No meio de uma pandemia: a mídia luta para definir o que é normal

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Desde que o vírus COVID-19 atingiu os Estados Unidos, a grande mídia tem regularmente coberto o seu impacto psicológico no público americano. De acordo com essas matérias jornalísticas e comentários, a doença potencialmente mortal está provocando não apenas medos da doença, mas também tristeza, raiva e solidão criados pela tensão do autoisolamento obrigatório. Essa ansiedade e depressão, dizem, são reações esperadas na maioria das pessoas. Mas para aqueles que já lutam com esses sentimentos, suas respostas à pandemia podem ser vistas como um surto de seus ‘sintomas de doenças mentais’. Assim, enquanto a parte ‘normal’ da nossa população está sendo confortada, aqueles com ‘transtornos’ estão sendo instruídos a tomar cuidados! E, ao mesmo tempo, a mídia fala de uma nova epidemia que pode estar a caminho: um surto de doença mental.

O reconhecimento do estresse e da ansiedade

Por exemplo, nós temos visto estórias tais como “7 Razões Porque é Difícil Controlar a sua Ansiedade com o Coronavírus” (STAT News); “Não Caia na Espiral da Ansiedade com o Coronavírus: Aqui o que Você Pode Fazer para Aliviar as Suas Preocupações, ao Mesmo Tempo Mantendo Você e a sua Família Protegidos“ (Wired); “Como se Manter Resiliente e Saudável Mentalmente Durante a Eclosão do Coronavírus” (“On Point,” WBUR, Boston’s NPR station), e “Experts em Psicologia Dão Dicas para Salvaguardar a Sua Saúde Mental Durante a Quarentena” (CNBC), entre outras.

Essas matérias jornalísticas têm fornecido ferramentas úteis para entender nossas emoções e comportamentos e nos garantir que mudanças de humor, energia e hábitos pessoais são reações normais a uma situação perigosa com muitas incertezas.

Como a repórter Nicole Ellis explicou em “5 maneiras de responder à ansiedade induzida por coronavírus”(Washington Post, 20 de março), o aumento de rotinas e notícias assustadoras que são exibidas em nossas telas de TV e feeds de notícias criam “a tempestade perfeita para se sentir impotente e ansioso”. Diz sua convidada, a especialista em saúde mental, Dra. Jennifer Yip: “Quando estamos ansiosos, nossa resposta de luta ou fuga está sendo desencadeada – o que existe para nos proteger. O problema é que alguns de nós se concentram demais nas coisas que não podemos controlar e não naquilo que realmente podemos controlar.

Reações “saudáveis” vs. Reações “não saudáveis”

Ao mesmo tempo, como constatou um estudo feito por Mad in America sobre a cobertura da imprensa entre 8 e 25 de março, estamos vendo avisos de que, para certas pessoas, essas respostas estressantes ao vírus podem não ser normais e que devemos estar em alerta para os sinais de ansiedade ‘não saudável’.  Preste atenção a este vídeo, promovido em um comunicado de imprensa do Centro de OCD, Ansiedade e Transtornos Relacionados da Universidade da Flórida:

Aqui aprendemos que, de acordo com os psiquiatras, você pode ter níveis de ansiedade ‘não saudáveis’ se você ‘for longe demais’ em relação às medidas preventivas ou passar a evitar suas paixões normais. Por exemplo, lavar as mãos constantemente por mais do que os 20 segundos recomendados pode ser um problema. Assim como, pode não querer mais jogar beisebol depois da escola, porque há várias pessoas tocando no mesmo equipamento esportivo. O que não é mencionado: os dois comportamentos fazem sentido no contexto atual.

Como todos os comunicados à imprensa, esse foi projetado para orientar a cobertura de notícias durante a crise. Ao fazer isso, esteve promovendo o tipo de cobertura que patologiza o sofrimento emocional experimentado por aqueles com ‘doença mental’. Em nossa revisão dos relatórios sobre COVID-19 e saúde mental, esse foi o tipo de cobertura que encontramos regularmente Por exemplo, esse artigo de The Hill, intitulado “Os custos de saúde mental para conter o surto de coronavírus: uma pandemia afeta significativamente as pessoas com doenças mentais”, afirma que é normal que a população em geral se sinta ansiosa: “Todo mundo irá sentir algum nível de desconforto e ansiedade exatamente agora.”

