MEDICALIZAÇÃO AO VIVO E A CORES: SAÚDE MENTAL NOS REALITY SHOWS BBB E A FAZENDA

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Espaços vigiados, pessoas confinadas, um prêmio e muita polêmica são os principais ingredientes de um reality show. O primeiro programa do gênero a ser transmitido no Brasil foi o No limite, que foi ao ar na Rede Globo de Televisão em julho de 2000. O formato ganhou as graças do público e vinte anos depois são inúmeros os programas ou quadros nesse formato que foram ao ar no país, alguns originais e muitos como versões de programas estrangeiros. Em 2020, o ano em que o confinamento chegou para todos, os reality shows ganharam ainda mais audiência

Em sua 20ª edição, o Big Brother Brasil 20 teve início em 21 de janeiro e ficou no ar 27 de abril de 2020, tendo começado antes da quarentena e terminado na primeira fase do isolamento mais rígido. O BBB20 chamou a atenção do público com um elenco de famosos e anônimos, e conforme a pandemia chegou ao brasil e cresceu o isolamento social, virou um sucesso. Para muitos torcer pelos ‘Brothers e Sisters’ se tornou uma válvula de escape para a impossibilidade de interação social física gerada pela pandemia.

O BBB20 bateu recordes de audiência. Como é de praxe, foram muitas as polêmicas, mas uma delas chamou a atenção do público e dos profissionais de saúde mental: o descontrole emocional da cantora Gabriela Martins.  Ela se envolveu em um romance conturbado com o modelo Guilherme Napolitano. A dependência emocional do parceiro e o choro excessivo viraram tema de debate depois que ela mesma revelou aos colegas de programa que estava tomando medicação psiquiátrica e teve que parar o tratamento para entrar na casa do BBB.

O debate sobre saúde mental de participantes de reality shows televisivos voltou à tona em setembro, após as constantes explosões da modelo Raíssa Barbosa no confinamento da 12ª edição do reality show A Fazenda, programa produzido e transmitido pela Rede Record de Televisão desde 2009. Logo na primeira semana a situação emocional de Raíssa chamou atenção por causa uma crise de choro muito intensa na qual ela teve que ser tranquilizada por outras participantes. Após esse episódio a situação se agravou com vários rompantes de agressividade, no mais sério deles ela chutou, deu murros e quebrou objetos.

Após o episódio agressivo do dia 16 de outubro, o debate atingiu o ápice nas redes sociais e na mídia, chegando aos assuntos mais comentados do twitter.  Milhares de pessoas passaram a questionar a presença dela no programa e exigir da emissora uma resposta à situação. Com a polêmica a todo vapor, seu empresário, Cacau Oliver, afirmou Raíssa possui o diagnóstico de Borderline e isso foi informado para a produção do programa antes de sua entrada, mas que não sabe se ela interrompeu a medicação.

Até o momento, em ambos os casos de 2020, nada foi dito pelas emissoras acerca da entrada de participantes em sofrimento mental e da continuidade ou não do tratamento psiquiátrico. No caso de Gabi a Globo se pronunciou dizendo que ela tinha acesso a suporte médico e psicológico dentro do programa.

O caso de Gabi abriu as portas para um debate que posteriormente cresceu com a participação de Raíssa no A Fazenda, porém esse assunto não é novo. A modelo Fani Pacheco, que participou das 7ª e 12ª edições do BBB, afirmou em entrevistas que em sua segunda participação no programa, em 2012, ela sofria de depressão e foi impedida pela produção de entrar na casa com os medicamentos que tomava, tendo que interromper o tratamento medicamentoso.  Em 2016, em entrevista a Luciana Gimenez no programa Superpop, Fani afirmou que em caso de doenças crônicas a participação sem a medicação é desumana.

Constantemente é apontado pelo público e pela mídia que é difícil diferenciar o que é sofrimento e o que é atuação por parte dos participantes de reality shows, já que a construção de personagens se tornou mais comum conforme esse formato de programa ganhou audiência. Contudo, é importante pontuar uma questão: não importa o formato do programa, na mídia de forma geral um certo nível o descontrole emocional vende e é até esperado.

