Revisão Documenta Sintomas Graves de Abstinência com Drogas Psiquiátricas

Pesquisadores constatam que a maioria dos medicamentos psiquiátricos causam uma severa abstinência, apesar das tentativas de diminuir gradualmente a dosagem.

0
162

Um novo artigo em Psychotherapy and Psychosomatics revisa a literatura atual sobre as síndromes de abstinência após a descontinuação ou a diminuição da dosagem de várias drogas psiquiátricas. A revisão incluiu drogas antidepressivas, antipsicóticas e antiansiolíticas. Os pesquisadores descobriram que mesmo com o uso de uma interrupção gradual, conhecida como afilamento lento, os sintomas de abstinência estiveram presentes em todas as classes de drogas estudadas.

A revisão foi conduzida por Fiammetta Cosci da Universidade de Florença e Guy Chouinard da Universidade de Maastricht. Os autores verificaram que, ao contrário da crença popular, os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (antidepressivos ISRS), antipsicóticos e inibidores de recaptação de serotonina noradrenalina (antidepressivos ISRSN) mostraram síndromes pós-retirada mais severas e duradouras do que as benzodiazepinas. Esta evidência desafia as sugestões de clínicos e pesquisadores que propõem a substituição do uso de benzodiazepinas para ansiedade por antidepressivos e antipsicóticos.

A abstinência de medicamentos psiquiátricos continua sendo uma questão relevante, pois pesquisas recentes sugerem que mais da metade das pessoas que tomam antidepressivos sofrem de abstinência. Tanto os antidepressivos ISRSs, quanto os antidepressivos ISRSNs foram implicados. Há provas consideráveis de que a retirada dos antipsicóticos também pode ser duradoura e severa. Os perigos da polifarmácia e do uso inadequado de medicamentos são de grande preocupação em todo o mundo, na medida em que os pesquisadores começam a abordar seus perigos.

Para a revisão atual, Cosci e Chouinard analisaram a literatura sobre a abstinência causada pela interrupção, troca e pela diminuição de medicamentos psicotrópicos. Estes incluíram diferentes classes de medicamentos como benzodiazepinas, antipsicóticos, antidepressivos, cetamina, agonistas receptores não-benzodiazepínicos (Z-drugs), estabilizadores de humor e lítio. As síndromes de abstinência foram categorizadas em três grupos: novos sintomas de abstinência, sintomas de rebote e transtorno persistente pós-retirada.

Os novos sintomas de abstinência e rebote são de curta duração, temporários e reversíveis. Entretanto, os novos sintomas de abstinência são novos para o paciente (náuseas, dores de cabeça etc.), enquanto os sintomas de rebote se referem ao retorno repentino dos sintomas primários que muitas vezes são mais graves do que o pré-tratamento. Transtorno persistente pós-retirada refere-se a “um conjunto de sintomas duradouros, severos e potencialmente irreversíveis que ocasionam o retorno dos sintomas primários ou transtorno primário com maior intensidade e/ou novos sintomas de retirada e/ou novos sintomas ou transtornos que não estavam presentes antes do tratamento”.

Estudos vem demonstrando que os sintomas de abstinência produzidos por drogas psiquiátricas podem parecer uma recaída, criando assim a ilusão de que a descontinuação das drogas causou um retorno dos sintomas de saúde mental. Os autores deste estudo afirmam que a diferença entre recidiva/reincidência real de ” transtorno ” e sintomas de abstinência é que estes últimos são tanto mais rápidos quanto mais graves.

Cosci e Chouinard revisaram artigos em inglês publicados em revistas revisadas por pares e pesquisaram no banco de dados MEDLINE até janeiro de 2020. Foram utilizadas palavras-chave como “descontinuação/retirada”, com várias classes de medicamentos.

Eles descobriram que as benzodiazepinas e as drogas Z causavam novos sintomas de abstinência, tanto leves quanto graves, desde suor, confusão e taquicardia até convulsões e psicose. A maioria dos novos sintomas de abstinência permanecem leves e de curta duração (2-4 semanas). Os sintomas mais comuns da abstinência incluem insônia e ansiedade, mesmo após o uso a curto prazo e podem durar até 3 semanas. A ansiedade de rebote foi encontrada mesmo durante o tratamento com drogas, quando a dose estava sendo diminuída. Por exemplo, a ansiedade de rebote ocorria pela manhã após a administração da dose noturna.

Embora não haja literatura suficiente sobre os efeitos a longo prazo da abstinência de benzodiazepinas e drogas Z, alguns estudos encontraram efeitos adversos, tais como a deficiência cognitiva, com duração por muito tempo. Os autores também observam que o afilamento lento das benzodiazepinas ajuda a gerenciar os novos sintomas de abstinência e a administração de psicoterapia pode ajudar neste processo.

