Contribuições de Bakhtin para a Rede Psicossocial

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Pensar o cuidado na rede pública de atenção psicossocial a partir das contribuições do filósofo Mikhail Bakhtin é a proposta do recente artigo de Ana Paula Pimentel e Paulo Amarante, publicado na revista Bakhtiniana.

A loucura para os autores é vista como uma realidade socialmente construída por intermédio do discurso, ou seja,  através do compartilhamento de uma percepção específica sobre a loucura. O paradigma manicomial é como esse discurso se produz nas práticas concretas.

“Tradicionalmente, o paradigma manicomial se caracteriza por uma organização hospitalocêntrica, na qual a internação é indispensável, ocorre de forma compulsória e o saber psiquiátrico é exclusivo na condução do tratamento.”

Com a Reforma Psiquiátrica surgiram novas propostas para a assistência em saúde mental dando origem ao modelos de atenção psicossocial baseado na promoção de saúde e na percepção social do sofrimento.

No campo da saúde mental, portanto, há um choque entre o paradigma manicomial (modelo assistencial tencionado pela psiquiatria tradicional) e o paradigma psicossocial (novo modelo de cuidado que surge a partir do processo de Reforma Psiquiátrica).

No paradigma manicomial o principal objetivo é o diagnóstico. O profissional apresenta uma escuta seletiva, pesquisando sintomas para a catalogação de algum transtorno. Analisar esses elementos é importante para entender a persistência de um impasse na atenção à saúde mental hoje: a priorização da terapêutica medicamentosa.

“Embora seja notório o fato dos psicofármacos não curarem, eles atraem pelo seu efeito silenciador, normalizador de condutas e comportamentos que geram incômodo social. A ação dessas drogas relativa à inibição de emoções, pensamentos, sensações e motricidade leva o sujeito a ter dificuldades para falar, para compartilhar em diálogo as suas histórias e significações de vida.”

Já no modelo psicossocial, busca-se atender as necessidades do sujeito através de uma rede intersetorial, procurando agregar recursos do território por meio de alianças no âmbito educacional, laboral, familiar, dentre outros possíveis. No entanto, na contramão dos novos padrões técnico-assistenciais, prevalece o problema da medicalização. Paradoxalmente, o sujeito que sofre a dor psíquica não encontra um espaço de diálogo no local que existe para acolhê-lo e trabalhar a partir de sua fala. Psicofármacos, ou outras maneiras de “fazer calar”, são administrados em situações nas quais seria possível e desejável lançar mão de terapêuticas dialógicas.

Muitos estudos vem demonstrando que os principais dilemas e conflitos no campo da atenção psicossocial se dão na dimensão relacional. A principal adversidade parece ser os modos de perceber dos profissionais sincronizados com a lógica manicomial. Os autores veem os processos dialógicos como ferramentas que podem contribuir com a transformação de percepções e práticas no campo da saúde mental.

A filosofia dialógica bakhtiniana nos fornece elementos para discutir mais sensivelmente os impasses do campo, pois aborda amplamente as vicissitudes da relação inter-humana e a importância do desenvolvimento de posicionamentos responsivos/compreensivos. Nessa direção, se considerarmos que a postura ética é sempre relativa ao outro, e se levarmos em conta que o homem é um ser-para-o-diálogo, a noção de compreensão responsiva será elevada a posicionamento ético indispensável em todas as relações, inclusive nas relações de cuidado. Somente em relações dialógicas há empenho para compreensão e produção conjunta de novos significados

A pesquisa foi realizada em um Centro de Atenção Psicossocial do tipo II (CAPS-II11) da Região Metropolitana I do Estado do Rio de Janeiro. O município em que o CAPS se insere foi avaliado com o pior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) entre os 12 municípios que integram a região – e entre os piores IDH do país. Esta pesquisa foi desenhada como um estudo de caso e a estratégia de investigação consistiu em realizar entrevistas semiestruturadas e observação participante no cotidiano da instituição. Foram entrevistados 14 profissionais: nove de nível superior e cinco de nível médio e técnico.

Por meio das entrevistas e da observação participante, foram examinados como os profissionais do CAPS se posicionam sobre os sujeitos em tratamento, sua condição de saúde e o cuidado dispensado a eles no serviço.

Com o estudo, os autores perceberam graves impasses para a efetivação do projeto psicossocial no CAPS e em seu território. As dificuldades encontradas são o funcionamento ambulatorial do dispositivo, a medicalização e a ausência do trabalho em rede. Ao mesmo tempo, os entrevistados reconhecem a equipe do CAPS como diferencial e que a atuação do serviço não depende da infraestrutura, mas do “material humano”.

Foram identificados valores indispensáveis para o acontecimento de um encontro inter-humano, em sua qualidade dialógica. Mas, ainda que a lógica psicossocial apareça de forma clara e sensível nas percepções, ela não prospera. É evidente a existência de uma tensão interparadigmática na dinâmica local.

Os autores perceberam que o exercício de produção de sentido, proporcionado pelo dispositivo de pesquisa, possibilitou um espaço no qual as questões puderam ser verbalizadas, levando à simbolização e reflexões imprescindíveis para a construção de um saber-fazer com o mal-estar da práxis diária, gerando impactos positivos. Nesse sentido,  as metodologias dialógicas, inspiradas nos aportes bakhtinianos, são fecundas para ensejar soluções para os diversos problemas presentes no campo da saúde mental.

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PIMENTEL, Ana Paula; AMARANTE, Paulo Duarte de Carvalho. Paradigms, Perceptions and Practices in Mental Health: A Case Study Based on Bakhtin. Bakhtiniana, Rev. Estud. Discurso,  São Paulo ,  v. 15, n. 3, p. 8-33,  Sept.  2020