Medicina Insana, Capítulo 8: Armadilhas de Tratamento e Como Sair Delas (Parte 1)

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CAPÍTULO 8, Parte 1

Nota do editor: Ao longo de vários meses, Mad in Brasil está publicando uma versão seriada do livro de Sami Timimi, Insane Medicine. Neste capítulo, ele discute a desconstrução do diagnóstico, a natureza do dano psicológico, e como a identificação de um problema pode tornar-se uma profecia auto-cumprida. Todas as segundas-feiras, uma nova secção do livro é publicada, e todos os capítulos são enalmente, uma nova parte do livro é publicada, e todos os capítulos são arquivados aqui arquivados.

Este capítulo baseia-se principalmente nas minhas décadas de experiência clínica. Esboço algumas ideias que me ajudaram a desenvolver uma filosofia particular que utilizo para orientar a minha prática. É uma filosofia que se desenvolveu ao longo do tempo e os aspectos técnicos não devem ser vistos como um modelo novo ou alternativo; simplesmente uma mistura de ideias recolhidas, que muitas vezes aproveito no calor e no espaço improvisado que compõem a confusão do encontro clínico.

Afasto-me conscientemente dos paradigmas McDonald (diagnóstico seguido de tratamento específico), pois temo o potencial de aprisionar pacientes e de criar desnecessariamente clientes para o restante de suas vidas.

Os princípios orientadores principais são:

  1. Desconstruindo o diagnóstico: Um assunto relativamente simples, como explicarei mais adiante neste capítulo.
  2. Compreender a relevância do dano psicológico: qualquer pessoa que trabalhe em serviços de saúde mental sabe que a maioria daqueles que utilizam os nossos serviços tiveram mais do que o seu quinhão de eventos difíceis e perturbadores em que experimentaram ter muito pouco poder para influir no que lhes acontecia. Prefiro o termo que o psicólogo Dr. Eric Kuelker usa de “dano psicológico” ao invés de “trauma”, em parte porque estou preocupado com a forma como o trauma se reifica (como é que se transforma uma ideia em um objeto concreto e assim se perde a compreensão de que é uma ideia por oposição a um fato o qual podemos ver, medir e manipular) e em parte porque o dano psicológico mantém aberto a dimensão experiencial onde, por distintas razões, cada um de nós tem coisas distintas que podemos achar perturbadoras ou emocionalmente avassaladoras.
  3. Trabalho sobre a relação terapêutica: O que se relaciona como uma forma de “estar com” uma pessoa ou família não será o mesmo que uma outra. Cada paciente e/ou família que eu vejo irá formar um “encaixe” relacional único comigo (e com quaisquer colegas de trabalho). Obter feedback sobre se o que acontece na sessão corresponde ao que funciona para eles e estar atento a possíveis “rupturas relacionais” são aspectos importantes da construção de alianças. Isto significa que todos os tratamentos são “coconstruído” e exigem que se encontrem formas de os doentes e as famílias se sentirem ouvidos e envolvidos no processo terapêutico. Significa estar preparado para mudar de rumo com base no feedback e, por vezes, significa também dar-lhes a opção de ver outra pessoa se, por qualquer razão, não conseguirmos ter a aptidão relacional para trabalhar.
  4. Uma consciência da cultura e do contexto: Vale sempre a pena lembrar que nós profissionais somos relativamente pouco importantes no grande quadro da vida das pessoas. As suas histórias da vida real, crenças sobre o que pode ser útil, disponibilidade de uma rede social de apoio, valores culturais, etc., são influências muito mais importantes. Além disso, os serviços para os quais trabalhamos e as formações profissionais que recebemos, estão eles próprios embutidos em estruturas institucionais com as suas próprias crenças e práticas culturais peculiares. Não podemos escapar a que a terapia/tratamento existe em contextos específicos, tal do mesmo modo que a vida dos pacientes. Estes contextos têm um papel importante, não só na forma como construímos a narrativa de qual é a natureza do problema, mas também na forma como a mudança acontece ou como as coisas podem ser vistas de forma diferente. Estes contextos de fundo são coisas a ter em mente, ajudando a imaginar o que no contexto dos pacientes pode ajudar ou dificultar e o que no nosso contexto de serviço pode ajudar ou dificultar. Quando os pacientes melhoram, são eles os próprios protagonistas do processo. Também significa que não devemos sobrecarregar os nossos pacientes com a nossa própria necessidade narcisista de que melhorem.
  5. Como um problema, uma vez estabelecido, se perpetua num processo a que eu chamo “o problema torna-se o problema”: Como médico, vejo frequentemente pacientes que têm problemas de longa data. Comecei a tomar consciência de que “o problema que se converte em problema” é a armadilha de tratamento que penso que os serviços de saúde mental são bons em criar. Mais adiante, neste capítulo, irei aprofundar esta questão.

