A herança psíquica e a produção de sintomas

Os aspectos genealógicos referentes à herança psíquica são imprescindíveis para pensarmos a produção de sintomas. Na teoria freudiana, a compreensão acerca da genealogia do sujeito se apoia na construção de um aparelho psíquico constituído na e pela linguagem, a partir das relações estabelecidas entre os sujeitos.  Para a psicanálise, o sujeito é constituído por uma rede de relações que o antecedem e o ultrapassam, permitindo uma abordagem teórica das origens, do arcaico, da história e da pré-história individual e coletiva cujos caminhos se entrelaçam.

Uma vez que a universalidade do simbolismo da linguagem é reconhecida como exemplo da “herança arcaica” que abrange disposições singulares e traços de memória de gerações anteriores, o estudo das figuras do hereditário e do arcaico permite uma melhor compreensão do pensamento freudiano acerca das origens do sujeito.

Mesmo antes de nascer a criança já existe no discurso e na fantasia dos pais. Sua entrada na ordem da cultura e da linguagem depende do lugar que lhe é designado a partir das expectativas e desejos parentais. O referido lugar humaniza a criança e garante sua sobrevivência. Por sua substancial dependência aos adultos, no exercício das funções parentais, é frequente que o sintoma da criança esteja atrelado a sua relação com seus pais. Sendo assim, o narcisismo e o investimento dos pais têm uma função determinante na construção da subjetividade da criança e na produção de seus sintomas.

Ser herdeiro é uma condição constitutiva e estruturante de todo sujeito. Cada pessoa tem como tarefa construir, organizar e transformar certas heranças não elaboradas, mantidas em estado bruto e que infiltramo presente. De acordo com Benghozi (2010), a herança psíquica é distribuída aos descendentes em delegações, missões inconscientes, alianças, que são denominadas lealdades genealógicas. Assim como existe uma ampla gama de mecanismos inconscientes que perpassam a herança, as características da herança psíquica são manifestamente diversas para cada irmão, posto que cada sujeito se situa em uma
identificação dialética entre o sujeito singular e o sujeito de pertencimento.

A fratria consiste no grupo herdeiro da transmissão psíquica por difração das lealdades  genealógicas, ou seja, seguindo a metáfora óptica, assim como os comprimentos de onda são diversos ao atravessar um prisma de cristal, o patrimônio psíquico é recebido como herança pelos irmãos através do processo de transmissão. Kaës (1998) explica que a transmissão psíquica opera tanto em um sentido estruturante de amparar e assegurar as continuidades narcísicas (transmissão intergeracional), como no sentido de transmitir aquilo que não se contém e não se retém, aquilo de que não se lembra: a falta, a vergonha, a doença, o sofrimento, o luto, o trauma, o sintoma, o recalcamento, os objetos perdidos por ancestrais e ainda enlutados (transmissão transgeracional). O mecanismo inconsciente de identificação é descrito como o “processo maior” da transmissão.

No texto “Moisés e o monoteísmo”, texto essencial para a compreensão da transmissão, Freud (1976/1939) discute sobre a origem e o destino do povo judeu a partir da abordagem da transmissão de um evento traumático ao longo das gerações. Os resíduos mnêmicos dos traumas primitivos são inconscientes e operam a partir do Id, o que vai gerar um complicador, pois, segundo Freud: “nos damos conta que a probabilidade de que aquilo que pode ser operante na vida psíquica de um indivíduo pode incluir não apenas o que ele próprio experimentou, mas coisas que estão inatamente presentes nele, quando de seu nascimento, elementos com uma origem filogenética – uma herança arcaica” (Freud, 1976/1939, p. 117). Portanto, podemos considerar que os traços de memória sobrevivem como herança psíquica arcaica devido à sua importância e à frequência do acontecimento.

O peso do acaso na história de vida e os acontecimentos traumáticos instauram crises identificatórias e exigem o refazer periódico da história particular do sujeito e exclusão de parte dela, para serem inventados outros capítulos, num trabalho nunca definitivamente estabelecido: uma verdadeira obra aberta. Essa obra aberta permite ao sujeito aceitar as modificações físicas e psíquicas pelas quais deve passar, sem deixar de preservar certa crença na continuidade e no sentido da vida.

Em estado bruto, os restos traumáticos podem ser repetidos transgeracionalmente ao longo de sucessivas gerações, por vezes, sob a forma de sintoma. Em função da dependência fundamental da criança ao adulto, ela está mais suscetível a receber os conteúdos geracionais não-elaborados por seus pais e a representa-los sob a forma de sintoma. As crianças estão expostas e enlaçadas aos conteúdos inconscientes dos seus pais. Assim, os filhos podem representar sintomaticamente o sofrimento individual ou familiar não simbolizado, a tensão existente entre os pais, seus humores manifestos ou não, ditos e não-ditos, entre outros.

A patologia do laço se instaura na tensão entre a falha na simbolização transmitida transgeracionalmente e a ligação intensa que não se pode romper nem transformar. Como exemplo, a exposição à judicialização da vida e a angústia desencadeada pelo desenlace parental reatualizam vivências familiares arcaicas, reconfiguram os laços e alianças, estabelecem novas relações que podem repercutir patologicamente nas crianças. Se, para os juristas, a resolução de conflitos se resume à harmonização e liquidação dos mesmos, para a psicanálise, os conflitos e tensões são inerentes à condição humana, devendo ser tratados por meio de um trabalho analítico que contemple as dimensões subjetivas arraigadas no conflito.

Presenciamos a crescente judicialização das relações familiares associada ao
adoecimento dos laços filiativos e afiliativos. Parece que o excesso de demandas judiciais em busca de resoluções para as questões familiares não tem como contrapontos dispositivos que possibilitem a composição e a elaboração destas questões. O que reforça o enlace entre a medicalização e a judicialização da vida.

Se por um lado, o sistema judiciário não consegue fazer frente a tudo que lhe chega, seja na quantidade de casos, seja na complexidade dos assuntos, por outro, as medidas judiciais não se mostram eficientes (e suficientes). A transposição das desavenças conjugais para o judiciário requer a participação efetiva da psicologia no trabalho com as famílias que chegam à Justiça como forma de auxiliar o restabelecimento da saúde psíquica individual e familiar. A participação da psicologia não se resume a confecção de laudos, relatórios e pareceres. O caráter avaliativo não se sobrepõe à necessidade de ações coletivas e individuais para o reestabelecimento da saúde mental dos indivíduos.

 

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Psicanalista, membro do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise no Rio de Janeiro; Doutora em Psicologia Clínica (PUC-Rio), sendo parte do doutorado realizado em período sanduíche, pela Capes, na Université Paris Descartes - Sorbonne Paris Cité (França); mestre em Psicologia Clínica (PUC-Rio), Especialista em Psicoterapia de Família e Casal (PUC-Rio). Autora do livro “Psicanálise com crianças na contemporaneidade: sintoma, família e medicalização” (prelo) e artigos na área. ORCID: http://orcid.org/0000-0001-5627-2636