Grupos de Ajuda Mútua como Instrumento de Empoderamento para Familiares e Usuários

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O artigo intitulado Psicoeducação e Terapia de Resolução de Problemas como um modelo integrativo de grupos de ajuda mútua para pessoas com transtornos mentais severos: um relato brasileiro descreve um estudo de caso sobre um Programa de Suporte entre Pares, chamado “Entrelaços”, realizado no Instituto de Psiquiatria da UFRJ.

Entre os anos de 2011 e 2019, 246 pessoas entre usuários e seus familiares participaram de oito seminários seguidos por grupos de resolução de problemas em um ciclo que durou 18 meses. Dos participantes que concluíram os seminários, 90% decidiram criar 7 grupos comunitários de ajuda mútua independente de técnicas e da instituição. O grupo já serviu mais de 214 famílias e tem organizado eventos científicos, sociais e anti – estigma, expandindo sua rede de suporte social e demonstrando empoderamento.

Grupos de ajuda mútua são considerados uma forma de suporte entre pares usualmente conduzido de maneira autônoma apesar de receber ajuda profissional durante a fundação dos grupos. Os princípios fundamentais desse suporte é o respeito, responsabilidade compartilhada e acordo mútuo sobre o que eles identificam útil para eles, sem necessariamente ser baseado em modelos psiquiátricos de doença. A prioridade é o conhecimento através da experiência, por trocas de experiências, habilidades de enfrentamento e o compartilhamento de modelos de recuperação.

A criação dos grupos do programa “Entrelaços” apresenta os seguintes estágios: (1) Boas -vindas e avaliação; (2) produção de conhecimento e reflexão, (3) compartilhamento de experiências e soluções e (4) ação entre pares.

(1) familiares e usuários são recebidos por uma equipe técnica para uma primeira apresentação. Os objetivos e estrutura do programa são explicados.

(2) Dura de 8 a 12 semanas. Tópicos de interesse das famílias são discutidos para a produção de conhecimento sobre os transtornos mentais e para construir reflexões de mudanças.

(3) Terapia de grupo multifamiliar. Cada grupo possui de 6 a 8 famílias e dois membros técnicos. A seleção de famílias obedece dois critérios: participação em pelo menos 75% dos seminários (não obrigatório para usuários) e a região em que reside. Os grupos são misturados entre familiares e usuários. No primeiro encontro realizado um treinamento para que cada família construa seu genograma e apresente para os demais, como uma forma de apresentar sua família. Posteriormente, é apresentado o método da resolução de problemas. Depois de escutar todos os membros é decidido qual problema será discutido pelo grupo, abrindo para discussão de soluções.

(4) Com a vontade e disponibilidade dos membros do grupo em manter as reuniões fora da instituição, eles se responsabilizaram por escolher o par de coordenadores, a identidade do grupo e o local dos encontros. Dois membros da equipe técnica continuou participando dos grupos durante 6 meses, até que o grupo seja considerado maduro para seguir por conta própria.

Os seminários e grupos multifamiliar são baseados no “recovery”, o olhar sobre o transtorno mental como um estado de vulnerabilidade ao estresse, a importância da família e da comunicação, habilidades para a resolução de problemas, o estímulo de novas narrativas e uma nova forma de ver o transtorno e a si mesmos.

Como conclusão, os autores afirmam que os grupos de ajuda mútua são consistentes com as ideias da reforma psiquiátrica e com o movimento de reabilitação, além de preencher a lacuna que existe no Brasil em dar voz ativa a população que ainda não tem suficiente representação e protagonismo. Esta pode ser uma reverberação e um efeito cativante nos serviços de psiquiatria tradicionais, profissionais de saúde, gestores, políticas e sociedade como um todo, transformando aos poucos os serviços de saúde mental e auxiliando na desistigmatização dos transtornos mentais.

 

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Palmeira, L. et al. Psychoeducation and Problem-Solving Therapy as an Integrative Model of Mutual-Help Groups for People with Severe Mental Disorders: A Report from Brazil. Community Ment Healthy J .2020 Apr;56(3):489-497. (link)