As discussões baseadas em evidências que fiz até agora no livro têm uma influência importante na minha compreensão dos dilemas dos pacientes, bem como na minha compreensão do papel potencial para profissionais como eu. Talvez já tenham percebido que os meus entendimentos conduzem a um grande obstáculo.

Tanto os pacientes como os profissionais esperam que eu e o serviço em que trabalho funcionem no quadro do modelo médico que tem sido vendido ao público. Eles imaginam, compreensivelmente, que as dificuldades dos pacientes podem ser melhor compreendidas e “tratadas” através da obtenção de um diagnóstico correto (que fornecerá a explicação) e, em seguida, de um tratamento específico que aborde o diagnóstico. Hoje em dia, isso inclui muitas vezes a expectativa de que possa haver alguma medicação, dado que os medicamentos psiquiátricos têm sido hoje imbuídos culturalmente de poderes mágicos.

Este dogma popularizado tem tido consequências ainda piores para os jovens, pois individualizar o problema e vê-lo como residindo dentro da criança ou do adolescente separa-os, tanto para a compreensão como para a ajuda, da sua rede social, incluindo a sua família. Os jovens têm, evidentemente, uma autonomia limitada, uma vez que a maioria das decisões importantes nas suas vidas serão tomadas em seu nome por aqueles que cuidam deles.

Assim como eu, suspeito que a maioria dos profissionais de saúde mental se sentem frequentemente como uma fraude. Se não sentem, então deveriam sentir-se. Eles sabem que os nossos tratamentos são, em grande parte, estratégias de gestão superficial do tipo que nos levam à desorientação quando executados sobre nós pelo nosso b*llsh*t [‘m.’] de gestão empresarial. Apesar de todos estes inconvenientes, compromissos e conflitos, acredito que ainda é possível criar um espaço terapêutico onde possam ter lugar conversas não patológicas e potencialmente úteis.

Desconstruindo o diagnóstico

A desconstrução do modelo de diagnóstico em saúde mental é um processo relativamente claro. Vender um modelo de pensamento não-diagnóstico sobre os problemas experimentados é uma coisa mais difícil, particularmente quando se veem pessoas a quem já foi dado um diagnóstico e cultivado pelo sistema em que estiveram envolvidas no pensamento do modelo médico.

A fim de desconstruir o diagnóstico psiquiátrico, basta explicar um “truísmo” e repeti-lo sempre que for necessário, como por exemplo quando as pessoas deslizam de volta ao pensamento diagnóstico causal. Explicar o “truísmo” é algo como isto:

Gostaria apenas de lhe explicar algo para o ajudar a compreender os diagnósticos psiquiátricos. Eles são muito diferentes dos que encontramos no resto da medicina. Como sabe, não tenho nenhum teste de sangue específico, exame do cérebro, ou qualquer outra investigação que possa fazer que me permita compreender se se passa alguma coisa no corpo e cérebro do seu filho que possa ajudar a explicar porque é que por vezes o seu filho tem dificuldade em fazer amigos ou em se concentrar na aula.

Como vê, os diagnósticos psiquiátricos são basicamente descrições breves de quaisquer que sejam os problemas. Esta descrição abreviada descreve apenas certos comportamentos ou experiências que por vezes andam juntos.

O que os diagnósticos psiquiátricos não fornecem é uma explicação da razão pela qual esses comportamentos estão acontecendo. Porque um diagnóstico psiquiátrico não nos pode dizer nada sobre a causa, ele não é, a rigor, um diagnóstico real.

É por isso que é confuso, penso eu, chamar-lhe um diagnóstico, porque no resto da medicina pode-se fazer testes no corpo como testes de sangue ou exames para ajudar a compreender o que está acontecendo para causar sintomas.

Assim, no resto da medicina, o diagnóstico é uma forma de explicar o que é anormal e os tratamentos que se obtêm são geralmente específicos do diagnóstico. Se tiver tensão arterial elevada, recebe um tratamento para reduzir a tensão arterial. Se tiver uma infecção bacteriana do peito, recebe um tratamento que mata as bactérias e assim por diante.

Como não temos realmente diagnóstico em psiquiatria, os nossos chamados diagnósticos não lhe dizem nada sobre o que se passa no seu cérebro ou corpo. Como resultado, a nossa prática baseia-se apenas numa opinião. A opinião é tudo o que temos. Significa também que nenhum dos nossos tratamentos é na realidade específico de diagnóstico. Isto significa que o que pode estar a acontecer e ser útil para uma pessoa com um determinado diagnóstico pode não ser o caso da pessoa seguinte com o mesmo diagnóstico psiquiátrico.