No entanto, o artigo também alerta que “para alguns, a ansiedade pode subir a um nível clínico durante um surto”, o que requer ajuda profissional. Em outras palavras, o que é normal para alguns é anormal para outros. De acordo com Krystal Lewis, psicólogo clínico do Instituto Nacional de Saúde Mental (NAMI), os sintomas que podem ser ‘clínicos’ incluem “dificuldade para dormir, mudanças nos padrões alimentares, mudanças rápidas no humor, incapacidade de realizar tarefas requeridas ou necessárias, [e] automedicação usando álcool.” O artigo pede que as pessoas com esses sintomas revisem as recomendações e os recursos fornecidos pela Aliança Nacional sobre Doenças Mentais, uma fonte primária do trecho citado.

O NAMI é conhecido por promover a ideia de que as doenças mentais são subdiagnosticadas e subtratadas, e essa matéria citada acima, em essência está dizendo a muitos leitores que suas reações à pandemia são ‘anormais’ e que podem precisar de ajuda.

A ABC News publicou um relatório que exibiu a mesma confusão. Com o título “Ansiedade e depressão provavelmente aumentarão entre os americanos à medida que a pandemia de coronavírus se espalhar”, seu subtítulo dizendo aos leitores que “estresse, ansiedade e depressão são normais e que devem ocorrer agora”. Mas o artigo cita Yalda Safai, uma residente de psiquiatria, que alerta que “[a] ameaça única e sem precedentes do COVID-19 vem exarcebando a ansiedade, a depressão e o potencial de histeria em nossos mais vulneráveis – os doentes mentais”. Em outras palavras, as reações dos ‘doentes mentais’ estão sendo retratadas como uma forma de ‘histeria’.

Enquanto isso, um programa de uma emissora afiliada da CBS intitulado “Profissionais da área de saúde alertam para o aumento dos sintomas de doenças mentais durante a crise com o COVID-19“, deu um passo além, sugerindo que o vírus poderia deixar pessoas com problemas mentais que anteriormente eram aceitáveis. O programa comparou a pandemia ao 11 de setembro e sugeriu que reações excessivamente fortes a esses eventos perturbadores poderiam ser um sinal de um transtorno mental. Embora a voz do narrador diga às pessoas para não se autodiagnosticarem, essa mensagem é contradita pelo alerta que aparece na parte inferior de nossas telas: “Proteja-se contra as doenças mentais durante uma pandemia”.

Até comportamentos apropriados às circunstâncias podem ser patológicos, como disse um terapeuta ao The Washington Post (14 de março): “Agora todos os americanos estão sendo instruídos a ver seus arredores de uma maneira que parece imitar o TOC”.

Ao todo, o público fica com uma mensagem confusa: ficar mais ansioso em resposta ao COVID 19 seria normal se você é mentalmente saudável e um sinal de doença se não for, embora aparentemente algumas pessoas normais possam sentir tanta ansiedade que elas também agora podiam ser vistos como doentes mentais. E, finalmente, todo mundo agora deve praticar comportamentos que, no passado, seriam um sinal de que tinham TOC, mas agora são considerados razoáveis … a menos que se vá “longe demais”. Talvez aqueles rotulados com TOC tivessem acertado na hora de lavar as mãos?

Desestabilizando os ‘desordenados’

Diante de circunstâncias excepcionais, todos podem sentir níveis de medo, tristeza e irritabilidade bem acima da linha do patamar usual. Isto é especialmente verdade para pessoas que, mesmo em tempos mais comuns, lutam contra a ansiedade e a depressão. Mas, devido à visão convencional da doença mental como um defeito biológico intrínseco dos indivíduos, a imprensa está tratando esses indivíduos como casos separados.

