Os Danos da Despatologização de Algumas Condições de Saúde Mental

Os críticos têm constantemente apontado para os danos da patologização de nossa saúde mental, mas será que a despatologização de algumas condições também pode causar danos?

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Os críticos das psicodisciplinas têm frequentemente apontado para os danos da patologização, referindo-se ao processo pelo qual as experiências de sofrimento mental são subsumidas sob as rubricas de doenças e enfermidades, excluindo entendimentos alternativos e obscurecendo o contexto social. Entretanto, em alguns casos, tentativas de despatologizar algumas experiências desafiando seu status como ” distúrbios reais” também podem afetar negativamente os usuários do serviço.

Esse é o argumento de um novo artigo de Lucienne Spencer e Havi Carel intitulado “‘Isn’t Everyone a Little OCD?’ The Epistemic Harms of Wrongful Depathologization.” (“‘Não somos um pouco TOC’ Os Danos Epistêmicos da Despatologização Errada). Spencer e Carel explicam que “a despatologização equivocada desvaloriza o status epistêmico de tais pessoas, reduzindo seus sintomas a meros traços de personalidade, negando-lhes assim uma identidade psiquiátrica plenamente reconhecida”. Uma manifestação de despatologização errônea é a despriorização de pacientes psiquiátricos por profissionais de saúde em favor de “pacientes que estão realmente doentes””.

Eles continuam:

“Argumentamos que a despatologização equivocada envolve simultaneamente estigmatizar e trivializar um transtorno mental e que nele reside sua nocividade. Isto cria uma zona crepuscular de transtorno mental, onde o doente é considerado tanto como exagerando suas dificuldades (trivialização) quanto como sendo epistemicamente suspeito por causa de seu diagnóstico psiquiátrico (estigmatização). Assim, pessoas com certos tipos de doença mental são consideradas doentes demais para estarem livres de estigma, mas não o suficiente para serem levadas a sério…Fornecemos um estudo detalhado deste processo no caso de transtorno obsessivo-compulsivo (” conhecido por TOC”)”.

A hipótese de que, em alguns casos, há um significado a ser encontrado em um diagnóstico psiquiátrico é central para o argumento de Spencer e Carel. Na verdade, muitos indivíduos em todo o mundo encontram significado, poder e propósito em seus diagnósticos psiquiátricos. Embora a “patologização injusta” possa ser prejudicial, eles argumentam em seu trabalho que a “despatologização injusta” também pode levar a danos epistêmicos para qualquer pessoa que se afaste da norma sanitária.

Os autores observam:

“Não estamos, naturalmente, sugerindo que todas as tentativas de despatologização sejam injustas. De fato, vozes poderosas dentro do movimento da neurodiversidade e do Orgulho Louco defendem a despatologização como um objetivo de justiça social. Os fatores decisivos são a presença ou ausência de banalização e a identidade de quem faz a despatologização. Se a despatologização acontece através da apropriação por pessoas sem doença psiquiátrica, então ela é injusta. Mas se a despatologização é o resultado de um esforço considerado, em grupo, de conscientização e não leva à banalização, então esta despatologização não é injusta. Assim, deixamos em aberto a possibilidade de que as pessoas com TOC possam, potencialmente, um dia decidir despatologizar o TOC por dentro, em seus próprios termos, enquanto retêm o tratamento para os efeitos negativos de sua neurodiversidade”.

“‘Isn’t Everyone a Little OCD?’ The Epistemic Harms of Wrongful Depathologization” está dividido em seis seções:

Seção 1: Eles argumentam que a despatologização equivocada desvaloriza o status epistêmico dos indivíduos que encontram sentido em seu diagnóstico psiquiátrico estigmatizando e banalizando sua doença mental.

Seção 2: Nesta seção, Spencer e Carel argumentam que patologizar um comportamento é vê-lo como anormal e que requer tratamento especial. Um comportamento patologizado pode mais tarde ser medicado, ou seja, classificado como um distúrbio médico. Embora estes processos e palavras sejam freqüentemente utilizados de forma intercambiável pelo público e pela literatura, eles podem ser (e muitas vezes são) mutuamente exclusivos. Em outras palavras, “a medicalização pode – mas nem sempre segue a patologização”. Assim, a desmedicalização nem sempre segue a despatologização.

“Embora a despatologização tenha sido considerada até agora um processo amplamente positivo, neste artigo articulamos seu impacto negativo na psiquiatria. Examinamos como um transtorno mental pode perder seu status patológico no discurso público enquanto mantém seu status médico, resultando em uma difusão da definição clínica e mascarando sua natureza séria e debilitante. Argumentamos que a despatologização pode, portanto, ser prejudicial. Nosso objetivo é articular um novo dano, impulsionado não por atitudes patofóbicas, mas sim pelo que chamamos de despatologização injusta, que esvazia o estado de doença mental….”.