O diagnóstico em psiquiatria ajuda-nos a descrever um problema, na minha opinião mal, uma vez que nunca duas pessoas com o mesmo diagnóstico são iguais, mas não nos ajuda a compreender o problema ou o que poderia ser útil. Isso é uma coisa muito mais individual.

A maioria das pessoas parece compreender e aceitar este tipo de explicação. Por vezes, precisa de ser mais elaborado e outras vezes tem de ser repetido de formas diferentes, particularmente para aqueles que estão habituados a pensar nos problemas de forma diagnóstica. Para aqueles que foram aculturados pelos serviços anteriores – com a ajuda de um diagnóstico de pensamento, é comum que tenham internalizado usando o diagnóstico como explicação – como em, “Ele não pode fazer amigos por causa do seu autismo”, em oposição a usar raciocínios mais comuns, como, “Ele não pode fazer amigos porque é tímido“.

Quando as pessoas se entregam a este tipo de explicações baseadas no diagnóstico, eu frequentemente (mas nem sempre) ofereço um lembrete suave de que o diagnóstico descreve (mal) um problema, mas não fornece uma explicação. Fico regularmente surpreendido e encorajado pela forma como muitas pessoas negociam o que deve ser uma experiência confusa e desorientadora de passar de ver um clínico que trabalha numa estrutura de diagnóstico para ver alguém, como eu, que semeia a ideia de que não têm a explicação que pensavam ter.

Parece funcionar bem com alguns, porque as pessoas frequentemente aceitam a mudança de narrativas clínicas construídas em torno da gestão de certos comportamentos e experiências, para uma narrativa mais centrada na singularidade de cada pessoa e da sua família, e onde se abre a possibilidade de “isto não ter de continuar a ser a longo prazo”..

Desbloquear a armadilha de longo prazo

Como já descrevi, há uma série de construções que influenciaram os quadros teóricos que orientam a minha prática. Vou agora desenvolver dois dos princípios específicos (em oposição aos gerais) que podem ajudar a começar a esboçar um caminho para fora de uma armadilha de tratamento a longo prazo.

Dano psicológico

Esta é a minha principal forma de lidar com a questão do “porquê”. Este é o mais próximo que podemos chegar de um diagnóstico. O que é mais importante do que se é “verdadeiro” (algo que não pode ser estabelecido), é se pode ajudar a construir uma narrativa que seja útil.

As investigações mostram que a associação mais clara entre a probabilidade de problemas psiquiátricos e as causas possíveis são acontecimentos e situações que aumentam a nossa excitação emocional. Diversas experiências de todos os tipos de eventos potencialmente traumáticos, todos os tipos de abuso, discriminação, intimidação, viver em bairros violentos, desemprego etc., estão todas associadas a uma maior probabilidade de experimentar sofrimento mental.

Aqui considero útil o conceito de ” dano psicológico“. Parece que a forma como os seres humanos são construídos segue o simples ditado de que “quando coisas más acontecem, sentimo-nos mal“. As pessoas não fazem necessariamente essas associações. É também frequente que seja depois de as experiências psicologicamente avassaladoras há muito terem passado que a angústia é mais perceptível.

Quando tentamos sobreviver, estamos em modo de sobrevivência, e o nosso estado mental pode não ter o suficiente espaço para pensar e refletir sobre a experiência. Contudo, no rescaldo, o que pode acontecer é que a nossa mente tenta proteger-nos e fá-lo, antecipando a possibilidade de que a dolorosa experiência, o dano psicológico, volte a acontecer e assim toma medidas para tentar evitar isto.

Por exemplo, se foi ferido em uma relação, então você pode querer estar novamente próximo de alguém, mas estar muito preocupado em ser ferido novamente. Assim, a sua mente poderá reagir, assim que começar a sentir-se próximo de alguém, recuando e mantendo uma distância de alguém. O seu instinto pode ir mais longe, talvez mesmo concentrando-se em aspectos daquela pessoa de quem se aproxima que não se gosta, ou mesmo fantasiando que ela tem esses aspectos e traições na sua mente, porque é mais fácil lidar com a separação de uma pessoa de quem não se gosta do que de uma pessoa que se ama.

Para a outra pessoa o seu comportamento pode agora parecer imprevisível, irracional mesmo. Repita isto algumas vezes nas relações e você poderá ter perdido a associação com o dano psicológico original (particularmente se ocorreu na infância) e parece agora confirmar que há algo de “errado” com você.