As manchetes soaram, “Alguns com TOC, outros com Transtornos de Ansiedade, estão lutando contra a Epidemia do Coronavírus: muitos tropeçam nesse fio de arame” (Chicago Tribune), “O Tratamento do TOC e dos Transtornos de Ansiedade Podem ser Complicados pelos Medos com o Coronavírus” (Washington Post, March 13), e “Coronavírus é um ‘Pesadelo Pessoal’ para muitos com TOC e Transtorno de Ansiedade” (NBC News), para nomear apenas alguns.

Nesse esquema, se os ‘normais’ entram em pânico, é por causa da pandemia; se as pessoas ‘doentes mentais’ sofrem, é porque o Transtorno de Ansiedade Generalizada, a Mania Bipolar ou o TOC estão aumentando ou recidivando. Isso é mostrado na maneira como os profissionais de saúde mental que aparecem nessas matérias jornalísticas falam sobre as preocupações cada vez maiores que estão vendo em seus clientes – por definição, ‘pacientes’ no tratamento de um transtorno / doença.

Por exemplo, na reportagem da NBC News sobre o TOC, uma ilustração de pessoas lavando as mãos freneticamente está legendada: “A onda de ansiedade que atinge os pacientes de saúde mental é diferente de tudo que os especialistas já viram”. Aqui, a rede de televisão relata que “um dos clientes de TOC do [psicólogo Reid] Wilson quase cancelou uma consulta porque estava preocupado por ter tocado demais o nariz e poder passar o coronavírus a Wilson. . . Outro, com transtorno de ansiedade generalizada, não conseguia parar de se preocupar se a filha que viajava em outro país estaria em risco”.

No entanto, dada a pandemia, ambas preocupações parecem bem fundamentadas. Quem não se preocuparia em transmitir o coronavírus a um outro ou não ficaria agonizado devido a uma filha que está viajando em outro país?

Em um artigo intitulado “O coronavírus responde a ansiedade e angústia por vulneráveis entre os habitantes de Oklahoma”, o Oklahoma Watch descreve as ansiedades vivenciadas por uma mulher de Oklahoma chamada Sarah, que “sofre de depressão causada pelo estresse”:

Seu discurso acelera e seu coração dispara quando Sarah fala sobre a disseminação do COVID-19 e como isso poderia afetar seu irmão, cujo histórico médico o torna mais vulnerável a infecções. . . Segundo seu diário, ela está ansiosa e luta contra a insônia há semanas – sinais de que sua depressão voltou.

A ideia de que a resposta de um indivíduo ‘transtornado” com a pandemia possa ser entendida como evidência de patologia também se pode ver em comentários de líderes da psiquiatria americana. Por exemplo, o diretor do NIMH, Joshua Gordon, disse ao Washington Post  (17 de março): “Todos nós suspeitamos um pouco dos outros no metrô, na rua, se eles estão tossindo ou parecendo doentes. Imagine se você tivesse esquizofrenia – essa preocupação ou suspeita poderia se transformar em franca paranoia”.

Um artigo do Psychiatric Times (“Cuidado com os psiquiatras! O impacto do COVID-19 e da pandemia na saúde mental”) alerta da mesma forma que as preocupações com o vírus podem “desestabilizar ainda mais os pacientes e aumentar o comprometimento funcional” naqueles com “obsessões por contaminação” relacionadas ao TOC e inflam as “teorias da conspiração” médicas entre aqueles com ‘transtornos psicóticos’.