Para os antidepressivos, eles descobriram que novos sintomas de abstinência incluem dor, fadiga, arritmia, diarreia, visão embaçada, dormência, zapping cerebral, amnésia, depressão, alucinações e sintomas semelhantes a acidentes vasculares cerebrais, entre outros.

A depressão de rebote e até mesmo a ansiedade foram encontradas após a descontinuação dos ISRSs . O uso de ISRSs a longo prazo foi associado a distúrbios persistentes pós-retirada. Descobriram que isso é verdadeiro, mesmo que a descontinuação tenha sido gradual.

Os distúrbios pós-retirada, que algumas vezes continuaram mesmo após um ano de descontinuação, incluem distúrbios de pânico persistente, depressão, memória prejudicada, jogo patológico, distúrbios de ansiedade generalizada, várias disfunções sexuais, e outros. Os pesquisadores também observaram que as empresas farmacêuticas preferem usar a frase síndrome de descontinuação do antidepressivo em vez de “abstinência”, pois ela desvia a atenção do público para os efeitos adversos do medicamento.

A cetamina e a esquetamina, prescritas para “depressão resistente ao tratamento”, são excepcionalmente vulneráveis ao abuso e ao uso indevido. Novos sintomas de abstinência incluem fissura, tremores, delírios e alucinações, calafrios, paranoia, raiva, tremores, palpitações, etc. Eles geralmente duram 3 dias, mas podem continuar por 2 semanas. Os autores escrevem que, apesar do uso de cetamina enquanto droga de rua (Special K), o seu uso continuado tem colocado a psiquiatria “em risco de replicar o abuso da epidemia de opiáceos observada em 2016, nos EUA, com o risco de induzir neurotoxicidade”.

Constatou-se que a interrupção, redução da dosagem ou troca de antipsicóticos causou duas síndromes pós-retirada: a discinesia tardia (movimentos bruscos incontroláveis) e a psicose de supersensibilidade (alucinações, catatonia, ilusões). A primeira pode acontecer mesmo após um curto período de uso.

Novos sintomas da abstinência antipsicótica incluem calafrios, dores no peito, sensações de choque elétrico, tremor, sensibilidade genital, coma, parkinsonismo, letargia, catatonia, ansiedade, depressão e muito mais. Os sintomas de rebote incluem a catatonia e o retorno da psicose florida.

Os antipsicóticos de segunda geração, que foram produzidos para causar menos efeitos colaterais, têm tantos sintomas novos e de rebote quanto os de primeira geração. Mesmo uma diminuição gradual ao longo dos meses não foi capaz de evitar o surgimento destes sintomas de abstinência.

De modo geral, a revisão conclui que ISRSIs, ISRNs e antipsicóticos estão repetidamente ligados a distúrbios pós-retirada de longo prazo e ao aumento da gravidade da doença, quando comparados com benzodiazepinas e cetamina.

Os autores também observam que estes sintomas de abstinência frequentemente influenciam os resultados de ensaios clínicos e que existe uma confusão considerável sobre o que é um sintoma de um transtorno e o que é causado pelo tratamento (iatrogenia). Os pesquisadores alertam para o perigo de os psiquiatras negligenciarem os efeitos da abstinência:

“Os pacientes que apresentam sintomas de abstinência correm o risco de serem mal diagnosticados, maltratados e entrarem na iatrogênese em cascata, que é uma porta de entrada para a cronicidade… Os pesquisadores devem aceitar que os sujeitos em ensaios e na vida real não são mais inócuos, ou mesmo livres de drogas, a regra é estar sob polifarmácia”.

****

Cosci, F. & Chouinard, G. (2020). Acute and Persistent Withdrawal Syndromes Following Discontinuation of Psychotropic Medications. Psychotherapy and Psychosomatics, Published online first: April 7, 2020. DOI:10.1159/000506868. (Link)

Artigo anteriorEntrevista inédita com a Dra. Joanna Moncrieff
Próximo artigoA Ilusão Visual da Eficácia em Ensaios de Drogas Psiquiátricas
Equipe de Notícias da MIA Research: Ayurdhi Dhar é professora de psicologia na University of West Georgia, onde também concluiu seu Ph.D. em Consciência e Sociedade em 2017. Ela é autora de Loucura e Subjetividade: Um Exame Intercultural de Psicose no Ocidente e na Índia (a ser lançado em setembro de 2019). Seus interesses de pesquisa incluem a relação entre esquizofrenia e imigração, práticas discursivas que sustentam o conceito de doença mental e críticas de formas de conhecimento contextuais e a-históricas.