O dano psicológico tem efeitos mais duradouros quanto mais jovem se for, quando acontece com a pessoa. Há toda uma área de investigação chamada investigação das Experiências Adversas da Infância (EAIs). Verificou-se que estas EAIs estão associadas a um aumento da prevalência de todos os tipos de maus resultados de saúde na futura vida adulta. Além disso, quanto mais EAIs uma pessoa experimentar, maior a probabilidade de ter resultados de saúde adversos como adultos, incluindo a panóplia completa de apresentações psiquiátricas.

Uma das coisas que podem acontecer quando uma criança experimenta um dano psicológico está relacionada com o seu nível de desenvolvimento. As crianças são “egocêntricas” em termos de desenvolvimento, e quanto mais jovem for, mais isso se verifica. As crianças vivem num mundo baseado na ação, em que as coisas que acontecem à sua volta são uma extensão do seu mundo interno. As suas reações emocionais em tempo real aqui e agora têm um efeito mais poderoso do que qualquer capacidade de pensar sobre o seu contexto.

Elas ainda não desenvolveram a capacidade de dar um passo atrás e ver o panorama geral do que está a acontecer, tal como compreender que os problemas dos seus pais não são culpa sua. Isto significa que elas experimentam as coisas más que lhes acontecem e à sua volta como sendo, de alguma forma, causadas por elas. Isto cria então um plano inconsciente, muitas vezes a um nível para além da linguagem, que se manifesta na forma como sentem o mundo, onde experimentam que coisas más acontecem porque há algo de mau em si.

Como adolescente, jovem adulto e mais velho, este sentimento pode ter um ambiente quase supersticioso onde se imagina que se está destinado a atrair coisas más que acontecerão. Este tipo de cenário leva à auto-culpa e à auto-aversão, bem como ao desespero de acreditar que não é verdade que se é a causa, que ricocheteiam uns nos outros e levam a várias estratégias, desde a utilização de substâncias, à automutilação, à fuga, e mesmo à “negação maníaca” (sentimentos grandiosos de super-competência) na tentativa de acalmar estes horríveis sentimentos conflituosos.

Lembre-se que não estou aqui delineando uma verdade essencial, mas sim um quadro que é pelo menos compatível com a evidência e que permite uma posição filosófica que possibilita uma narrativa que pode “soar verdadeira” e fornecer e construir significados e interpretações que podem revelar-se úteis. Tal como com o princípio “o problema torna-se o problema”, o que delineei não é único e tem muito em comum com muitos modelos terapêuticos reais (por exemplo, o Power Threat Meaning Framework).

O problema torna-se o problema

A pergunta “porquê” (tal como “porque me sinto assim” ou “porque é que o meu filho se comporta assim“) é muitas vezes sentida como a pergunta mais importante a que nós profissionais devemos responder para sabermos como melhor ajudar. Fazer parte de um serviço de saúde significa que os nossos clientes e referências assumem frequentemente que é isto que fazemos primeiro.

Mas, num modelo medicalizado e tecnicizado, este é o primeiro passo, se não se tiver cuidado, para uma armadilha insidiosa. Preocupar-se com a questão do “porquê” pode criar o paciente a longo prazo. Um problema inicialmente inócuo pode multiplicar-se, engrossar e cristalizar. A nossa simpatia, empatia e desejo de ajudar pode acidentalmente sobrecarregar o doente com bagagem de que nunca precisou.

Como você ajudar as pessoas a olhar para além da questão do porquê e da procura de um diagnóstico? Além de utilizar a formulação discutida anteriormente para ajudar as pessoas a associar o dano psicológico a alguns aspectos do seu sofrimento; uma simples desconstrução é muitas vezes suficiente. Portanto, você pode explicar que,

Como já discutimos, a forma como somos construídos como seres humanos significa que quando coisas más acontecem e nos encontramos emocionalmente sobrecarregados, sentimo-nos mal. Esse sentimento mau acontece frequentemente após o término das experiências infelizes, à medida que a nossa mente tenta proteger-nos de que estas coisas nos voltem a acontecer.

No entanto, podemos perder muito tempo e energia tentando pôr o dedo no que nos fez sentir exatamente o que sentimos agora. Podemos então acabar por fazer algo que parece como descascar uma cebola sem fim. Cada camada que descascamos, revela outra camada e depois outra e depois outra. As nossas vidas são constituídas por tantas influências interativas desde os genes que herdamos, a gravidez, até à forma como os nossos pais eram na altura em que nascemos, o que mais estava acontecendo na nossa família, vizinhança, depois na escola, e amigos, e assim por diante.