Essa é a estrutura de ‘patologia’ na qual vivem as pessoas diagnosticadas com transtornos mentais: as reações que são vistas como normais em outras pessoas são vistas como patológicas naquelas que vivem com um diagnóstico. Em uma matéria de 16 de março intitulada “Isso vai complicar seus problemas: o coronavírus apresenta novos desafios para muitos com doenças mentais”, conta a CBS News Katherine Ponte, que “em 2006 estava assistindo obsessivamente os horrores da Guerra do Iraque em notícias na tv-a-cabo quando ela deu uma martelada em sua TV. Ela sofre de um grave transtorno bipolar I com psicose e também de um transtorno depressivo maior, e as imagens de um Oriente Médio devastado pela guerra desencadearam um episódio maníaco que a levou a ser hospitalizada. Se Ponte não tomar cuidado, a atual pandemia de coronavírus pode ter um efeito semelhante nela. ”

Da mesma forma, uma história no USA Today (“O isolamento é um grande gatilho”: os sentimentos de suicídio são amplificados em meio a uma pandemia”) cita “Danielle Sinay, 28. . . uma escritora que vive no Brooklyn e que tem uma história de pensamentos suicidas. Ela foi diagnosticada com transtorno do pânico, estresse pós-traumático e depressão. Enquanto ela não está totalmente isolada – ela vive com o marido e quatro animais de estimação – [ela diz] interrupções em sua rotina e a proliferação de incógnitas a deixou vulnerável. ”

Uma epidemia iminente?

Com a pandemia dita a estar causando um aumento na ansiedade e um número crescente de pessoas que procuram terapia, tem havido uma onda de histórias de terapeutas se esforçando para atender à demanda. Esse pico de sofrimento emocional está sendo agora descrito como um ‘sintoma’ de uma ‘epidemia’ crescente em que pessoas ‘normais’ mostram sinais de ‘doença mental’ e pessoas ‘doentes mentais’ recaem ou pioram. Esse é um problema, como costumava ser dito antes, porque os transtornos de ansiedade já afetam dezenas de milhões de pessoas.

Algumas dessas matéria jornalísticas foram diretas. O New York Times, em “À medida que o coronavírus causa prejuízos emocionais, os profissionais de saúde mental se preparam para o aumento das demandas“, concentra-se nos profissionais de saúde mental que lutam para cumprir compromissos com segurança por meio de sessões de telessaúde para os muitos clientes que agora se dedicam à doença. Em “Profissionais de saúde mental estão se preparando para uma epidemia de ansiedade em torno do coronavírus“, a Mother Jones compartilha a opinião anedótica de um terapeuta sobre a enxurrada de ‘sintomas extremos’ que ela está vendo entre os pacientes. A revista então relata um aumento no número de pessoas comuns que fazem o teste on-line de rastreamento de ansiedade da Mental Health America, que considera “novos dados disponíveis”.

Essas histórias foram estruturadas em torno da ideia de que é necessário muito mais tratamento de saúde mental convencional agora, como é exemplificado pela matéria do Mashable “Coronavírus revela tudo o que há de errado com nosso sistema de assistência em saúde mental“.

Outras matérias foram mais sensacionalistas, sintetizadas por um artigo de 24 de março no The Guardian: “Enfrentamos uma pandemia de distúrbios de saúde mental. Aqueles que se encontram mais afetados mais precisam do nosso apoio”.  Aqui, o colunista do The Guardian Paul Daley declara:

Sim, esta é uma pandemia viral assustadora e mortal. Mas outra praga, da qual não estamos ouvindo o suficiente sobre nossos líderes, chegará em uma onda logo atrás.

Essa é a pandemia de depressão grave e ansiedade que varrerá o mundo à medida que a taxa de desemprego se aproxima de dígitos inéditos, famílias que preferem estar socialmente distantes são empurradas para estar juntas e os jovens não têm a certeza e a estrutura da escola. . .

À medida que o desespero em massa, a ansiedade e a depressão aumentam de acordo com o alongamento . . . Nas filas, a sociedade civil dependerá quase tanto da manutenção da saúde mental individual quanto da disponibilidade de kits de teste e de máscaras.

A confusão da mídia podia ser vista em plena exibição: embora se tornar ansioso possa ser visto como uma reação normal das pessoas normais ao COVID-19, a pandemia, no entanto, estaria provocando uma epidemia de ‘doença mental’.

