Resultado do Relatório sobre Viéses em Pesquisas com Medicação Antipsicótica

Um novo estudo na revista Translational Psychiatry, um jornal influente em psiquiatria biológica publicado pela Nature, desafia o estado da pesquisa sobre drogas antipsicóticas

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Peter SimonsUm novo estudo sugere que a eficácia dos medicamentos antipsicóticos pode ser exagerada devido a métodos tendenciosos de publicação. Os pesquisadores descobriram que a grande maioria dos testes com drogas antipsicóticas tem usado métodos com viéses em seus relatos. Essas práticas têm garantido que os ensaios clínicos publicados sobre a eficácia de tais drogas demonstrem resultados positivos, obscurecendo uma série de achados negativos.

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Desde 2006, a Organização Mundial da Saúde determina que pesquisas com drogas têm que  pré-registrar no banco de dados quais são os indicadores dos resultados pretendidos. Isso foi projetado para justamente evitar viéses seletivos nos relatórios, um tipo de prática enganosa em que os pesquisadores manipulam os indicadores de resultados e, em seguida, relatam somente os que são positivos.

Pesquisadores da Utrecht University recentemente realizaram um estudo. A investigação foi coordenada por Jurjen J. Luykx, do Departamento de Neurociência Transnacional. Luykx e seus colegas descobriram que 85% dos ensaios com medicamentos antipsicóticos publicados não relataram os indicadores de resultado que eles indicaram quando pré-registraram seus estudos. Na verdade, de acordo com os pesquisadores:

“81% dos [ensaios com antipsicóticos] tinham pelo menos um resultado secundário não relatado, recém-introduzido ou alterado, para dar um resultado primário na respectiva publicação”.

Para se entender melhor o que está em jogo, eis como isso é feito. Quando os pesquisadores conduzem estudos para determinar se determinados medicamentos são eficazes, é prática padrão declarar um resultado primário (como por ex. a pontuação em uma medida padronizada de psicose). No entanto, quando os pesquisadores utilizam questionários múltiplos que avaliam muitos tipos de resultados, são aumentadas as chances de que qualquer resultado possa ser melhorado simplesmente devido ao acaso. Ou seja, quanto mais testes se executa, maior a  probabilidade que um deles encontre algum resultado significativo.

Quando os pesquisadores informam sobre o teste que resultou positivo, em vez do teste que eles selecionaram para o resultado primário no início do estudo, isso é conhecido como ‘viés de relatório seletivo de resultados’. Isso permite que os pesquisadores se assegurem que seus resultados sejam positivos e publicáveis; mas isso tem o efeito colateral de enganar o público – e potencialmente outros pesquisadores – ao se pensar que os resultados foram uniformemente positivos.

Luykx e seus colegas encontraram 48 estudos publicados, desde 2006, de controle randomizados de medicamentos antipsicóticos para esquizofrenia ou transtorno esquizofrênico, e compararam os resultados relatados com os indicadores de resultado que eles haviam registrado na base de dados de ensaios clínicos antes de haverem iniciado seus estudos. No entanto, 17 dos 48 ensaios haviam sido registrados no banco de dados antes que as pesquisas estivessem sido concluídas, fazendo malograr a finalidade do pré-registro dos resultados esperados.

Dos 48 ensaios, quatro nem sequer mencionaram algum dos resultados primários pré-registrados em sua publicação. Outros três converteram seu resultado primário pré-registrado em um resultado secundário ao publicar a pesquisa (ou seja, o resultado primário parece ter sido o menos importante). Outros dez estudos não conseguiram pré-especificar adequadamente seu resultado primário.

Os resultados secundários mostraram ainda mais discrepâncias. Dezoito dos ensaios falharam em mencionar seus resultados secundários pré-especificados em sua publicação; quatro dos estudos converteram um resultado secundário em um resultado primário para a publicação (fazendo parecer que era o resultado alvo, quando de fato era uma parte menor do estudo); e 37 dos 48 ensaios não conseguiram pré-especificar todos os seus resultados secundários.

Quanto à segurança e à tolerabilidade dos medicamentos antipsicóticos, houveram 74 resultados pré-especificados – dos quais 53 foram incluídos nas publicações como relevantes. No entanto, os artigos adicionaram 335 novas medidas de resultado em relação à segurança e à tolerabilidade que não haviam sido pré-registrados. Isso pode indicar que os pesquisadores realizaram uma miríade de testes de segurança e tolerabilidade para publicar seletivamente os que eram favoráveis.

Essas descobertas são consistentes com pesquisas anteriores que encontraram resultados semelhantes para pesquisas tanto para com drogas antipsicóticas  (ver artigo completo) quanto para os antidepressivos (ver artigos completos aqui e aqui). Esses estudos também documentam outras formas de viéses, como a tendência a se deixar os resultados negativos como não publicados. Por exemplo, em pesquisas com antidepressivos, quando ensaios publicados e não publicados são combinados, 49% destas pesquisas descobriram que os medicamentos não eram mais eficazes do que placebo.

Luykx e seus colegas pesquisadores sugerem que a comunidade de pesquisadores precisa ser mais cuidadosa. Os autores devem explicar discrepâncias em seus artigos publicados, e os editores de revistas devem exigir que os pesquisadores deem conta das suas medidas de resultado previamente especificadas.

Somente quando essas fontes de vieses forem reduzidas, o público poderá confiar na veracidade dos estudos que avaliam a eficácia e a segurança dessas drogas.

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Lancee, M., Lemmens, C. M. C., Kahn, R. S., Vinkers, C. H., & Luykx, J. J. (2017). Outcome reporting bias in randomized-controlled trials investigating antipsychotic drugs. Translational Psychiatry, 7, e1232. doi:10.1038/tp.2017.203 (Link)

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