Somos muito mais do que a soma das muitas partes das nossas vidas. Desfazer aquele quebra-cabeças para resolver aquilo para que cada pedaço contribuiu torna-se tão complicado como resolver o sentido último da vida. No entanto, não identificar a causa exata não significa que não haja nada que se possa fazer em relação à sua angústia. Quase sempre não sabemos a causa exata, apenas algumas coisas que podem ter contribuído.

Há uma coisa que lhe posso tranquilizar – não há certamente nada de errado com o seu cérebro.

Cheguei à conclusão de que ficar preocupado com a questão do “porquê” pode levar a uma armadilha que a nossa ideologia existente em matéria de saúde mental pode abrir e que nos engole quando entramos pela sua porta. Pode ajudar a revigorar os ciclos de reforço em que nos deixamos levar pelas nossas reações e tentativas de lidar com a intensidade emocional que nos dizem ser um sinal de que algo está errado. O modelo técnico do sistema de saúde mental tem o efeito de nos desligar dos nossos recursos, de nos afastar de uma apreciação da humanidade das nossas experiências, e de nos aprisionar numa filosofia que nos leva a ser pacientes a longo prazo.

Há uma série de influências que me ajudaram a compreender como este ciclo de reforço se desenvolve e como a prática clínica pode replicar e reforçar acidentalmente este ciclo. Estes conhecimentos também me ajudaram a desenvolver uma abordagem alternativa que pode ajudar algumas pessoas a saírem destes ciclos.

A primeira dessas influências vem dos primeiros pioneiros da terapia familiar. Eles começaram a olhar para padrões nas relações familiares e no sistema mais amplo à sua volta e perguntaram-se se os problemas que as famílias estavam experimentando não vinham de uma causa óbvia, mas de como os membros da família reagiam ao problema que estavam experimentando.

Talvez, pensavam eles, o problema não era o problema, mas sim a forma como a família tentava resolver o problema. Talvez as suas tentativas de solução tenham reforçado acidentalmente o problema. Esta mudança na atenção clínica, longe de se concentrar na questão do porquê ou no problema imediato, e tentar, em vez disso, ajudar uma família a mudar os padrões que desenvolveram em resposta ao problema, representou uma modificação radical nos objetivos terapêuticos.

Outra influência provém de abordagens narrativas da terapia. Modelos narrativos e focados em soluções compreendem que não descobrimos verdades essenciais sobre as nossas experiências, mas em vez disso criamos versões delas através da lente das várias histórias que usamos para dar sentido à nossa situação. Isto significa que “construímos socialmente” aquilo em que acreditamos.

De onde é que obtemos as nossas histórias construídas socialmente? Serão extraídas das múltiplas histórias a que estamos expostos nas nossas vidas. As nossas próprias histórias sobre nós próprios terão sido altamente influenciadas pelo que outros disseram sobre nós (por exemplo, os nossos pais), pelo que continuam a dizer sobre nós, e pela nossa interpretação subjetiva das mesmas. Também será influenciada pelas histórias sociais que ouvimos mais amplamente (por exemplo, dos meios de comunicação social).

Quando sentimos um problema, não é surpreendente que recorramos a estas fontes para tentar dar sentido ao que está a acontecer e para imaginar como poderemos sair desta angústia. Há geralmente múltiplas, mas certamente não infinitas, histórias disponíveis no nosso meio pessoal e cultural. Muitos de nós podem virar-se para um modelo medicalizado e interrogar-se se este é um sinal de que temos este ou aquele transtorno, talvez depois de consultar o Professor Google.

Modelos narrativos e modelos focados em soluções estão cientes de como estas histórias culturais ignoram questões de poder e incorporaram nelas várias construções culturais e suspeitas, reforçando assim estereótipos culturais de, por exemplo, classe, gênero, raça e sexualidade.

Contudo, as abordagens narrativas também estão conscientes de como o espaço clínico é construído culturalmente. Compreende como histórias de modelos médicos encorajam o ” adensamento” de certas versões “saturadas de problemas” da nossa história. É muito fácil para nós, como praticantes, dançar com esta estrutura e acrescentar mais camadas que reforçam a fragilização que a história saturada de problemas encoraja, à medida que incorporamos ainda mais a ideia de que o doente tem uma doença que requer conhecimentos especializados para identificar e tratar.

Há mais do que uma forma de descrever cada situação. A consciência da natureza cultural das histórias e dos espaços clínicos que habitamos permite ao praticante também notar outras versões que não são tão visíveis quando uma história “saturada de problemas” é dominante. Praticar com sensibilidade narrativa permite-me notar os recursos dos pacientes e das suas famílias, os pontos fortes, os conhecimentos únicos, e a resiliência existente. Faz-me lembrar que as histórias de sofrimento são também histórias de sobrevivência. Podemos agir como testemunhas do sofrimento, mas também que documentam as capacidades e habilidades de sobrevivência.