Separado, Não Igual

Enquanto a mídia alerta sobre um sistema de saúde mental sobrecarregado, ela também tenta fornecer conselhos sobre como lidar por conta própria. Aqui, as dicas dadas às pessoas ‘normais’ e às ‘doentes mentais’ têm sido as mesmas: manter conexões sociais, fazer exercícios, meditar, manter uma rotina e praticar técnicas de terapia cognitivo-comportamental, como reformular os pensamentos negativos. Mas tem havido uma diferença fundamental. Enquanto o público em geral vem sendo estimulado a cultivar seus recursos internos e a procurar colegas e entes queridos, os ‘doentes mentais’ (e as pessoas que notam sinais de ansiedade no nível ‘clínico’) são solicitados a procurar um profissional.

Uma das dicas mais populares para aliviar a ansiedade de pessoas ‘saudáveis’ e ‘não saudáveis’ seria adotar uma dieta de mídia – evitando aquelas assustadoras atualizações de notícias 24 horas por dia, 7 dias por semana, que as próprias mídias vão produzindo. De acordo com profissionais de saúde mental entrevistados na Wired (acima), as pessoas devem “limitar a quantidade de informações que se consome sobre o surto de coronavírus. Tentar encontrar um equilíbrio entre ser informado o suficiente para tomar decisões sobre sua vida, mas não tão sobrecarregado com informações que se tornem estressantes.” Isso não está longe de ser o conselho oferecido às pessoas com transtornos mentais. Em “Pandemia de COVID-19 pode afetar a saúde mental“, relata a afiliada da CBS, “Jessica Ryan, da Mental Health America. . . quem diz que talvez seja hora de se fazer uma pausa [de ficar obcecado com notícias on-line]. Ela diz que todas as mudanças que acontecem e notícias constantes, podem ser desencadeadoras para alguém que tenha sido diagnosticado com uma doença mental.” Mesmo conceito, diferente enquadramento.

Às vezes, o mesmo meio de comunicação criou dois segmentos separados no mesmo tópico. Por exemplo, “CBS This Morning” transmitiu um segmento de vídeo “Cuidando da crise: como conter a ansiedade durante a pandemia“, com a psiquiatra Gail Saltz, que ofereceu dicas diárias para aliviar as reações de estresse com a pandemia. Ela tranquilizou os espectadores: “Patologizar ou fazer-se sentir pior sobre ‘por que estou tão assustado’ ‘não ajuda e não é verdadeiro. É normal estar ansioso agora, pois há algumas coisas perigosas acontecendo e temos um sistema evolutivo desenvolvido para nos alertar sobre as coisas que devemos estar cientes. ” Este artigo foi incorporado ao artigo online da CBS News mencionado acima, em flagrante contraste com a cobertura dos riscos e necessidades especiais dos ‘doentes mentais’ durante a crise do coronavírus.

Distinções falsas

Ao traçar distinções exageradas entre a emoção intensificada e os comportamentos contraproducentes que as pessoas ‘normais’ experimentam e aquelas expressas por pessoas com rótulos de doenças mentais pré-existentes, a mídia aqui está carregando água para a empresa psiquiátrica. De fato, tendemos a ouvir esses avisos toda vez que há uma crise, que acaba por levar mais pessoas ao tratamento e, muito provavelmente, às drogas psiquiátricas. Esse é o objetivo não apenas da NAMI (cujas informações de contato estão incluídas em várias histórias que examinamos), mas também de duas outras fontes principais para essas matérias: Mental Health America (Saúde Mental na América) e a Anxiety and Depression Association of America (Associação de Ansiedade e Depressão da América). Esses grupos têm um grande interesse em promover essa narrativa, e a pandemia oferece uma oportunidade para isso.

A psicóloga Lucy Johnstone comenta em seu artigo: “Por que é saudável ter medo de uma crise” (The Guardian, 25 de março):

Não estamos enfrentando ‘uma pandemia de distúrbios graves de saúde mental’. Estamos todos enfrentando medo, ansiedade, desespero e confusão totalmente normais sobre uma situação verdadeiramente aterradora que desafia todo o nosso modo de vida. Nunca ficou mais claro que os chamados ‘transtornos mentais’ fazem sentido no contexto. . .