O Tipo Certo de Loucura

No capítulo “o tipo certo de loucura” do livro “O teste do psicopata”, o jornalista Jon Ronson entrevista a Inglesa Charlotte Scott, uma ex produtora de televisão que era responsável por agendar convidados para um programa “em que pessoas de uma mesma família envolvidas em dramas e tragédias gritam umas com as outras diante de uma plateia em um estúdio”, como o próprio autor define, algo não muito diferente de alguns programas de auditório que temos no Brasil. O trabalho de Charlotte era semelhante ao de inúmeros profissionais de comunicação e do entretenimento pelo mundo, porém um detalhe a diferencia: ela admite que utilizava medicamentos psiquiátricos como critério para seleção dos convidados. Em um determinado ponto ela explica o seu método:

“Eu perguntava a eles que remédios tomavam. Eles me davam uma lista. Então eu acessava um site de medicina para ver para que [os remédios] serviam. E avaliava se eles eram loucos demais para participar do programa ou apenas loucos o bastante.”

Ela ainda complementa que “loucos o bastante” eram pessoas com esquizofrenia ou que mostrassem algum risco de surto psicótico no palco e “loucos o suficiente” eram pessoas que tomavam Prozac, o que garantiria um show televisivo, sem grandes riscos de suicídio. O capítulo é completamente chocante e ao ler essa entrevista é fácil pensar que Charlotte foi longe demais e que é uma exceção; porém, trazendo para a realidade da mídia de massa brasileira podemos perceber que não estamos tão distantes assim, inclusive falando dos mesmos programas.

A produtora cita uma série de programas ingleses para os quais ela e seus colegas sabiam que tipo de sofrimento mental seria o ideal, entre eles o Big Brother e o Troca de esposas, dois programas que possuem uma versão brasileira. Ela aponta que o segundo programa é “particularmente perverso” por envolver relações familiares. Produzido no Brasil pela Rede Record de Televisão, o Troca de esposas está no ar desde 2019 e se assemelha com outro sucesso da emissora, o Troca de famílias, que ficou no ar de 2006 a 2011, voltado ao ar entre 2015 e 2016. Ambos promovem a troca de lares entre as mães de duas famílias. Em meio à adaptação das mulheres são debatidas questões familiares dos participantes.

Foi na segunda fase do Troca de Famílias, em 2015, que ocorreu um episódio que ilustra essa fala de Charlotte: a gravação de uma edição do programa foi interrompida após uma das mães ter um surto psicótico e ser internada. Ainda sim o episódio foi ao ar. No site da Record uma matéria da época a caracteriza como “uma mulher bagunceira, que adora beber, fumar e curtir a vida de todas as formas”.

Nos casos aqui citados temos ainda outro ponto em comum: todas são mulheres. Cabe questionar o quanto a questão de gênero e os estereótipos femininos influenciam no que se espera da participação das mulheres nesses programas e na forma como as respostas emocionais ao confinamento são patologizadas ou colocadas na conta da histeria feminina.

Além da questão de gênero, o debate sobre a saúde mental de participantes de reality shows é interessante para pensar uma outra faceta da medicalização em saúde mental: o interesse das pessoas na performance midiática do adoecimento mental e como isso pode ser convertido em dinheiro. No caso do BBB e do A Fazenda a falta de acompanhamento psicológico, a interrupção da medicação e o confinamento longo, que é uma situação atípica mesmo para uma pessoa que não é acometida de sofrimento mental, são uma bomba relógio. Mas não é exatamente isso que se espera das pessoas nos reality shows? No BBB foi inclusive cunhada a expressão “planta” para designar aqueles que se mantém alheios às polêmicas da casa e criada (e repetida) a prova do quarto branco, que em 2009 foi investigada pelo Ministério Público por suspeita de tortura psicológica com os participantes. A verdade é que, por mais absurdo que seja, precisamos assumir que, de forma intencional ou não, na mídia o sofrimento mental na medida “certa” é moeda corrente.

RONSON, Jon. O teste do psicopata. tradução Bruno Casotti. – 1. ed. – Rio de Janeiro : Best Seller, 2013.