Outra influência veio do movimento “ouvidores de vozes”. Aprendi muito com aqueles que tiveram experiências psicóticas e recuperaram ou mantiveram um funcionamento suficientemente bom para se tornarem formadores e professores. Ajudaram-me a compreender que mesmo os fenômenos que consideramos psicóticos podem ter importantes significados pessoais que podem não ser imediatamente aparentes, mas que podem ser valiosos para uma pessoa, e não apenas um sintoma. O trabalho deles também me ajudou a compreender que o objetivo terapêutico não deve ser o de eliminar as vozes, que os modelos convencionais só veem como sintomas, mas sim o de ajudar a pessoa a compreender e a acomodar-se a eles.

O trabalho antropológico sobre a audição de vozes reforçou esta opinião. Por exemplo, em um artigo interessante, os investigadores descreveram como a audição de vozes é vivida de forma diferente entre pessoas que residem em diferentes partes do mundo. No seu estudo, pessoas nos EUA experimentaram universalmente as suas vozes (ou o que um psiquiatra classificaria como “alucinações auditivas” – uma percepção anormal de vozes que não vêm de nenhuma pessoa real) como perigosas, indesejadas, e algo de que se deveria esforçar por se livrar.

Nos países em desenvolvimento desta amostra, os participantes experimentaram vozes de formas mais variadas. Os participantes nos EUA foram mais propensos a utilizar rótulos de diagnóstico e a relatar comandos violentos do que os da Índia e Gana, que foram mais propensos do que os americanos a relatar relações ricas com as suas vozes e menos propensos a descrever as vozes como o sinal de uma mente violada. As amostras ganesas e indianas também funcionavam muito melhor no seu dia a dia do que a amostra americana.

Ao desenvolver a minha confiança no trabalho com aqueles que experimentam vozes e outros fenômenos considerados psicóticos, comecei a compreender que é possível alcançar melhores resultados ajudando a pessoa a ver as suas vozes no contexto e a mudar a sua relação com as suas vozes (ou outros fenômenos psicóticos). Em vez de as ver antagonistamente como algo que não deveriam ter e de que deveriam ter medo, podiam encontrar formas de se sentirem irritadas em vez de receosas, e até de se envolverem em conversas úteis com elas.

Praticamente todas as pessoas que conheci que viviam fenômenos psicóticos, sejam vozes ou não, tinham experimentado a sua quota-parte dos EAIs que mencionei anteriormente neste capítulo. Aprendi a explicar às pessoas com tais experiências que todos nós temos formas únicas de responder quando nos acontecem coisas emocionalmente avassaladoras. Muitas vezes, quando estamos a vivê-las, estamos em modo de sobrevivência. Depois, a nossa mente usa as suas próprias formas particulares para tentar evitar que sejamos novamente feridos.

Isto pode surgir em todos os tipos de fenômenos que são únicos para cada indivíduo, uma vez que estamos todos “ligados” de forma diferente. Algumas pessoas têm muitas dores de cabeça, outras não conseguem parar de falar, algumas encontram-se evitando as pessoas, algumas começam a usar substâncias para afogar sentimentos, e algumas começam a ouvir vozes que lhes dizem para não confiarem nos outros.

De acordo com a prática dos ouvidores de vozes, tento ajudar a pessoa a “humanizar” cada voz. Pergunto-lhes sobre as características da voz, se são masculinas ou femininas, quantos anos imaginam ter, que tipo de humor têm, que tipo de voz é, se lhes faz lembrar alguém etc. Pergunto-lhes sobre o que a pessoa sente sobre cada voz e o que espera mudar.

Porque estamos numa cultura que teme ouvir voz e vê isto como um sintoma das doenças mentais mais perigosas e graves, não é surpreendente que muitos se tenham assustado com tais experiências, não tenham querido contar a ninguém, e esperassem que algo pudesse ser feito para se livrarem das vozes. Explico como as vozes podem emergir do nosso inconsciente e representar partes de nós próprios, muitas vezes aspectos que tentámos reprimir. Elas são reais e têm significados. Muito do trabalho envolve então ajudá-los a mudar a sua relação com as suas vozes, para que não tenham de se sentir assustados ou controlados por elas.