Quanto mais rotularmos nossas reações humanas compreensíveis como transtornos, maior será a tentação de desconectá-las de sua fonte e focarmos em novos ‘tratamentos’ individuais. As empresas farmacêuticas devem estar esfregando as mãos diante da perspectiva de todos esses novos clientes.

Consequências do mundo real

Embora bem-intencionado, esse tipo de cobertura é inútil, servindo para aumentar a ansiedade existente, aumentando a possibilidade de que as reações de uma pessoa a uma pandemia internacional possam significar que há algo de ‘errado’ com elas. Também é perigoso sugerir que as diretrizes de saúde pública que precisamos seguir agora, como o auto-isolamento, podem nos quebrar – isso serve apenas para fazer as pessoas reconsiderarem a sensatez do distanciamento social.

Os estereótipos daqueles com rótulos de doenças mentais e sua necessidade ou periculosidade percebida já tiveram consequências no mundo real. No Reino Unido, uma lei de saúde mental foi temporariamente alterada para diminuir o nível exigido para a internação involuntária de pessoas consideradas doentes mentais, que passam a exigir a aprovação de um médico em vez de dois. A regra também estenderá ou removerá os prazos para a internação involuntária.

Como relatou um artigo de 19 de março do Disability News Service, a “Rede Nacional de Usuários de Sobreviventes (NSUN) teme que isso possa levar a mais coerção e mais negligência, além de menos salvaguardas”. A história cita Akiko Hart, executivo-chefe da NSUN: “Embora entendamos que são tempos sem precedentes. . . manter indivíduos desnecessariamente detidos fora do seu setor devido às pressões da força de trabalho é uma violação de seus direitos humanos.” Ela acrescentou: “Igualmente, liberar indivíduos por causa de pressões sobre a força de trabalho ou o estado de saúde mental é profundamente irresponsável”.

O mito da fragilidade

Por fim, a cobertura enfatiza a fragilidade e vulnerabilidades das pessoas com ‘doenças mentais’, e não os pontos fortes que elas também possuem. Bob Nikkel, ex-comissário estadual de saúde mental e álcool e drogas do estado de Oregon * observa: “Os jornalistas têm os mesmos estereótipos de todos os outros”. Recentemente contatado por um repórter sobre o impacto do coronavírus nos serviços para ‘os doentes mentais’, ele tentou transmitir que “as pessoas com diagnóstico de doença mental têm mais recursos do que as pessoas imaginam”.

Ele disse à Mad in America: “Não precisamos ter pena, precisamos vê-los como líderes. Precisamos reconhecer que eles fazem alguma versão do suporte entre colegas, o que vem reduzindo o isolamento há décadas.” Nikkel citou o trabalho do Intencional Peer Support e do National Empowerment Center, relatando que “o diagnóstico duplo anônimo começou on-line os programas ’12-passos mais cinco ‘[recentemente] e salvou a vida de alguém que era suicida. Mesmo na era dos coronavírus, esses esforços são especialmente valiosos.”

De fato, pessoas com deficiências psicossociais podem ser mais capazes de lidar com a ansiedade ‘saudável’ ou até ‘não saudável’. Eles tem aprendido muitas lições e táticas ao lidar com esses desafios há anos. Ken Goodman, um terapeuta do conselho da ADAA, disse ao The Washington Post (11 de março) que “dos cerca de 60 pacientes que ele trata a cada mês, apenas um expressou o medo do vírus até agora”.

No final de um artigo tipicamente ameaçador sobre os riscos para a saúde mental do coronavírus publicado em Detroit Free Press, Toni Lupro, estudante de medicina com “Transtorno Obsessivo-Compulsivo”, notou que “a pandemia de coronavírus revelou até que ponto ela chegou a terapia.” A história continua: “Medos de contaminação dominaram sua vida no passado, mas a chegada do COVID-19 em Michigan não a fez ter recaída”.