Seção 3: Os autores definem o fenômeno nocivo conhecido como “injustiça epistêmica” na literatura filosófica. A injustiça epistêmica, inicialmente cunhada pela filósofa feminista Miranda Fricker, é um processo no qual um indivíduo é prejudicado, não moral ou fisicamente, por outra pessoa, mas é prejudicado epistemicamente por outra pessoa. Experimentar dano epistêmico ou violência é ter seu modo de conhecer e dar sentido ao seu mundo invalidado/não ser devidamente respeitado por uma pessoa mais poderosa. Em outras palavras, a injustiça epistêmica prejudica sua capacidade como conhecedor de sua própria experiência.

Seção 4: Spencer e Carel exploram como a estigmatização e trivialização diária dos sintomas do TOC se tornaram tão comuns que o transtorno foi despatologizado, mas não desmedicalizado. Ou seja, os indivíduos com TOC são estigmatizados da mesma forma que qualquer pessoa com uma doença mental, porque não são vistos como conhecedores confiáveis de sua própria experiência. Entretanto, simultaneamente, seus sintomas são banalizados pela apropriação e utilização cotidiana do termo TOC.

Spencer e Carel o colocam desta forma:

“O termo TOC foi apropriado por alguém que não foi diagnosticado com a condição e não experimenta o conjunto completo de problemas que o transtorno causa. Assim, um termo psiquiátrico usado para descrever um certo tipo de transtorno mental é apropriado por aqueles que não experimentam a condição em questão e assim banalizam-na”.

Como o transtorno é banalizado por pessoas que afirmam ter TOC quando experimentam um momento fugaz de desconforto depois de não lavar as mãos ou ver suas roupas no chão, os testemunhos de pessoas que experimentam toda a gama e espectro dos sintomas do TOC são deslegitimados – eles experimentam a injustiça testemunhal.

Seções 5 e 6: Spencer e Carel discutem os danos epistêmicos da estigmatização e da banalização (despatologização injusta) da doença mental. A primeira injustiça epistêmica é a injustiça testemunhal que vem da banalização. Ou seja, as pessoas que sofrem de uma doença mental não são compreendidas ou não recebem apoio ou assistência clínica porque “todo o mundo não tem um pouco de TOC?”A lacuna criada em nossa compreensão coletiva da doença invalida a dor e a incapacidade do indivíduo.

Os autores concluem então:

“O TOC fornece um exemplo paradigmático de ignorância hermenêutica intencional em doenças psiquiátricas. Entretanto, outra pesquisa no Twitter mostra que tal apropriação indevida não está limitada ao TOC. A busca expôs a banalização comum do autismo (‘Estamos todos no espectro, por isso é que é um SPECTRUM …’), o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (‘… consegui esse TEPT ao passar a expressar meus sentimentos às pessoas que simplesmente os descartam…’), e o Transtorno Bipolar (‘Observar casados à primeira vista e confirmar que a maioria [das pessoas] são bipolares…’)”.

“Estas práticas discursivas alteram não apenas a forma como falamos sobre os transtornos mentais, mas também como pensamos e os entendemos. Ao reduzir os transtornos mentais a traços de personalidade não perturbadores e não ameaçadores, certos transtornos mentais podem ser percebidos como menos sérios e prejudiciais do que realmente são. Consequentemente, através da despatologização equivocada, partes significativas da experiência social do sujeito marginalizado são “obscurecidas da compreensão coletiva”, pois lhes foram roubadas…[as] ferramentas para falar sobre sua doença”.

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Spencer, L., & Carel, H. (2021). ‘Isn’t Everyone a Little OCD?’ The Epistemic Harms of Wrongful Depathologization. Philosophy of Medicine, 2(1), 1-18. (Link)

[trad. e edição Fernando Freitas]

 

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Samantha Lilly traz a sua formação em filosofia, bioética e justiça social para o seu trabalho como suicidóloga crítica, com a crença de que a suicidologia, no seu melhor, é um trabalho de justiça social. Antes de iniciar um doutoramento em Saúde em Ciências Sociais na Universidade de Edimburgo, Sam recebeu uma bolsa Thomas J. Watson Fellowship. O seu projecto, "Understanding Suicidality Across Cultures", deu-lhe o privilégio de trabalhar ao lado de especialistas em ética, académicos e defensores dos direitos nos países da Benelux, Lituânia, Argentina, Aotearoa, e Indonésia. A investigação actual da Sam dedica-se a trazer metodologias feministas e descoloniais para a prevenção do suicídio.