrar lacunas, ruídos e vazios, denominados como denegação ou conteúdos não revelados que não apresentam possibilidade de simbolização. Esta herança fica enquistada na psique do seu portador e pode ter sido escondida ou calada pelos ancestrais em forma de segredo, bloqueando os processos de elaboração e transformação (Correa, 2000). Assim, os não-ditos familiares são uma vertente privilegiada do processo de transmissão transgeracional, muitas vezes associada a uma produção sintomática cuja repetição – de geração em geração – clama por sentido e significação. Neste ponto, identificamos uma trama complexa que estrutura a dinâmica psíquica do sintoma. Ou seja, a manifestação sintomática é plurideterminada, compondo a trama psíquica da vida do sujeito.

Como exemplo, no âmbito da infância, a escola e a terceirização dos cuidados infantis se apresentam como um ponto de suma importância, pois se por um lado, a escola muitas vezes se configura como dispositivo propagador da cultura medicalizante, onde são disseminados discursos patologizantes atrelados a uma gama de diagnósticos, por outro lado, a escola é um operador fundamental para as famílias contemporâneas, haja vista assumir parte significativa do tempo e dos cuidados infantis. Porém, a difusão do discurso médico naturaliza o sofrimento infantil e se apresenta na escola de forma marcante. É comum que educadores utilizem diagnósticos
diante da observação de certos comportamentos inadequados ou “problemas de aprendizagem” e as encaminhem para avaliação psiquiátrica, neurológica ou psicológica (Guarido, 2007). Com efeito, o comportamento escolar das crianças tem sido cada vez mais atribuído a especialistas que, por sua vez, o realizam partindo de uma suposição patológica.

Não obstante a preocupação legítima dos educadores com o bem-estar infantil, o processo de socialização, o estabelecimento das primeiras relações familiares e escolares podem ser a fonte precípua de sofrimento para as crianças (Jerusalinsky, 2018).

Para Lima (2005), a psiquiatria e suas categorias diagnósticas têm sido um
meio de transmissão da cultura ao cotidiano dos sujeitos. Ao privilegiar as concepções biológicas dos transtornos mentais, a psiquiatria reforçou o processo de medicalização de condutas e estados emocionais. Um número progressivamente maior de categorias psiquiátricas tem sido criado a cada nova classificação diagnóstica, cujas descrições têm avançado sobre áreas que nem sempre foram tidas como passíveis de abordagens fisicalistas. Além do desempenho escolar já mencionado acima, tem sido incluído nos manuais psiquiátricos sofrimentos derivados dos processos de divórcio, luto, desempenho laboral, entre outros (Whitaker, 2016).

Se o discurso médico, por um lado, atribui materialidade biológica à origem do sintoma, sobre o qual incidem suas intervenções, por outro lado, a
psicanálise é uma importante chave de leitura que atribui a ele um sentido intimamente articulado à existência particular da qual o sujeito é portador. Os laços familiares se configuram como mediadores entre o sujeito e a cultura, fornecendo os significantes primordiais com os quais cada um vai tecer a sua história e construir uma sintaxe particular, a sua trama gramatical mais singular.

Por isso, os diagnósticos devem ser concebidos como processos extremamente complexos, que não podem ser reduzidos ao viés biologizante. Os dispositivos medicalizantes delimitam o indivíduo, normatizam-no, minando suas possibilidades de se posicionar pessoal, histórica e politicamente. Estes dispositivos respondem à necessidade de silenciar o sofrimento a qualquer custo, como se não devesse fazer parte da existência humana, e também a uma incessante demanda social que busca a justa palavra para aplacar o mal-estar de forma rápida e eficaz.

Finalmente, mais do que nunca hoje se impõe a ampliação do discurso, a articulação entre os saberes, o trabalho interdisciplinar para desentrincheirar o conhecimento, sem prescindir jamais da participação familiar para a construção de uma ética do cuidado que transcenda a medicalização de adultos e crianças.

Referências

Correa, Olga Ruiz. (2000). O legado familiar: A tecelagem grupal da transmissão psíquica. Rio de Janeiro: Contra Capa.

Guarido, R. (2007). A medicalização do sofrimento psíquico: considerações sobre o
discurso psiquiátrico e seus efeitos na educação. Educação e pesquisa -USP, São
Paulo: USP, 33 (1), 151-161.

Jerusalinsky, Julieta. A melancolização na infância contemporânea: entre o linchamento virtual e a política do “no touch”. Cadernos de Psicanálise – SPCRJ, 34 (1), 26-33.

Lima, R. C. (2005). Somos todos desatentos?: O TDA/H e a construção das bioidentidades. Rio de Janeiro: Relume Dumara.

Whitaker, R. (2016). Transformando crianças em pacientes psiquiátricos: fazendo mais
mal do que bem. In S. Caponi, M. Vásquez-Valencia & M. Verdi (Orgs.), Vigiar e medicar: estratégias de medicalização da infância (pp.29-45). São Paulo: LiberArs.