Como vejo menores de 18 anos, isto é normalmente feito em conjunto com pelo menos um dos seus familiares (a menos, claro, que a pessoa não queira envolver a sua família por muito boas razões), por isso as conversas envolvem uma pessoa que pode contribuir para estabelecer laços, encontrar novos significados, e apoiar a tarefa de ajudar a pessoa a mudar a sua relação e os sentimentos que tem em relação às vozes. Quanto menos controlada e torturada pela voz a pessoa se sente, menos angústia a pessoa experimenta com as vozes, as vozes começam a perder o seu poder quando se tornam mais variadas e menos persecutórias.

Outra influência sobre mim foi crescer no Iraque quando era jovem. Há uma forte crença em muitas culturas de influência islâmica no “destino”. Apesar de não ser religioso, certos valores e práticas com que cresci tiveram influências duradouras sobre mim. Um desses sentimentos que tenho regularmente é que posso não compreender por que é que algo aconteceu como aconteceu, mas existe uma razão/objetivo superior que está para além da minha compreensão.

nos suceda em nossas vidas. Tem significados que não iremos compreender. Ainda tenho esse sentimento em mim, apesar de não partilhar tal crença. Mas esse sentimento ajuda-me a ultrapassar tempos difíceis, porque algures dentro de mim tenho esta convicção de que as coisas estão destinadas a ser e irão decorrer.

Não é a impotência passiva, aprendida de “não posso mudar nada e tenho de aceitar que as coisas serão sempre uma ‘M’ “, mas sim o mais otimista “tenho de confiar que as coisas más também têm significados”. A crença na arquitetura profundamente concebida do destino tem permitido às pessoas nessas culturas uma maior resiliência face à adversidade e ao sofrimento. Permite às pessoas aceitarem a dor, a tragédia e o sofrimento, sem o ampliarem em narrativas de doenças pessoais, disfunções e desespero.

Outra influência que me ajudou ainda mais a compreender como a nossa relação com um problema tem um grande impacto na forma como esse problema se manifesta é a compreensão da insónia. Eu costumava ter insónia com frequência e lutava com ela. Então, um dia, a minha mulher disse: ” você gosta de fazer um alarido sobre o seu sono“.

Foi apenas um comentário descartável. Penso que deve ter tocado na minha mente porque me lembro de alguns dias depois ter tido algo de epifania emocional (não sei de que outra forma o descrever). Compreendi, a um nível para além da linguagem e do intelectual, que a minha luta contra a insônia era porque eu estava lutando contra a insônia. Compreendi como, passado algum tempo, a insônia causa insônia e para interromper esse processo, tive de parar de a levar tão a sério e abster-me de tentar encontrar uma solução para a mesma.

Deixem-me explicar. A insônia aconteceu primeiro porque fiquei estressado e perturbado e tinha coisas na cabeça, de modo que por vezes tinha dificuldade em adormecer ou acordava a meio da noite e a minha mente entrava em ação sobre o que quer que fosse que me preocupava e depois não conseguia voltar a dormir.

Passado algum tempo, foi o fato de eu não conseguir dormir que me mantinha acordada. Preocupava-me se ia ter outra noite sem dormir. Eu poderia observar o relógio, pensando que tinha passado mais uma hora e ainda não tinha conseguido dormir, no entanto, eu teve de me levantar para o trabalho em quatro horas. Se eu acordasse e visse que eram apenas 3 da manhã, perguntava-me se seria só isso durante a noite. Apesar de ser muito cético no que diz respeito aos meios de comunicação social, é claro que agora reparava em relatórios e artigos sobre como todos nós precisamos de dormir e como a falta de sono causa todo o tipo de problemas.

Por isso, passei a procurar formas de resolver isto, porque a insônia estava atingindo o estatuto de um problema que interferia com a minha vida quotidiana. Lia artigos sobre como lidar com a insônia, mudar pedaços do meu estilo de vida, fazer download de aplicativos, mudar a minha rotina de dormir, e assim por diante. Alguns produziam uma melhoria (que pode ser apenas por coincidência), mas após algum tempo a insônia apenas voltava.

A insônia – estava agora a desviar-se para o desespero. Sentia que tinha um problema que não conseguia mudar. Tinha começado a ocupar uma quantidade crescente de espaço mental.

O comentário da minha mulher e a minha epifania emocional subsequente romperam a ligação hipnótica que eu tinha desenvolvido com a insônia. A insônia não merecia o estatuto de um problema que necessitava de uma solução. Somos bastante resilientes como humanos. Pergunte a qualquer pai ou mãe de um bebê ou criança pequena, ainda podemos operar eficazmente com muito pouco sono.