Lupro ela própria é citada, dizendo: “É bom perceber que todos estão no mesmo barco. Mesmo as pessoas que são médicas há 30 anos, todos nós não sabemos necessariamente o que vai acontecer. . . Eu acho que isso me ajuda a saber [temer germes] não é necessariamente uma coisa irracional. ”

Certamente, muitas pessoas estão atualmente sofrendo imenso sofrimento, e pacientes psiquiátricos e pessoas com problemas de uso de substâncias são mais vulneráveis à contração do vírus porque tendem a ser marginalizadas. Além disso, pesquisas mostram que os ecos desse período traumático provavelmente permanecerão muito tempo depois que o vírus e as quarentenas tiverem passado. O que isso significa é que todos nós precisaremos de níveis variáveis e ampliados de suporte.

Mas esses eventos estressantes também podem ser um grande equalizador. Como Lucy Johnstone escreveu, existe uma alternativa para uma epidemia de fobia e diagnóstico de Transtorno Pós-Traumático: “Podemos sair desta crise em um estado melhor do que antes, permanecendo conectados com nossos sentimentos e com as ameaças urgentes que os motivaram, e tomando ação coletiva para lidar com as causas básicas “.

Embora a imprensa deva reconhecer que a situação é terrível e que a ansiedade é ‘apropriada’ agora, Cohen Silver disse que há uma oportunidade para os jornalistas transmitirem uma mensagem mais construtiva: “Se trabalharmos juntos, podemos salvar vidas. . . Podemos incentivar resultados positivos da comunidade, como comportamento altruísta, coesão social, voluntariado, alcançando aqueles que moram sozinhos ou que são idosos. ”

Enquanto a nossa situação coletiva de emergência continuar, seria útil ver a mídia cobrir mais abordagens de saúde pública baseadas na comunidade e na resiliência, em vez de fornecer uma plataforma para a narrativa patologizante da psiquiatria.

O papel da imprensa

Essa perspectiva mais ampla é algo que os cientistas sociais que estudam o trauma dizem que os jornalistas devem enfatizar se quiserem ser precisos e úteis durante esta crise. Entre eles está a Dra. Roxane Cohen Silver, cuja pesquisa se concentra nos efeitos psicossociais dos desastres em larga escala e no papel da mídia nas suas conseqüências. Durante um recente seminário on-line patrocinado pela SciLine, ela falou sobre “como podemos garantir melhor a resiliência da população”:

Todos nós já passamos por traumas coletivos antes. Resistimos à violência em massa, resistimos a desastres naturais e, de fato, meus colegas e eu estudamos muitos desses eventos, incluindo os ataques terroristas de 11 de setembro. . . [e] furacões Irma e Harvey. E nossa pesquisa nos diz que a maioria superar essas situações.

Embora a imprensa deva reconhecer que a situação é terrível e que a ansiedade é “apropriada” agora, Cohen Silver disse que há uma oportunidade para os jornalistas transmitirem uma mensagem mais construtiva: “Se trabalharmos juntos, podemos salvar vidas. . . Podemos incentivar resultados positivos da comunidade, como comportamento altruísta, coesão social, voluntariado, alcançando aqueles que moram sozinhos ou que são idosos. ”

Enquanto nosso estado coletivo de emergência continuar, seria útil ver a mídia cobrir mais abordagens de saúde pública baseadas na comunidade e na resiliência, em vez de fornecer uma plataforma para a narrativa patologizante da psiquiatria.

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*Nikkel é também Diretor Executivo da Educação Continuada do MIA. 

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Miranda Spencer
Lembra da equipe do MIA, Miranda Spencer edita a seção Parent Resources do MIA. Jornalista, crítica de mídia e editora de livros há três décadas, é bacharel em Literatura Inglesa pelo Bard College e estudou jornalismo na NYU. Como uma pessoa com experiência vivida no sistema de saúde mental, ela está comprometida em garantir que todos que buscam apoio tenham acesso a informações completas e opções fortalecedoras.