Agora pude ver que a insônia é uma dor nas costas, mas nada mais do que uma experiência comum. Eu tinha colocado a insônia na categoria de “um problema”, depois de “um problema que afeta outros aspectos da minha vida” e depois de “um problema que necessita de uma solução”. Para que a minha vida melhorasse, senti que tinha de eliminar o problema. Tinha de me ver livre dele. Já não era uma experiência vulgar e compreensível – era agora um sintoma a ser tratado.

Para o meu bem-estar melhorar, tive de deixar de ver a insônia como um problema que precisava de ser resolvido. Tive de mudar a minha relação, o meu sentimento, em relação à insônia. A insónia era apenas uma reação compreensível a determinada situação. Estava no reino do normal. Eu não precisava de uma estratégia para isso. Quanto mais procurava uma solução, mais reforçava a crença de que a insônia era um problema. Quanto mais estas soluções não se sustentavam, mais caía no meu transe focado no problema, com a esperança a desvanecer-se sobre a possibilidade de a vida poder alguma vez ser melhor.

E acabou por ser tão simples quanto isso. Uma vez que deixei de ver a insônia como algo diferente do normal e/ou compreensível, como não sendo um problema, como apenas algo que tenho de aceitar que vem e vai, então a insônia deixou de causar insônia. Agora tenho noites em que não durmo bem, por qualquer razão, mas outras noites são boas. Eu já não fico mais a olhar o relógio. Se eu não durmo, não durmo. Não me alegro depois de ter uma boa noite de sono ou fico desanimado depois de uma má noite. A insônia intermitente é apenas uma parte da minha vida, como suspeito que seja para a maioria das pessoas de vez em quando.

Estas várias influências ensinaram-me uma série de coisas. Em primeiro lugar, a maioria dos problemas que se tornam aquilo que consideramos e categorizamos como problemas de saúde mental começam como reações compreensíveis e/ou comuns, frequentemente a danos psicológicos. Em segundo lugar, somos todos altamente influenciados pelas histórias culturais sobre como devemos ser. A propagação da “consciência da saúde mental” sensibilizou a população para suspeitar das nossas reações emocionais comuns e/ou compreensíveis e ver nelas potenciais doenças, transtornos, desregulamentação e disfunções. Agora examinamos os nossos estados emocionais e vemos neles, ou naqueles de que gostamos, um possível transtorno mental.

Em terceiro lugar, quando começamos a trilhar o caminho de “há algo de errado com as minhas emoções e/ou comportamento” arriscamo-nos a entrar na toca do coelho de Alice no País das Maravilhas, onde o problema se torna o problema. Estar ansioso torna-se angustiante, estar deprimido é depressivo. Entramos na sala dos espelhos onde os nossos problemas se desprendem do comum e olham-nos de volta, zombando das nossas tentativas de os ignorar.

Desenvolvemos uma relação antagônica com aspectos da nossa vida, particularmente a nossa vida emocional, vendo-os como possuindo qualidades de doença, acentuando o nosso sofrimento, e sugando significado da experiência para além da de uma potencial “anormalidade” médica ou psicológica que precisa de ser resolvida e/ou removida.

Em quarto lugar, entra-se no mercado da medicalização McDonaldizada, onde a gama de marcas (diagnósticos) e produtos de marca (medicamentos e terapias) é oferecida. Uma vez cooptado para o consumo da marca, a alienação e o antagonismo em relação à sua vida emocional é ainda mais fortalecido. O comum e/ou compreensível torna-se um sintoma ou conjunto de sintomas sem sentido que necessitam de um tratamento para se verem livres deles.

Neste momento entra-se no perigoso território dos alienados. Ele é criado para lutar e tentar controlar, reprimir, eliminar aspectos da sua vida emocional. A sua relação e sentimento em relação ao seu problema ocupa mais espaço mental se as soluções oferecidas não funcionarem ou apenas proporcionarem uma pausa temporária.

Se for esse o caso, você está agora pronto para a quinta etapa: entrada no mundo do doente crônico, à espera do perito certo, marca, medicação ou terapia para combater o transtorno que não para de crescer. As questões originais há muito que desapareceram. O problema tornou-se o problema.

Este entendimento tornou-me muito mais consciente de como os serviços podem acidentalmente tornar a sua saúde mental pior. Comecei a compreender por que é que temos resultados tão fracos e porque é que o volume das pessoas incapacitadas por ” transtornos ” de saúde mental se multiplicou a par com a quantidade e o número de tratamentos que estamos a fornecer. Os serviços de saúde mental, ao que parece, são muitas vezes maus para a sua saúde mental.

Na Parte 2 deste capítulo, exploraremos o trabalho com medicamentos e como se retirar dos medicamentos psiquiátricos.

[Trad. e edição Fernando Freitas]